ÔĽŅ Quando o Brasil era o pa√≠s do futuro - Di√°rio do Vale
quinta-feira, 16 de agosto de 2018

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Quando o Brasil era o país do futuro

Matéria publicada em 2 de fevereiro de 2018, 06:48 horas

 


Filme de 1964 captura o espírito de uma época maravilhosa

Quando eu era crian√ßa o Brasil era o pa√≠s do futuro. E at√© os americanos acreditavam nisso. O escritor ianque L Sprague de Camp escreveu uma serie de aventuras de fic√ß√£o cient√≠fica onde os brasileiros colonizavam a gal√°xia. Viv√≠amos na antev√©spera desse futuro e quando Juscelino Kubitschek inaugurou Bras√≠lia, em 1960, o mundo inteiro saudou o projeto de L√ļcio Costa como se fosse ‚Äúa cidade do futuro‚ÄĚ. Yuri Gag√°rin, o cosmonauta russo que entrou para a hist√≥ria como o primeiro homem a ir ao espa√ßo, visitou Bras√≠lia em 1962 e disse ‚ÄúTenho a impress√£o de estar desembarcando num planeta diferente e n√£o na Terra.‚ÄĚ
Foi nesse clima que o cineasta franc√™s Phillipe de Broca filmou ‚ÄúO homem do Rio‚ÄĚ em 1963, um ano antes da revolu√ß√£o e do regime militar que mudaria o nosso futuro para sempre. De Broca era conhecido por seus filmes de aventuras em lugares ex√≥ticos, inspirados no Tin Tin dos quadrinhos. Quem olha o cartaz do ‚ÄúHomem do Rio‚ÄĚ a√≠ ao lado pode pensar que √© uma imita√ß√£o dos filmes do James Bond. Nada mais distante da realidade. Os her√≥is do cineasta franc√™s eram pessoas comuns lan√ßadas no meio de incr√≠veis aventuras, nos quatro cantos do planeta.
Sua escolha do Rio de Janeiro e de Bras√≠lia para serem cen√°rio de uma de suas produ√ß√Ķes se deve tamb√©m ao fasc√≠nio que o Brasil sempre exerceu sobre os franceses. Afinal Villegaignon tentou instalar uma col√īnia francesa ali na praia do Flamengo. Se n√£o fosse pelo Men de S√° eu poderia estar escrevendo este artigo em franc√™s. Mas n√£o acredito que nosso destino teria sido melhor se fossemos colonizados pelos franceses e n√£o pelos portugueses. Afinal a Guiana Francesa n√£o virou nenhuma potencia.
Mas voltando ao Homem do Rio, o filme √© estrelado pelo gal√£ Jean Paul Belmondo e pela estrelinha Fran√ßoise Dorleac, irm√£ da Catherine Deneuve. Que morreu queimada num acidente de carro alguns meses depois da estreia do filme. √Č o toque triste para quem viveu naquela √©poca. No filme ela √© namorada do Belmondo que √© sequestrada por bandidos em pleno aeroporto de Orly, em Paris, e levada, contra a vontade, para o distante e ex√≥tico Brasil.
√Č claro que nosso her√≥i n√£o fica a ver navios. Ele embarca num DC-8 da Panair do Brasil e vai parar na praia de Copacabana.
Depois de uma noite bem dormida na areia ele √© convidado por um menino para visitar uma favela. Que n√£o tinha tiroteios nem traficantes naquele tempo. E reencontra a hero√≠na no Jardim Bot√Ęnico s√≥ para v√™-la ser capturada e levada para Bras√≠lia pelo vil√£o Adolfo Celi. √Č quando nosso her√≥i embarca num taxi Aero Willis e diz para o motorista: ‚ÄúVamos para Bras√≠lia, depressa!‚ÄĚ. Minutos depois o carro aparece subindo a estrada para Teres√≥polis, com o Dedo de Deus logo acima. E o franc√™s pergunta: ‚ÄúJ√° estamos chegando em Bras√≠lia?‚ÄĚ. E o motorista responde: ‚Äú√Č um pouco mais a frente‚ÄĚ. At√© hoje me pergunto quanto o Belmondo pagou por aquela corrida.
‚ÄúO homem do Rio‚ÄĚ virou um cl√°ssico do cinema franc√™s, e foi restaurado para uma homenagem no Festival de Cannes de 2014. Sua mistura de aventura e com√©dia √© √ļnica e raramente foi igualada. Pena que n√£o esteja dispon√≠vel em DVD por aqui, mas no Youtube d√° para ver o trailer com o Aero Willis subindo a estrada de Teres√≥polis, o Rio de Janeiro tranquilo e sem tiroteios e uma Bras√≠lia ainda em constru√ß√£o.
No ano em que o filme passou nos cinemas os militares tomaram o poder. Foi o in√≠cio da nossa decad√™ncia, o fim do futuro prometido. Os vinte anos de ditadura levaram o pa√≠s a hiperinfla√ß√£o e a desigualdade extrema. Com o Delfin Neto esperando o bolo crescer para reparti-lo. Estava preparado o cen√°rio para a Nova Rep√ļblica e o desastre final dos governos Collor, Lula e Temer.

