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Os super velhinhos

Matéria publicada em 14 de fevereiro de 2017, 07:00 horas

 


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Ninguém acreditava que pudesse sair mais nada daquelas raquetes mágicas nem daquelas pernas balzaquianas, mas ele surpreendeu a todos.

O tenista Roger Federer, no crepúsculo (será?) de sua brilhante carreira, e às portas dos seus 36 anos (um ancião para os padrões ultra competitivos do esporte), ganhou um dos mais importantes torneios de tênis do mundo, deixando para trás tenistas mais jovens e bem ranqueados. Isso depois de meio ano afastado das quadras devido a uma cirurgia no joelho.

Talvez ele seja tão genial e fora do padrão que o exemplo não lhe caiba. É um caso em que o talento supera a biologia.

Um mês antes, o canadense Ed Whitlock completou a maratona de Ontário em menos de quatro horas. Ok, tem muita gente que faz a maratona em bem menos tempo. Mas não aos 85 anos de idade. Aliás, a maioria das pessoas, de qualquer idade, sequer conseguiria completar os 42 quilômetros de uma maratona.

Ed é um mistério fisiológico que a ciência vem estudando. Não toma remédios, não faz musculação, não tem treinador, não faz alongamentos e nem usa suplementos, e tem uma saúde de ferro.

“Eu acredito que todo mundo pode ir muito mais além do que pensa que pode”, resumiu, numa entrevista ao New York Times.

Faz pouco tempo, faleceu um dos mais brilhantes pensadores contemporâneos, Zygmunt Bauman, aos 91 anos de idade, e mesmo nessa idade preservando um pensamento afiado, muito a frente de seu tempo.

Mas qual o segredo desses super velhinhos, ou superagers, para usar um termo cunhado pelo neurologista Marsel Mesulam ?

Pesquisadores do Hospital Geral de Massachusets fizeram um estudo com ressonancia magnética para tentar identificar o que torna essas pessoas tão diferentes de seus pares da mesma idade.

Morfologicamente, os cérebros dos superagers são bastante diferentes dos de pessoas da mesma idade, e se aproximam do padrão de um cérebro mais jovem, sem as atrofias naturais da idade. Aqueles que tinham as camadas do cortex mais grossas, por exemplo, tinham uma performance muito melhor nos testes de memória e atenção.

Ok, mas qual o segredo? O que distingue essas pessoas, ou que tipo de atividades eles fizeram para poder se manter fisica e mentalmente mais capazes do que a média, retardando tanto os efeitos da passagem do tempo?

Os estudos ainda não são conclusivos, mas apontam para o fato de que essas pessoas sistematicamente se exigem muito, do físico ou da mente. Resumindo: trabalho duro, esforço, assumir desafios, tanto da mente quanto do corpo.

No pain no gain? Sem esforço não há recompensa?

Mais ou menos isso. O estudo mostra que essa é uma estrada pedregulhosa. Claro, são superagers, não averagers. Segundo esses cientistas, o esforço leve, como fazer palavras cruzadas ou Sodoku, pode ser útil, mas não o suficiente para se tornar um superager. Ou seja, é preciso um esforço genuíno, que realmente te desafie e exija o máximo de você.

E isso não é pra todo mundo, porque o esforço excessivo também cansa, desgasta e às vezes aborrece as pessoas.

Mas a ciência pelo menos está apontando uma direção. E esse caminho é aquele em que você se mantém ativo, pratica atividades físicas, lê muito, aceita desafios, aprende coisas novas e se esforça para evoluir sempre.

Todos nós estamos envelhecendo, envelhecer é parte do processo de estarmos vivos, mas é importante envelhecermos com o máximo de saúde física e lucidez mental. Portanto, cuide bem de si mesmo .

Que daqui a um par de anos, a gente se encontre em alguma maratona por aí.

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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