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Perdidos no espaço e na TV em preto e branco

Matéria publicada em 5 de dezembro de 2017, 07:00 horas

 


Seriados eram melhores quando a televisão ainda não tinha cores; ninguém aguenta nossa realidade patética o tempo todo

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Esta semana resolvi tirar uma folga das misérias do Brasil e do mundo e viajar no tempo para o início dos anos de 1960. Os anos JK, quando a televisão ainda era em preto e branco, mas bem mais sofisticada do que esse lixo colorido que as pessoas consomem hoje em dia. Por que esse ataque de nostalgia? Porque ninguém, nem mesmo um jornalista profissional, aguenta nossa realidade patética o tempo todo. Que se danem o Temer, o Kim Jong-un e o Sérgio Cabral. Estou perdido no espaço.

Para o público moderno o nome “Perdidos no Espaço” costuma ser associado com um seriado besteirol sobre um menino e um robô. Mas houve outro Perdidos no Espaço. Uma série de belos filmes em preto e branco narrando a saga de uma família de colonizadores do futuro, que atravessavam a galáxia em um pequeno e frágil disco voador. Alguns desses filmes podem ser considerados clássicos do gênero. São pequenas obras primas com sua bela fotografia de luz e sombras, suas galáxias fosforescentes e seu clima de aventura e mistério.

Ao serem filmados nos anos de 1960 os primeiros episódios de “Perdidos no Espaço” custaram 600 mil dólares, uma pequena fortuna naquela época. Mas é a competência da equipe de produção que dá um toque especial a cada fotograma de episódios como “A nave fantasma”. Em “Jornada nas Estrelas” o espaço é uma escuridão onde pontos luminosos derivam lentamente. Em “A nave fantasma” o espaço é um mar de plasmas luminescentes onde galáxias desabrocham como flores e enxames de estrelas, qual diamantes luminosos espalham-se pela tela da televisão.

Tudo brilha nesta visão mágica do Universo. Envolta em um casulo de plasma fosforescente a nave Júpiter 2 parece fazer parte das nebulosas que atravessa. Os trajes metalizados usados pelos tripulantes cintilam com o brilho das estrelas. O interior da nave tem constelações de pequenas luzes se acendendo em padrões mutáveis nos painéis dos computadores. Uma recriação humana da galáxia lá fora.

Em uma cena a jovem colonizadora do Espaço leva uma caneca de café para seu namorado, de vigília na ponte de comando. As estrelas brilham nos olhos da moça, seu cabelo platinado tem o mesmo tom da galáxia de Andrômeda estendendo-se além da janela panorâmica. A nave e seus tripulantes são parte do Universo, estão em comunhão perfeita com as formas fluorescentes que os envolvem.

Alguns minutos depois o Júpiter 2 encontra uma imensa nave extraterrestre. Ela é negra como o espaço, imensa, cavernosa. Como o monolito do 2001 ela representa o infinito cósmico. O disco voador entra na nave em meio a teias de matéria cristalina. Os tripulantes saltam, homens e mulheres prateadas, cintilando com a luz das estrelas. Prontos a encarar a escuridão, o enigma que pode consumi-los como um buraco negro.

O líder da expedição e o piloto do disco voador examinam um painel de controle da nave alienígena. Novos rios de plasma e nuvens de estrelas se materializam em uma tela panorâmica. “É, parece haver um bocado de tráfego lá fora”, comenta o professor Robinson. “Perdidos no Espaço” era o entretenimento perfeito, que reunia a família inteira diante da TV, acompanhando as peripécias daquela outra família, cuja casa era um luminoso disco voador.

E quando terminava desligávamos a TV e saíamos para o quintal de casa. Era noite, a Via Láctea cruzava o céu acima de nossas casas (naquele tempo a iluminação de sódio ainda não tinha apagado as estrelas do céu), tão misteriosa e brilhante como no filme.

Havia mágica em nossas vidas.

“Perdidos no Espaço – Episódio 2 – A nave fantasma” está disponível em DVD.

 

Aventura: A casa da família Robinson

Aventura: A casa da família Robinson

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

6 comentários

  1. Em temas anódinos (os nervosinhos da coxinhada paneleira não precisam consultar o Google, porque já sabem o significado), a Dona Florinda até que vai bem. Prossiga nessa toada, é melhor. Abraços.

  2. Boas recordações! Me lembro que da primeira vez em que essa série foi exibida, era apresentada aos sábados no início da noite. Os personagens mais marcantes eram sem dúvida o menino Will Robinson, o robô e o “mau-caráter” Dr. Smith. Logo após cada episódio vinha uma outra atração imperdível na época, o Telecatch Montilla, com Ted Boy Marino, Verdugo, Leopardo (que a propósito morava em Barra Mansa) e outros “heróis” da luta livre… Bons tempos…!!!…

  3. Não sou dessa geração e não acompanhei Perdidos no Espaço, mas me lembro quando era criança e acompanhava religiosamente as reprises de Jornada nas Estrelas, a série original da década de 60. Essas séries antigas são muito boas e, apesar de não terem efeitos especiais de encherem os olhos, seus roteiros eram geniais.

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