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Oswaldo Cruz e a febre amarela no Brasil

Matéria publicada em 31 de março de 2017, 07:00 horas

 


Doença provocou revolta no Rio de Janeiro em 1904; ‘cidade maravilhosa’ era um dos lugares mais insalubres do mundo

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A imprensa anda tratando o surto de febre amarela como se fosse uma grande novidade. Outro dia um telejornal disse que “a febre amarela veio da África e por isso os macacos brasileiros não têm resistência contra ela”. Mas basta uma consulta aos livros de história, ou a Wikipédia, para quem prefere a internet, para verificar que a doença já existia no Rio de Janeiro nos séculos XIX e início do século XX. E o sanitarista Oswaldo Cruz ficou famoso combatendo os mosquitos e suas doenças aí por volta de 1904, quando a “cidade maravilhosa” era um dos lugares mais insalubres do mundo.

Quem chega ao Rio pela Avenida Brasil não deixa de notar um prédio em forma de castelo, em estilo mouro, do lado direito da avenida, na altura de Bonsucesso. É o Instituto Oswaldo Cruz, ou FioCruz, onde são fabricadas vacinas e feitas pesquisas sobre doenças tropicais. O instituto nasceu das pesquisas feitas por Oswaldo Cruz, médico e sanitarista que morreu em 1917. Nascido em 1872 ele se formou em Medicina e estagiou no famoso Instituto Pasteur, em Paris, uma instituição pioneira na pesquisa de vacinas. Quando voltou ao Brasil, em 1899, Cruz organizou um combate a um surto de peste bubônica, doença transmitida por ratos, que atingia o porto de Santos.

Tendo sucesso veio para o Rio de Janeiro, onde foi nomeado diretor geral da saúde pública. Durante o combate a peste bubônica o cientista tinha demonstrado que a doença era incontrolável sem a vacina, que era importada e difícil de conseguir. O governo então seguiu sua sugestão e criou o Instituto Soroterápico Federal onde é hoje a Fiocruz. Com as vacinas produzidas no Instituto, Oswaldo Cruz passou a combater a febre amarela, que era comum no Rio de Janeiro.

Limpeza

A cidade era suja, cheia de lagoas e depósitos de lixo a céu aberto, o que facilitava a proliferação dos mosquitos. Em 1904 Oswaldo Cruz criou os “batalhões de mata mosquitos” para recolher lixo, limpar terrenos e destruir os focos de mosquito. E iniciou uma campanha de vacinação em massa da população, o que provocou uma revolta popular. As pessoas tinham medo de tomar a vacina, diferente do que acontece hoje em dia. Até a Escola Militar aderiu a revolta que provocou passeatas e depredações. Mas o sanitarista acabou vencendo a oposição e a desconfiança. As lagoas foram aterradas e os focos de mosquito eliminados. Durante todo o século XX não se falou mais em febre amarela no Rio de Janeiro.

Com as obras de modernização da cidade o Rio ganhou fama de cidade maravilhosa. Os comandantes dos navios, que antes evitavam parar na baía de Guanabara com medo das doenças tropicais, passaram a ver a cidade como um destino turístico. O Rio ganhou uma nova cara depois do saneamento. Da cidade suja, das lagoas, dos lixos e dos mosquitos surgiu a metrópole das praias, da vida noturna com o Cassino da Urca, do samba e do Carnaval.

Levou décadas para se construir essa imagem, celebrada até nos filmes de Hollywood, como “Voando para o Rio”. Hoje, tudo o que foi construído no século passado está sendo perdido. Primeiro com a violência, as notícias sobre mortes e os ataques a turistas. Só na semana passada uma turista argentina morreu baleada ao tentar chegar ao Cristo Redentor. Ela seguiu as indicações do GPS, entrou por engano em uma favela e foi fuzilada pelos bandidos. E agora tem também a dengue, a zika e a febre amarela.

Os prejuízos só para a indústria do turismo são enormes e dificilmente serão revertidos. É um problema pior que o da carne brasileira, já que será necessário sanear a cidade novamente e conseguir conter a violência. O projeto das UPPs e da ocupação dos morros fracassou por falta de apoio e de verbas. E ainda não surgiu nenhuma alternativa nova.

Quanto a questão sanitária é esperar para ver se os mosquitos que Oswaldo Cruz derrotou em 1904 serão vencidos neste século XXI.

Charge: A revolta da vacina foi satirizada nos jornais da época

Charge: A revolta da vacina foi satirizada nos jornais da época

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

2 comentários

  1. O problema da segurança pública é falta de vergonha na cara e a ideologia do coitadismo, que prega que bandido é uma pobre vítima da sociedade. Qualquer bandido que hoje está portando um fuzil em uma favela carioca e aterrorizando a população já foi preso no mínimo umas 5 vezes. O que ele está fazendo solto? Lugar de bandido é na cadeia! Vítima é o pobre cidadão que tem que trabalhar tanto para no final perder seu patrimônio e as vezes até a sua vida para esses facínoras. O que há em comum entre as epidemias de bandidos e de doenças transmitidas pelos mosquitos? Falta de coragem para enfrentar o problema e uma boa dose de descaso!

  2. Consta que as autoridades se acomodaram quando o mosquito transmissor da febre amarela foi erradicado dos meios urbanos na primeira metade do século passado e que por isso o aedes aegypti não encontrou dificuldades algumas décadas depois para distribuir vírus para todo lado nos últimos 20 anos. Ou mais. Quanto ao combate à violência poderiam começar por evitar que armas e munições chegassem ao nosso estado, isso pelo menos empataria o “jogo” nos confrontos polícia x marginais. Uma força policial com setor de inteligência mais forte e sem corrupção predominante viraria o placar. Em tempo: a natureza do Rio continua maravilhosa, mas não tem como voltar ao tempo que os tamoios eram os únicos habitantes.

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