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Pais e filhos na arena da vida e na literatura

Matéria publicada em 17 de fevereiro de 2017, 07:05 horas

 


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Vossos filhos não são vossos filhos. / São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. / Vêm através de vós, mas não de vós. / E embora vivam conosco, não vos pertencem. / Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, / Porque eles têm seus próprios pensamentos. Gibran Kahlil Gibran

Ouvindo algumas histórias de filhos de pais separados, deparei-me com um caso bastante comum, cuja semelhança não é mera coincidência com algum fato que por ventura você conheça e onde ambos os sexos vivem uma situação perigosa, uma armadilha do desamor.

Um/a pai/mãe com ciúmes de/a seu/sua filho/a com o/a namorado/a de/o sua/seu ex-mulher/marido resolve sair da cartola do seu ostracismo e busca de maneira frenética exercitar o seu amor que até então vivia navegando em um mar de calmaria. Eis a cultura do (des)amor moderno, das trocas algumas vezes de papel nesse teatro a céu aberto, onde numa arena franqueada ao público se encontra no centro do palco uma criança e seus pais, ansiosos por mostrarem que são feras no ato de amar.

Inevitavelmente me veio a mente esse texto de Gibran Kahlil Gibran que sintetiza esse momento de muitos casais, pais e mães, personagens de uma guerra deflagrada para se saber e ver quem ama mais os filhos, ou pelo menos quem faz melhor esse papel de mostrar que é capaz de manipular o amor dos pequenos, algo que sempre tem data para acabar, pois como disse o poeta libanês “…podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas…”

Haja vista que existem crianças e crianças, algumas são levadas para lá e para cá, numa verdadeira via Crucis do “amor” que acaba sendo decidida nos tribunais da vida, já outras mesmo com pouca idade tem a personalidade de saber o que querem e o que não querem fazer nessa história onde são meros cabos de guerra, essas são capazes de escolher com indefectível segurança entre o pai ou a mãe biológico e o “tio ou tia” que assume muitas vezes melhor que os pais o papel de genitor/a.

Existem os padrastos (rótulo um tanto quanto desgastado a partir da madrasta da sofrida Cinderela de Walt Disney, que ficaram patenteadas como mulheres más), alguns na verdade são dignos desse perigoso selo, já outros transcendem ao medo de um embate e assumem o papel de pai ou mãe com doses generosas de amor e assim são reclassificados passando a ser chamados de PAIdrasto ou MÃEdrasta.

Ao meu ver, pelo menos nesse momento acho desnecessário contar com a ajuda de uma Supernanny pinçada de um reality show da vida, alguém que sempre sorrindo tem a solução para os problemas de relacionamento familiar.

Na minha avaliação, ganham todos os pais amantíssimos e os filhos que deixam de ser objeto ou garotos de recado daqueles que mais se sentem roubados na relação, e assim passam a gozar do amor de ambos os lados, vivendo um privilégio de ter dois pais ou duas mães.

O que falta na maioria das vezes é verbalizar o amor. “Amar, verbo intransitivo!?”, esse é o título de um livro do saudoso escritor Mário de Andrade, obra inegavelmente intrigante, pois sabemos que o verbo amar, segundo a norma culta, é transitivo, pois não possui sentido completo; logo, exige um complemento. Que tal ler este livro para poder conjugar o amor a sua maneira?

Há quem classifique o amor de três maneiras: primeiro o Amor Ágape, é o amor de Deus por nós, algo incondicional, e que não está dependente de uma resposta positiva vinda de nós; depois o Amor Fileo, a pessoa retribui o amor exatamente na medida do amor que lhe é dado; por fim o Amor Eros, ele está relacionado com a parte sensual ou mesmo sexual de cada um. Mas a bem da verdade, amor é amor, sem grandes traduções ou estudos mirabolantes.

O amor pode ser visto de inúmeras formas. Se pesquisarmos na literatura atual teremos uma vasta biblioteca de comportamento para quem gosta de classificar o amor, como: Pais inteligentes enriquecem seus filhos, de Gustavo Cerbasi; Segredos de pai para filho, de Reinaldo; O homem que deu à luz, de Luc Bouveret; Filhos, manual de instruções, de Tania Zagury; As mães e os pais da gente, de Wagner Costa; ou ainda Quem, ama educa, de Yçami Tiba.

É certo que ainda existe centenas nas prateleiras das livrarias, milhares de outros títulos que podem nos dar um norte e assim nos ajudar a achar a resposta para esses impasses provocados pelo amor e ciúme, ou mesmo pela necessidade de reconhecer que a vida se transforma e continua, que é equivocado criar uma guerra gratuita por algo que já nasce com a solução pronta.

O relacionamento entre pais e filhos, com certeza, não é uma receita de bolo e não pode ser adotado ipsis litteris para todos, da mesma forma, sem tirar nem por. Cada caso é um caso, só o que não muda é o amor, ele é algo objetivo e não objeto. São Paulo na sua I Carta aos Coríntios disse ao final do texto: “Temos agora a fé, a esperança e o amor. Mas, destas três, o mais importante é o amor”.

Sendo assim, concluo na minha observação diária da vida e do que por ela passa, que estar em sintonia com as pessoas que amamos, preservando acima de tudo o bom senso, a verdade e a sensibilidade, é sempre muito mais fácil, do que impor algo que não se mensura como o AMOR.

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

2 comentários

  1. Pais e filhos, filhos e pais, desafios nem sempre vencidos, desafios nem sempre perdidos

  2. Parabéns pelo texto, Artur. Muito sábio.

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