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Os mísseis de abril

Matéria publicada em 14 de abril de 2017, 07:00 horas

 


Trump desaponta russos e o mundo retorna à Guerra Fria; o que vai acontecer daqui para frente vai depender dos esforços diplomáticos

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Na semana passada o líder russo Vladimir Putin teve a maior surpresa de sua carreira. Foi acordado com a notícia de que o presidente americano Donald Trump, cuja eleição apoiou, tinha mandado disparar 59 mísseis Tomahawk contra a base aérea de Shayrat, na Síria, do seu amigo Bashar al-Assad. Como muitos eleitores americanos Putin achava que as coisas iam ser diferentes com Trump. Afinal, o presidente americano tinha prometido que os Estados Unidos iam se concentrar na luta contra o Estado Islâmico deixando Assad livre para agir como quisesse.

Como Putin, os eleitores de Trump ficaram indignados. Um deles chamou o presidente de traidor e acrescentou: “Se eu quisesse mais envolvimento americano no oriente médio teria votado nos outros candidatos”. Trump esqueceu suas promessas de campanha depois de assistir aos vídeos de um ataque com gás sarin contra civis da cidade de Khan Shaykhun, no dia 4 de abril. O sarin é um gás que ataca o sistema nervoso, provocando a morte por asfixia. Foi banido por uma convenção internacional, mas isso não significa nada para os líderes do Oriente Médio.

O finado Saddam Hussein usou o sarin contra os curdos e contra os iranianos na década de 1980. O exército sírio tinha estoques desse gás, que aparentemente não foram totalmente destruídos apesar da pressão internacional. Com sua chuva de Tomahawks, Trump cumpriu a promessa de seu antecessor, Barak Obama, que ameaçara Assad com uma retaliação caso ele voltasse a usar armas químicas na guerra civil da Síria. Em resposta ao ataque americano os russos deslocaram uma fragata para a costa da Síria e ameaçaram Washington com uma ação militar em caso de novo ataque.

Estamos de volta aos tempos da Guerra Fria, quando russos e americanos viviam em pé de guerra trocando ameaças. A tensão mundial também aumentou com os testes com mísseis balísticos feitos pela Coréia do Norte. No dia 5, um dia depois do ataque químico na Síria o ditador norte-coreano Kim Jong-Um ordenou novos testes com foguetes. O que levou Trump a deslocar o porta-aviões nuclear Carl Vinson para a península da Coreia. Furioso Kim Jong-Um ameaçou os Estados Unidos com uma catástrofe no caso de um ataque preventivo.

Apesar de toda essa retórica bélica as duas superpotências tem agido de forma moderada até agora. O ataque americano da quinta-feira passada foi mais um puxão de orelha em Assad do que uma ação militar efetiva. Antes de bombardear a base Síria, Washington avisou aos russos que certamente advertiram aos seus aliados Sírios. O que deu tempo de tirar os aviões dos hangares e reduziu ao mínimo os danos sofridos pela base aérea.

O míssil Tomahawk foi projetado para carregar ogivas nucleares. Com explosivos convencionais ele se torna uma arma muito pouco eficiente. Inadequada para destruir objetivos dispersos como bases aéreas e campos de treinamento. É bom lembrar que no governo do Bill Clinton os americanos usaram esse tipo de míssil contra os campos de treinamento da Al Quaeda, no Afeganistão, sem nenhum resultado efetivo. A resposta russa ao ataque também foi branda. Mandaram uma fragata, a almirante Grigorovich para a base de Tartus na Síria. Uma única fragata contra dois destroyers americanos da classe Arleigh Burke é dificilmente o que chamaríamos de uma demonstração de força.

O que vai acontecer daqui para frente vai depender muito dos esforços diplomáticos. Russos, americanos e chineses têm muito a perder no caso de uma escalação dos conflitos. É de se esperar que a China faça o possível para conter as ameaças do Kim Jong-un. Enquanto os russos devem conter Assad evitando novos ataques químicos.

Mas não há dúvida de que vivemos tempos muito perigosos.

Surpresa: O USS Ross dispara contra a Síria

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JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

Um comentário

  1. Muito interessante a lição sobre geopolítica e sobre os armamentos. Estamos vivendo uma nova era na política externa americana. Bom para o mundo? Só o tempo dirá.

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