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Quando o Brasil era o país do futuro

Matéria publicada em 2 de fevereiro de 2018, 06:48 horas

 


Filme de 1964 captura o espírito de uma época maravilhosa

Quando eu era criança o Brasil era o país do futuro. E até os americanos acreditavam nisso. O escritor ianque L Sprague de Camp escreveu uma serie de aventuras de ficção científica onde os brasileiros colonizavam a galáxia. Vivíamos na antevéspera desse futuro e quando Juscelino Kubitschek inaugurou Brasília, em 1960, o mundo inteiro saudou o projeto de Lúcio Costa como se fosse “a cidade do futuro”. Yuri Gagárin, o cosmonauta russo que entrou para a história como o primeiro homem a ir ao espaço, visitou Brasília em 1962 e disse “Tenho a impressão de estar desembarcando num planeta diferente e não na Terra.”
Foi nesse clima que o cineasta francês Phillipe de Broca filmou “O homem do Rio” em 1963, um ano antes da revolução e do regime militar que mudaria o nosso futuro para sempre. De Broca era conhecido por seus filmes de aventuras em lugares exóticos, inspirados no Tin Tin dos quadrinhos. Quem olha o cartaz do “Homem do Rio” aí ao lado pode pensar que é uma imitação dos filmes do James Bond. Nada mais distante da realidade. Os heróis do cineasta francês eram pessoas comuns lançadas no meio de incríveis aventuras, nos quatro cantos do planeta.
Sua escolha do Rio de Janeiro e de Brasília para serem cenário de uma de suas produções se deve também ao fascínio que o Brasil sempre exerceu sobre os franceses. Afinal Villegaignon tentou instalar uma colônia francesa ali na praia do Flamengo. Se não fosse pelo Men de Sá eu poderia estar escrevendo este artigo em francês. Mas não acredito que nosso destino teria sido melhor se fossemos colonizados pelos franceses e não pelos portugueses. Afinal a Guiana Francesa não virou nenhuma potencia.
Mas voltando ao Homem do Rio, o filme é estrelado pelo galã Jean Paul Belmondo e pela estrelinha Françoise Dorleac, irmã da Catherine Deneuve. Que morreu queimada num acidente de carro alguns meses depois da estreia do filme. É o toque triste para quem viveu naquela época. No filme ela é namorada do Belmondo que é sequestrada por bandidos em pleno aeroporto de Orly, em Paris, e levada, contra a vontade, para o distante e exótico Brasil.
É claro que nosso herói não fica a ver navios. Ele embarca num DC-8 da Panair do Brasil e vai parar na praia de Copacabana.
Depois de uma noite bem dormida na areia ele é convidado por um menino para visitar uma favela. Que não tinha tiroteios nem traficantes naquele tempo. E reencontra a heroína no Jardim Botânico só para vê-la ser capturada e levada para Brasília pelo vilão Adolfo Celi. É quando nosso herói embarca num taxi Aero Willis e diz para o motorista: “Vamos para Brasília, depressa!”. Minutos depois o carro aparece subindo a estrada para Teresópolis, com o Dedo de Deus logo acima. E o francês pergunta: “Já estamos chegando em Brasília?”. E o motorista responde: “É um pouco mais a frente”. Até hoje me pergunto quanto o Belmondo pagou por aquela corrida.
“O homem do Rio” virou um clássico do cinema francês, e foi restaurado para uma homenagem no Festival de Cannes de 2014. Sua mistura de aventura e comédia é única e raramente foi igualada. Pena que não esteja disponível em DVD por aqui, mas no Youtube dá para ver o trailer com o Aero Willis subindo a estrada de Teresópolis, o Rio de Janeiro tranquilo e sem tiroteios e uma Brasília ainda em construção.
No ano em que o filme passou nos cinemas os militares tomaram o poder. Foi o início da nossa decadência, o fim do futuro prometido. Os vinte anos de ditadura levaram o país a hiperinflação e a desigualdade extrema. Com o Delfin Neto esperando o bolo crescer para reparti-lo. Estava preparado o cenário para a Nova República e o desastre final dos governos Collor, Lula e Temer.