Cartaz: O p√īster original do filme de Phillipe de Broca. (Foto: Divulga√ß√£o)

Cartaz: O p√īster original do filme de Phillipe de Broca. (Foto: Divulga√ß√£o)

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

20 coment√°rios

  1. Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

    Bras√≠lia. Tudo come√ßou a terminar quando terminaram essa cidade… Ela representa o divisor de √°guas entre um pa√≠s desigual, mas pr√≥spero e moderno, e o pa√≠s desigual, burocr√°tico e criminal…

  2. Maniac, vou procurar ler esta obra indicada “Por que as na√ß√Ķes fracassam”, obrigado! Penso que √© isto mesmo que voc√™ falou, √© a luta pelo dom√≠nio da narrativa…

    Aqui no Brasil a narrativa hist√≥rica sobre os √ļltimos 50 anos ficou at√© o in√≠cio desta d√©cada nas m√£os de professores e historiadores comprometidos ideologicamente, e at√© na faculdade de Hist√≥ria era dif√≠cil como aluno discordar da narrativa hegem√īnica de professores e alunos, e os professores que n√£o tinham um discurso esquerdista eram injustamente taxados de “fracos” ou “burgues√Ķes”.

    Quando dei aula na faculdade, os alunos de hist√≥ria j√° vinham do ensino m√©dio com uma mentalidade t√£o formatada que ocorria algo curioso: eles n√£o conseguiam conceber, por exemplo, que os portugueses compravam escravos africanos de reinos africanos (inclusive o Benin reconhece esta d√≠vida hist√≥rica com o movimento negro da Bahia)…e o por qu√™ disto?

    A melhor aluna do curso ficou intrigada quando citei que no Brasil houve a Guerrilha do Araguaia, ela simplesmente s√≥ ouviu do colega respons√°vel pela disciplina acerca das torturas sofridas por Frei Beto e demais pessoas…Concordo que isto foi um crime e nunca deve ser esquecido, √© verdade, mas por qu√™ ocultar o outro lado?

    Por quê esconder que o PC do B implantou uma guerrilha semelhante as FARC, mas que falhou porque o EB foi eficiente e eficaz em defender a soberania brasileira (com isto não digo que todos os procedimentos nas 3 fases do combate foram legítimos do ponto de vista do Direito Internacional dos Conflitos Armados).

    Por quê escondem que o Genuíno participou desta guerrilha, foi preso pelo Exército e não foi morto?

    Ent√£o √© isto, se no meio acad√™mico alunos e professores s√≥ est√£o dispostos a ouvir aquilo que est√£o condicionados a acreditar, n√£o d√° pra esperar que alguns leitores, que medem todos pela sua pr√≥pria r√©gua, partirem pra ironias, descr√©ditos sem argumenta√ß√£o e coisas do tipo, quando leitores como eu, Agamenon, Liberdade e propriedade ou Anderson expomos um pensamento que n√£o bate com a narrativa hegem√īnica que foram condicionados a ouvir…

    O pensamento, seja de esquerda ou de direita, vira uma patologia quando deixa de ser racional e se transforma numa cren√ßa, gerando “direitopatas” e “esquerdopatas”, mas somente a estes √ļltimos √© permitido divulgarem sem san√ß√£o alguma o seu apoio incondicional a regimes que vilipendiam os Direitos humanos como Cor√©ia do Norte, China, Venezuela e Cuba.

    • Esquerdistas est√£o t√£o acostumados com a hegemonia de suas ideias no reino da esquerdol√Ęndia, que quando encontram pessoas com outros pontos de vista e estas mostram as incongru√™ncias do pensamento de esquerda, os c√©rebros deles entram em curto-circuito. A√≠ o racioc√≠nio vai embora e eles s√≥ conseguem emitir bord√Ķes e xingamentos

  3. Alexsander parab√©ns. Querer dizer que o Brasil est√° na situa√ß√£o calamitosa de hoje, por culpa dos Generais, √© no m√≠nimo, para n√£o dizer outra coisa, √© ser LEVIANO. Juscelino na √Ęnsia de construir Brasilia, gastou o que tinha e o que n√£o tinha. Acabou com a grana dos Institutos, endividou o Pa√≠s, destruiu a malha ferrovi√°ria, para beneficiar a
    Ind√ļstria Automobil√≠stica, e quanto ao JANGO, era um pamonha e quem mandava era o Brizola, seu parente. Foi tirado pelos militares por que estava de bra√ßos dados com a China de Mao . Ap√≥s o com√≠cio na Central do Brasil, que foi a gota d’√°gua para os militares entrarem em cena. E do jeito que estamos nos dias de hoje, se o Poder Judici√°rio fracassar, pois ainda √© o √ļnico que resta (Legislativo e Executivo envolvido em um mar de lama), podem anotar a√≠, os MILICOS voltam, e dessa vez, ser√° pior que 1964, onde n√£o foi dado um tiro sequer. O recado j√° foi dado pelo General Mour√£o.

