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Pai nosso

Matéria publicada em 11 de agosto de 2017, 07:10 horas

 


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Para caminharmos pelas estradas da vida, haveremos de ter pernas firmes, mãos que se entrelacem, um colo que nos acolha, um abraço que nos envolva, um sorriso verdadeiro e uma palavra que nos fortaleça.

As pernas deverão ser firmes porque a estrada é longa, cheia de subidas e descidas, muitas vezes repletas de poeira e pedra. Mãos servirão de apoio para nos ajudar a tatear no escuro das noites sem luar ou na forte luz do dia. Um colo que nos aconchegue na hora dos temporais ou mesmo nas calmarias das noites longas. Um abraço que nos conforte e proteja do inimigo visível ou invisível. Um sorriso que seja a tradução de um porto seguro. As palavras, estas sim servirão para ajudar a entender as entrelinhas do dia a dia. Importante ainda, mesmo que não verbalizado, é perceber o olhar que fale tudo o que queremos ouvir. Porque ele, com o caminhar do tempo e das horas, servirá como bússola a nos orientar pelos tantos caminhos que iremos percorrer ou como lanternas que iluminarão o percurso que nossos pés irão trilhar.

Quem tem um pai tem um tesouro. Alguns, por contingências que jamais saberemos explicar, serão meras bijuterias de falsos corsários. Personagens apagados, quase obsoletos, que figuram numa certidão sem grandes fins; outros, nem isso. Mas existem pais que, ao simples dizer dessa palavra, nada mais que quatro letras, provocam em nós a alegria do convívio ou a doçura da saudade depois da partida. Nas aventuras, será sempre o herói imbatível, aquele em quem podemos confiar no momento do voo sem rede de proteção ao nos atirarmos do sofá ou da cama. Rede forte, os infraquejáveis braços de um valoroso cavaleiro andante, mocinho único das nossas histórias da infância.

Quanto orgulho ao perceber que o pai herói transformou-se em homem como eu, alguém com quem sempre contamos, seja na adolescência, seja na maturidade, quando também nos tornamos pai e, como tal, começamos a branquear os cabelos ou, mesmo, a perdê-los.

Pai…

Pai pode ser aquele que, juntamente com nossas mães, nos possibilita chegar até aqui ou aquele que ganha em nosso coração um sagrado espaço e passa a ser como um verdadeiro pai, forjando, no decorrer da vida, o elo que nos permite outorgar-lhe esse título tão valioso.

Assim, mais que celebrar um domingo de agosto, importa saber que ele estará conosco em todos os agostos de nossas vidas, como também nos janeiros, fevereiros e marços, até findarmos os anos em dezembros de festas e celebrações. Ser pai, portanto, vai um pouco além de dinheiro e fraldas, passa pelo cuidado com a saúde, as virtudes e o porvir. Vai além do futebol, da praia e até do bar. Ser pai é um conjunto que soma tudo isso e muito mais. Não é fórmula, não é obra fechada, não é regra nem manual, talvez paixão aliada a uma boa dose de intuição.

É inegável que ser pai é uma das experiências mais transformadoras que alguém pode ter nada vida. Pena que muitos não percebam isso de imediato nem com o longo passar dos dias ou dos anos. Talvez não consigam nunca entender esse doce presente-mistério, essa dádiva.

Tenho ainda comigo o meu grande herói, com quem divido sonhos e confidências. Tenho filhos que me tornaram um pai, certamente com falhas e muitos pontos a serem reparados, mas que sabem que, apesar de tudo, ainda restam cem por cento do amor que vai de mim para eles e vice-versa, fonte renovável a cada segundo.

Ter um filho é muito fácil, mas ser pai é uma missão especial, algo para poucos. Ser pai envolve uma permanente revisão de conceitos, querendo e buscando sempre o melhor para aqueles que trouxemos ao mundo. Então, aprendemos a ser de tudo um pouco, de jogadores de futebol a doces pôneis que se deixam cavalgar. De super-homem a professor. De desenhista a corredor. De estátua a cozinheiro, passando pelo papel de judoca, palhaço, fotógrafo, motorista, aviador, médico e tantas outras profissões. Viramos verdadeiros especialistas em tudo e de nós mesmos, buscando transmitir o melhor dos ensinamentos. Ensinando a respeitar o outro e as tantas diferenças que caminham pelo mundo. É fato que nem sempre recebemos dez como nota de final de ano. Muitas vezes somos rotulados de chatos, retrógrados e imbatíveis provocadores de micos. Mas, nessa troca ímpar de experiências, de risos e lágrimas, aprendemos um com o outro o que funciona bem para a relação. Assim, seguimos rumo ao futuro, vida afora, nos adaptando, conhecendo, conquistando e amando cada parte desse processo que envolve a descoberta de ser pai e filho.

Penso que pais são homens sempre buscando reproduzir de maneira quase perfeita o que aprenderam. Homens que têm a real responsabilidade de formar futuros adultos, como também verdadeiros pais. Ser pai é fazer e deixar histórias, sejam elas quais forem, é virar lembrança boa e inesquecível no presente e no futuro de cada filho. É acreditar que lá fora existem homens e feras, e domar homens e domesticar feras é possível porque assim estaremos legitimando um mundo feliz e melhor para nossos filhos e os filhos dos nossos filhos. Em síntese: é termos a chance de deixar para o mundo um ser humano na versão melhorada de nós mesmos.

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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