Cartaz: O pôster original do filme de Phillipe de Broca. (Foto: Divulgação)

Cartaz: O pôster original do filme de Phillipe de Broca. (Foto: Divulgação)

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

20 comentários

  1. Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

    Brasília. Tudo começou a terminar quando terminaram essa cidade… Ela representa o divisor de águas entre um país desigual, mas próspero e moderno, e o país desigual, burocrático e criminal…

  2. Maniac, vou procurar ler esta obra indicada “Por que as nações fracassam”, obrigado! Penso que é isto mesmo que você falou, é a luta pelo domínio da narrativa…

    Aqui no Brasil a narrativa histórica sobre os últimos 50 anos ficou até o início desta década nas mãos de professores e historiadores comprometidos ideologicamente, e até na faculdade de História era difícil como aluno discordar da narrativa hegemônica de professores e alunos, e os professores que não tinham um discurso esquerdista eram injustamente taxados de “fracos” ou “burguesões”.

    Quando dei aula na faculdade, os alunos de história já vinham do ensino médio com uma mentalidade tão formatada que ocorria algo curioso: eles não conseguiam conceber, por exemplo, que os portugueses compravam escravos africanos de reinos africanos (inclusive o Benin reconhece esta dívida histórica com o movimento negro da Bahia)…e o por quê disto?

    A melhor aluna do curso ficou intrigada quando citei que no Brasil houve a Guerrilha do Araguaia, ela simplesmente só ouviu do colega responsável pela disciplina acerca das torturas sofridas por Frei Beto e demais pessoas…Concordo que isto foi um crime e nunca deve ser esquecido, é verdade, mas por quê ocultar o outro lado?

    Por quê esconder que o PC do B implantou uma guerrilha semelhante as FARC, mas que falhou porque o EB foi eficiente e eficaz em defender a soberania brasileira (com isto não digo que todos os procedimentos nas 3 fases do combate foram legítimos do ponto de vista do Direito Internacional dos Conflitos Armados).

    Por quê escondem que o Genuíno participou desta guerrilha, foi preso pelo Exército e não foi morto?

    Então é isto, se no meio acadêmico alunos e professores só estão dispostos a ouvir aquilo que estão condicionados a acreditar, não dá pra esperar que alguns leitores, que medem todos pela sua própria régua, partirem pra ironias, descréditos sem argumentação e coisas do tipo, quando leitores como eu, Agamenon, Liberdade e propriedade ou Anderson expomos um pensamento que não bate com a narrativa hegemônica que foram condicionados a ouvir…

    O pensamento, seja de esquerda ou de direita, vira uma patologia quando deixa de ser racional e se transforma numa crença, gerando “direitopatas” e “esquerdopatas”, mas somente a estes últimos é permitido divulgarem sem sanção alguma o seu apoio incondicional a regimes que vilipendiam os Direitos humanos como Coréia do Norte, China, Venezuela e Cuba.

    • Esquerdistas estão tão acostumados com a hegemonia de suas ideias no reino da esquerdolândia, que quando encontram pessoas com outros pontos de vista e estas mostram as incongruências do pensamento de esquerda, os cérebros deles entram em curto-circuito. Aí o raciocínio vai embora e eles só conseguem emitir bordões e xingamentos

  3. Alexsander parabéns. Querer dizer que o Brasil está na situação calamitosa de hoje, por culpa dos Generais, é no mínimo, para não dizer outra coisa, é ser LEVIANO. Juscelino na ânsia de construir Brasilia, gastou o que tinha e o que não tinha. Acabou com a grana dos Institutos, endividou o País, destruiu a malha ferroviária, para beneficiar a
    Indústria Automobilística, e quanto ao JANGO, era um pamonha e quem mandava era o Brizola, seu parente. Foi tirado pelos militares por que estava de braços dados com a China de Mao . Após o comício na Central do Brasil, que foi a gota d’água para os militares entrarem em cena. E do jeito que estamos nos dias de hoje, se o Poder Judiciário fracassar, pois ainda é o único que resta (Legislativo e Executivo envolvido em um mar de lama), podem anotar aí, os MILICOS voltam, e dessa vez, será pior que 1964, onde não foi dado um tiro sequer. O recado já foi dado pelo General Mourão.