    • Temos que agradecer aos militares todos os dias por n√£o termos tido o mesmo destino de Cuba. Este monte de esquerdistas que hoje t√™m a cara de pau de dizer que lutaram pela democracia lutavam para instaurar outro tipo de ditadura, comunista, que teria sido o fim do pa√≠s.

  4. liberdade e propriedade

    O Brasil √© o pa√≠s do passado! A pouco mais de 100 anos atr√°s, o Brasil imperial era uma pot√™ncia, t√≠nhamos por exemplo, a maior malha ferrovi√°ria do planeta, modal da moda, um sem fim de belas cidades a cada bela esta√ß√£o, nossas capitais eram metr√≥poles similares √†s europeias, reproduzimos r√©plicas dos seus teatros e outras imponentes constru√ß√Ķes, nossas fazendas eram verdadeiros pal√°cios, fomos a segunda pot√™ncia mundial, atr√°s da Inglaterra, mas suponho que √©ramos mais ricos. Os EUA n√£o chegavam aos nossos p√©s, √©ramos eles. Nossas cidades eram ordeiras, n√£o havia arrua√ßa, assaltos, vandalismos, etc.

  5. Carlos Magno de Oliveira

    O pa√≠s do futuro foi destru√≠do com o golpe militar de 64 para atender os interesses dos controladores da economia mundial, naquela √©poca o Brasil estava apresentando crescimento econ√īmico e se alinhava negocia√ß√£o comercial com a China (Hoje exemplo de desenvolvimento), a partir do golpe o que vimos foi onascimento da Rede Globo em 65 e o grande endividamento brasileiro devido diversos projetos altamente super faturados beneficiando empreiteiras que cresceram as custas do dinheiro p√ļblico e que sempre corromperam os poderes da na√ß√£o.
    Muitos se enganam achando que nos √ļltimos 50 anos houve governo que tivessem interesse em mudar esta realidade, todos foram eleitos para servirem aos interesses dos exploradores da na√ß√£o brasileira.
    Investiram sabiamente na mídia que aliena e doutrina o povo a não enxergar a verdade.
    Investiram em brasileiros testas de ferro que ficaram milion√°rios ajudando a destruir o sonho de milhares de jovens a terem direito de sonhar com um futuro melhor.
    Lula se reuniu em 1988 em Paris com o dono da Rede Globo, ano véspera da eleição que colocou Collor no poder e a principal tarefa do PT foi tirar votos do Brizola.
    Toda a m√°fia que sempre estiveram infiltradas no regime militar estiveram em todos os governos dos √ļltimos 50 anos (ACM, Sarney, FHC, Moreira Franco, Collor, Renan e muitos outros) e contribu√≠ram para os prejuizos nas empresas estatais que tiveram que ser doadas ap√≥s reestrutura√ß√£o feitas pelo pr√≥prio governo federal e entregues beneficiando grupos que nos exploram.
    Hoje temos um teto para gastos p√ļblicos prejudicando sensivelmente os menos favorecidos visando sobrar verbas para pagamento dos juros de nossa d√≠vida p√ļblica.
    Temos a frente do minist√©rio da fazenda e do banco central representantes dos banqueiros internacionais e investidores que nada mais s√£o que agiotas que dominam nossa triste pol√≠tica de corrup√ß√£o e entreguismo do patrim√īnio nacional.
    Uma vergonha a falta de esclarecimentos que induziram ao nosso sofrido povo que a tudo vê e pouco pode fazer para alterar esta caótica situação.

    • E o Fernando Henrique?

    • Perfeito…….

    • Mais um esquerdista f√£ da Venezuela.

    • CARLOS MAGNO :

      Queria eu ter escrito este coment√°rio, claro e did√°tico.

      Que nosso sofrido povo, especialmente os jovens, tome consciencia que somos escravos ainda, n√£o do chicote,mas sim escravos econ√Ķmicos do grande capital e da banca internacional.
      PT, PSDB, PMDB, PTB e todos os outros, só massa de manobra de quem realmente manda.
      Eduquemo-nos para que possamos sair deste obscurantismo.

