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Os longos caminhos da idade

Matéria publicada em 16 de março de 2018, 07:00 horas

 


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Nada como ter 16, 18, 20 anos. Viver plenamente a juventude é algo esplêndido, saber que se pode ter uma vida inteira pela frente é magnífico. Quando se é jovem quase nunca se olha para trás. Foca-se nitidamente os olhos para o horizonte, coloca-se um sorriso no rosto e pé no acelerador. Não se tem medo de nada, somos heróis de nós mesmos.
Mas o tempo passa, os ponteiros do relógio são impiedosos e não param nunca, não descansam nem por um segundo. A vida corre célere rumo ao futuro.
O tempo, senhor das horas, dá as cartas e nos traz a idade. Avançamos as casas quase sem perceber: 30, 40, 50, 60, 70, 80 e eis que nos encontramos no presente com aquele futuro que víamos lá trás. Ele agora está ao nosso lado, nos fazendo companhia.
Deixamos bem longe a doce juventude e com ela muitas outras coisas que nos fazia vibrar, sorrir quase que ininterruptamente. Por sua vez ganhamos vivência, experiência e maturidade. Fica a pergunta: o que fazemos com ela neste momento da vida?
É fato que a idade nos trouxe alguns “direitos”, como o de viajar gratuitamente em conduções, privilégio de estar a frente em filas e assentos especiais, desconto em determinados programas culturais ou de saúde, tudo isso uma espécie de salvo-conduto porque chegamos sã e salvos até aqui.
São benesses criadas talvez para compensar ou nos recompensar pelos serviços prestados a nação, uma espécie de bondade dada em prol dos cabelos brancos e da perda do viço juvenil.
O tempo é indiscutivelmente um excelente professor. Ele nos deu ao longo de todos esses anos grandes aulas, nos ensinou o certo e o errado, os caminhos a serem seguidos de maneira correta e nos mostra agora que nossas rugas estão aqui e ali, espalhadas pelo nosso corpo para nos deixar a postos, nos fazendo lembrar, a todo momento, do muito que vivemos e que agora é hora de continuar a viver, mas de maneira muito menos exigente. Agora é hora de colocar o pé no freio, nos fazendo conduzir de maneira mais tranquila, quando então podemos apreciar mais e melhor a paisagem a nossa volta.
Então, para aqueles que chegaram passo a passo a nova idade, caminharam até a longevidade da vida, o tempo é outro. O amor, o sexo, a diversão, o esporte entre tantas outras coisas, tudo se torna diferente, ganha-se um novo sabor, uma nova forma de sentir os prazeres.

Envelhecer…

Envelhecer é um fenômeno natural e inerente a todas as espécies e sendo assim, essa convivência tem que ser sempre feliz e, sobretudo, bem amparada. Veja que na China e no Japão, velhice é sinal inequívoco de sabedoria e respeito. Os anciãos são consultados, ouvidos antes de qualquer decisão por parte dos mais novos, isto porque são sinônimos de credibilidade, pela enorme experiência de vida que carregam. São milhões de idosos por todo o país, onde mais de 50 mil deles ultrapassam os 100 anos de idade.
Enquanto no Brasil o idoso tem a todo instante seus direitos ultrajados, nos países asiáticos se busca a todo instante tecnologias para poder ajudá-los a viver melhor a vida.
Aqui, segundo a expectativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de que até 2050, o número de pessoas com mais de 60 anos de idade, supere o de brasileiros com até 29 anos. Caminhamos largamente para somarmos um país de pessoas longevas, onde muitas chegam aos 70, 80 ou mais por puro milagre, uma vez que o nosso país investe muito pouco ou quase nada para que eles possam ter uma vida, no mínimo, razoável.
Já somos mais de 15% de idosos no país e como este número aumenta dia após dia, o que fazer com eles que não seja apenas colocar aparelhos de ginástica pelas praças das cidades, acreditando que isso será a eterna e única distração para essa população. Porque é justamente nessa idade que se instala a depressão, devido a total falta de assistência médica e o acintoso descaso ou até mesmo abandono por parte da família.
Cálculos seguros revelam que a partir de 2050 de cada três brasileiros, um será idoso. Seremos 19 milhões de idosos acima de 80 anos. Portanto, o desafio está em lidar com esta previsão que, certamente, tornará-se realidade. Quais serão as medidas para cuidar dessa feliz constatação, isso de forma a evitar que se torne um problema, um estorvo, um crime?
Até onde ajuda e cuida de verdade a Política Nacional do Idoso? O Estatuto do Idoso, a Lei 10.741/2003, tem como objetivo regular os direitos do cidadão a partir dos 60 anos. Na prática pouco é colocada em prática, muitas vezes se resume a um papel colado na parede de repartições e órgãos públicos e nada mais.
Existe e deve ser usado o Disque 100, um telefone que atende denúncias contra direitos humanos e que já somou mais de 32 mil denúncias de violência contra idosos.
Enfim, eis aqui um assunto vasto, quase interminável e que deve ser debatido e colocado em prática por todos nós brasileiros e, sobretudo, pelos Governos que muitas vezes na sua sanha de se locupletar, se esquecem de que muitos dos seus eleitores são idosos, que acreditam ainda em sonhos e promessas, tem desejos e necessidades e que se não forem capazes por impossibilidade de chegar até as urnas, seus filhos, netos, entre outros, poderão fazer por eles, retirando de cadeiras acolchoadas nomes ineficazes e incapazes da nossa política.
Fica com carinho para fechar esta crônica um pequeno poema escrito por um espetacular escritor gaúcho, Mário Quintana, que nos deixou aos 88 anos, em 1994. Um sutil recado para aqueles que acreditam que velhice não combina com cuidado e amor. “Todos esses que aí estão, atravancando o meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

2 comentários

  1. Acho simplesmente RIDÍCULO alguns idosos que usam camisas com os dizeres ” MELHOR IDADE ” . Ora bolas, melhor idade para mim, é quando tinha 21 anos. Morava no hotel da CSN na Rua 33, dormia com 3 gatas, acordava as 6 da matina, tomava banho e ia encarar a USINA. Hoje com 80, não tô ENCARANDO mais nada, rs.

  2. Acho que a melhor idade é os 30 você tem o vigor e a beleza da juventude só que não é bobinho como quando tina 18, 20…
    O resto é balela.

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