    • Temos que agradecer aos militares todos os dias por não termos tido o mesmo destino de Cuba. Este monte de esquerdistas que hoje têm a cara de pau de dizer que lutaram pela democracia lutavam para instaurar outro tipo de ditadura, comunista, que teria sido o fim do país.

  4. liberdade e propriedade

    O Brasil é o país do passado! A pouco mais de 100 anos atrás, o Brasil imperial era uma potência, tínhamos por exemplo, a maior malha ferroviária do planeta, modal da moda, um sem fim de belas cidades a cada bela estação, nossas capitais eram metrópoles similares às europeias, reproduzimos réplicas dos seus teatros e outras imponentes construções, nossas fazendas eram verdadeiros palácios, fomos a segunda potência mundial, atrás da Inglaterra, mas suponho que éramos mais ricos. Os EUA não chegavam aos nossos pés, éramos eles. Nossas cidades eram ordeiras, não havia arruaça, assaltos, vandalismos, etc.

  5. Carlos Magno de Oliveira

    O país do futuro foi destruído com o golpe militar de 64 para atender os interesses dos controladores da economia mundial, naquela época o Brasil estava apresentando crescimento econômico e se alinhava negociação comercial com a China (Hoje exemplo de desenvolvimento), a partir do golpe o que vimos foi onascimento da Rede Globo em 65 e o grande endividamento brasileiro devido diversos projetos altamente super faturados beneficiando empreiteiras que cresceram as custas do dinheiro público e que sempre corromperam os poderes da nação.
    Muitos se enganam achando que nos últimos 50 anos houve governo que tivessem interesse em mudar esta realidade, todos foram eleitos para servirem aos interesses dos exploradores da nação brasileira.
    Investiram sabiamente na mídia que aliena e doutrina o povo a não enxergar a verdade.
    Investiram em brasileiros testas de ferro que ficaram milionários ajudando a destruir o sonho de milhares de jovens a terem direito de sonhar com um futuro melhor.
    Lula se reuniu em 1988 em Paris com o dono da Rede Globo, ano véspera da eleição que colocou Collor no poder e a principal tarefa do PT foi tirar votos do Brizola.
    Toda a máfia que sempre estiveram infiltradas no regime militar estiveram em todos os governos dos últimos 50 anos (ACM, Sarney, FHC, Moreira Franco, Collor, Renan e muitos outros) e contribuíram para os prejuizos nas empresas estatais que tiveram que ser doadas após reestruturação feitas pelo próprio governo federal e entregues beneficiando grupos que nos exploram.
    Hoje temos um teto para gastos públicos prejudicando sensivelmente os menos favorecidos visando sobrar verbas para pagamento dos juros de nossa dívida pública.
    Temos a frente do ministério da fazenda e do banco central representantes dos banqueiros internacionais e investidores que nada mais são que agiotas que dominam nossa triste política de corrupção e entreguismo do patrimônio nacional.
    Uma vergonha a falta de esclarecimentos que induziram ao nosso sofrido povo que a tudo vê e pouco pode fazer para alterar esta caótica situação.

    • E o Fernando Henrique?

    • Perfeito…….

    • Mais um esquerdista fã da Venezuela.

    • CARLOS MAGNO :

      Queria eu ter escrito este comentário, claro e didático.

      Que nosso sofrido povo, especialmente os jovens, tome consciencia que somos escravos ainda, não do chicote,mas sim escravos econõmicos do grande capital e da banca internacional.
      PT, PSDB, PMDB, PTB e todos os outros, só massa de manobra de quem realmente manda.
      Eduquemo-nos para que possamos sair deste obscurantismo.