    • N√£o sei quais livros de hist√≥ria voc√™ andou lendo, mas o Jango queria se alinhar com uma China (comandada por Mao) que em nada tem a ver com a China de hoje, que somente decolou quando Mao deixou o poder e o bando dos 4 foram banidos da pol√≠tica!!!

      √Č verdade que houve muitos erros nos governos militares, mas creditar os problemas ocorridos de 1985-2017 aos generais presidentes √© muito desconhecimento hist√≥rico, ou pior, m√°-f√©!

      Se hoje temos um sistema financeiro e tributário organizado, além do FGTS que propicia a compra de casa por quem trabalha e também o FIES (antigo CREDUC Рcom o qual consegui me formar por ser universitário pobre) que permite o estudante se formar na faculdade e depois pagar ao governo, isto tudo foi graças aos governos militares.

      Quem optou por amarrar o Brasil no sistema rodovi√°rio, foi o JK (nos tornando dependentes at√© a medula da importa√ß√£o de petr√≥leo) e o Jango foi frouxo e n√£o conteve o incendi√°rio Brizola, que o levou pro buraco (pois Jango era riqu√≠ssimo fazendeiro no Sul, n√£o queria o socialismo fidelista que Brizola pregava). Sugiro a leitura do historiador Jos√© Murilo de Carvalho – “For√ßas Armadas e Pol√≠tica no Brasil”, que n√£o √© militar e nem de direita…leia tamb√©m Fernando Gabeira, Daniel Aar√£o Reis Filho (que participou do sequestro do embaixador americano): ele negam que a luta armada tenha se levantado para lutar pela democracia, queria era impor o comunismo…

      Observe que todos aqueles “figur√Ķes defensores do povo” que foram presos na √©poca da “ditadura”, foram anistiados e hoje cumprem pris√£o em plana democracia por causa do “Mensal√£o” e alguns pela Lava-Jato, vide o caso do Dirceu e Genu√≠no…..

      Agora, voc√™ pode ler e refutar com argumentos fundamentados, ou continuar desfiando uma s√©rie de “crendices esquerdopatas” que n√£o tem mais apoio nem de quem protagonizou a Hist√≥ria. Como no “Snipper Americano”: voc√™ decide!

    • Carlos Magno: Perfeito seu coment√°rio. Sem discursos de √≥dio, sem coment√°rios razos q, ofendem as pessoas, sem cola/c√≥pia e erros de portugu√™s e o mais importante, sem ser neur√≥tico e repetitivo.
      Como dizia minha vó : O discurso de ódio é p os iletrados e imbecis. O discurso corrente é p os sábios.

    • Esquerdistas n√£o sabem nada sobre a hist√≥ria do Brasil, s√≥ sabem ficar repetindo bord√Ķes da esquerdol√Ęndia.

    • Alexsander e Carlos Magno, gostei muito de ler seus coment√°rios, pois apesar de divergirem em pontos fundamentais, ilustram uma base da realidade atual. O que √© a verdade? Nada mais que o conjunto de argumentos ‚Äúvencedores‚ÄĚ…. quem escreveu algo baseou-se nos relatos de outros e/ou em sua experi√™ncia, sempre estreita em rela√ß√£o aos fatos hist√≥ricos. Os deuses dos vencidos s√£o os dem√īnios dos vencedores… n√£o existem mocinhos ou bandidos. Se analisarmos bem a natureza humana √© subjugada sempre pelo seu deus e seu dem√īnio: o capital ou se
      preferirem, o poder econ√īmico. Acrescentem em sua lista de leituras ‚ÄúPorque as na√ß√Ķes fracassam‚ÄĚ… √© apol√≠tico e interessante.

    • Bom livro o “Por que as na√ß√Ķes fracassam”. Pa√≠ses pobres s√£o aqueles que adotaram institui√ß√Ķes pol√≠ticas e econ√īmicas extrativistas, ao inv√©s de institui√ß√Ķes inclusivas. As institui√ß√Ķes de um pa√≠s definem a prosperidade ou o fracasso. Esse papo terceiromundista de imperialismo e explora√ß√£o do sistema financeiro internacional √© um monte de bobagem marxista.

    • Voc√™ demonstrou a ideia central do livro, Anderson.

  6. Interessantes estas vis√Ķes sobre o Brasil, uma √©poca em que o nosso futuro parecia mais promissor e √©ramos o “pa√≠s do futuro”. Esqueceu de citar o desastre final do governo Dilma, continua√ß√£o do desastre Lula, que pode ter jogado o futuro do pa√≠s no lixo. Mas nem tudo est√° perdido, pois a Lei da Ficha Limpa nos livrou da amea√ßa – remota – da volta de Lula ao poder.

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