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Capa / Ciência – Por Jorge Calife / Os segredos do abismo

Os segredos do abismo

Matéria publicada em 18 de janeiro de 2018, 14:48 horas

 


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Ninguém fala mais no submarino argentino ARA San Juan que sumiu no Atlântico Sul em novembro. Vai completar dois meses, a embarcação foi considerada perdida e as buscas abandonadas. Aparentemente o submarino russo, que ia pesquisar a região do desastre, também não encontrou nada. O fundo do mar é um ambiente mais hostil e inacessível do que o espaço sideral. E quem disse isso foi o astronauta americano Scott Carpenter, que se tornou mergulhador depois de orbitar a Terra durante o projeto Mercury.

Uma nave espacial pode ser feita de material leve, porque ela só precisa resistir a pressão interna do ar. Os módulos lunares, que levaram os astronautas americanos até a superfície da Lua, eram feitos de um metal tão fino, que um astronauta poderia furar com um chute. Já os submarinos precisam resistir a uma pressão de toneladas por metro quadrado. Seu casco de pressão é feito de aço com vários centímetros de espessura e soldado com precisão.

Além disso, no espaço sideral a visão é ilimitada. O astronauta não tem dificuldade de enxergar o que se encontra ao seu redor. Lá de cima ele pode ver até as trilhas de vapor deixadas pelos aviões na atmosfera. No fundo do mar a visibilidade não vai além de alguns metros. Além disso, a luz do Sol só penetra até uns duzentos metros de profundidade. No fundo dos oceanos a escuridão é total e o explorador se vê tateando em um ambiente onde até uma montanha fica invisível se estiver a mais de 50 metros de distância.

Mesmo assim a tecnologia tem progredido muito nos últimos 100 anos. Em 2009, submarinos robôs norte-americanos do tipo Remus 6000 conseguiram encontrar os destroços do avião Airbus 330, da empresa Air France a 3980 metros de profundidade no meio do oceano Atlântico. Uma profundidade equivalente a do talude continental onde se perdeu o submarino argentino.  Os robôs foram desenvolvidos pelo Instituto Oceanográfico Woods Hole, a mesma instituição que encontrou os destroços do transatlântico Titanic em 1982 e o casco do navio de guerra alemão Bismarck, perdido durante a Segunda Guerra Mundial.

Os robôs do Woods Hole representam um avanço notável em relação ao primeiro veículo de exploração submarina profunda, a batisfera, criada em 1930 pelo engenheiro americano Otis Barton. A batisfera, como o nome indica, era uma bola oca de aço com paredes de 2,5 centímetros de espessura. Janelas de quartzo, com 7,6 cm de espessura permitiam que o tripulante fotografasse os peixes e o fundo do oceano. Com essa batisfera o naturalista americano William Beebe desceu até uma profundidade de 920 metros, perto das ilhas Bermudas batendo um recorde.

O problema com a batisfera é que ela ficava presa por um cabo de aço a um navio na superfície. Se o cabo rompesse a esfera e seus tripulantes estavam perdidos. Buscando um meio mais seguro de explorar o fundo do mar, o cientista suíço August Piccard criou o batiscafo na década de 1940. O batiscafo usa o mesmo princípio dos balões dirigíveis. Ele contém um casco cheio de gasolina, que é mais leve do que a água e assim faz a embarcação flutuar. E uma bola de aço oca embaixo, onde ficam os tripulantes (os balões flutuam na atmosfera por estarem cheios de gás mais leve que o ar).

O último batiscafo de Piccard foi usado para encontrar os destroços do submarino nuclear americano Thresher, perdido em 1963. A perda do Thresher levou o governo americano a financiar a construção de inúmeros submarinos de pesquisa profunda, como o Alvin, usado na exploração do Titanic.

No futuro devem entrar em operação submarinos capazes de se mover com a agilidade dos aviões na atmosfera. E descer até os abismos mais profundos.

Remus 6000: Achou o avião da Air France em 2009

Remus 6000: Achou o avião da Air France em 2009

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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3 comentários

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  3. Muito triste o que aconteceu com o submarino argentino. É assustador como que, apesar de toda a nossa tecnologia, o mar ainda se apresenta como um ambiente hostil e indomável.

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