    • Não sei quais livros de história você andou lendo, mas o Jango queria se alinhar com uma China (comandada por Mao) que em nada tem a ver com a China de hoje, que somente decolou quando Mao deixou o poder e o bando dos 4 foram banidos da política!!!

      É verdade que houve muitos erros nos governos militares, mas creditar os problemas ocorridos de 1985-2017 aos generais presidentes é muito desconhecimento histórico, ou pior, má-fé!

      Se hoje temos um sistema financeiro e tributário organizado, além do FGTS que propicia a compra de casa por quem trabalha e também o FIES (antigo CREDUC – com o qual consegui me formar por ser universitário pobre) que permite o estudante se formar na faculdade e depois pagar ao governo, isto tudo foi graças aos governos militares.

      Quem optou por amarrar o Brasil no sistema rodoviário, foi o JK (nos tornando dependentes até a medula da importação de petróleo) e o Jango foi frouxo e não conteve o incendiário Brizola, que o levou pro buraco (pois Jango era riquíssimo fazendeiro no Sul, não queria o socialismo fidelista que Brizola pregava). Sugiro a leitura do historiador José Murilo de Carvalho – “Forças Armadas e Política no Brasil”, que não é militar e nem de direita…leia também Fernando Gabeira, Daniel Aarão Reis Filho (que participou do sequestro do embaixador americano): ele negam que a luta armada tenha se levantado para lutar pela democracia, queria era impor o comunismo…

      Observe que todos aqueles “figurões defensores do povo” que foram presos na época da “ditadura”, foram anistiados e hoje cumprem prisão em plana democracia por causa do “Mensalão” e alguns pela Lava-Jato, vide o caso do Dirceu e Genuíno…..

      Agora, você pode ler e refutar com argumentos fundamentados, ou continuar desfiando uma série de “crendices esquerdopatas” que não tem mais apoio nem de quem protagonizou a História. Como no “Snipper Americano”: você decide!

    • Carlos Magno: Perfeito seu comentário. Sem discursos de ódio, sem comentários razos q, ofendem as pessoas, sem cola/cópia e erros de português e o mais importante, sem ser neurótico e repetitivo.
      Como dizia minha vó : O discurso de ódio é p os iletrados e imbecis. O discurso corrente é p os sábios.

    • Esquerdistas não sabem nada sobre a história do Brasil, só sabem ficar repetindo bordões da esquerdolândia.

    • Alexsander e Carlos Magno, gostei muito de ler seus comentários, pois apesar de divergirem em pontos fundamentais, ilustram uma base da realidade atual. O que é a verdade? Nada mais que o conjunto de argumentos “vencedores”…. quem escreveu algo baseou-se nos relatos de outros e/ou em sua experiência, sempre estreita em relação aos fatos históricos. Os deuses dos vencidos são os demônios dos vencedores… não existem mocinhos ou bandidos. Se analisarmos bem a natureza humana é subjugada sempre pelo seu deus e seu demônio: o capital ou se
      preferirem, o poder econômico. Acrescentem em sua lista de leituras “Porque as nações fracassam”… é apolítico e interessante.

    • Bom livro o “Por que as nações fracassam”. Países pobres são aqueles que adotaram instituições políticas e econômicas extrativistas, ao invés de instituições inclusivas. As instituições de um país definem a prosperidade ou o fracasso. Esse papo terceiromundista de imperialismo e exploração do sistema financeiro internacional é um monte de bobagem marxista.

    • Você demonstrou a ideia central do livro, Anderson.

  6. Interessantes estas visões sobre o Brasil, uma época em que o nosso futuro parecia mais promissor e éramos o “país do futuro”. Esqueceu de citar o desastre final do governo Dilma, continuação do desastre Lula, que pode ter jogado o futuro do país no lixo. Mas nem tudo está perdido, pois a Lei da Ficha Limpa nos livrou da ameaça – remota – da volta de Lula ao poder.

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