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Quem ‘robô’ meu emprego?

Matéria publicada em 1 de agosto de 2017, 07:05 horas

 


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Filho de Vênus e de Marte, Cupido era o Deus Romano do Amor, um menino alado que vivia por aí, de arco em punho, lançando flechas nos corações de casais desavisados e despertando paixões.

Assim nos conta a Mitologia.

Ariel tem 26 anos e é publicitário. Ana tem 23 e é estudante de jornalismo. Laura só vai nascer em agosto e ainda não sabe o que vai ser quando crescer. Poderia ser apenas mais uma história de amor que o Cupido uniu. Mas desta vez quem uniu não foi o Cupido, mas um algoritmo, espécie de programação de computador para que um sistema funcione de determinado modo.

Eles se conheceram pelo Tinder, um aplicativo de celular utilizado para unir pessoas (normalmente para encontros mais fortuiros e descompromissados), mas que tem realizado muitas uniões duradouras, mundo afora.

Analistas dizem que os algoritmos vão dominar o mundo. Aliás, eles já têm dominado uma série de atividades que a gente nem faz ideia.

Antigamente eu usava mapas de papel para encontrar um endereço numa viagem ou cidade desconhecida. Pra andar no trânsito caótico de São Paulo, muita gente sintoniza numa emissora de rádio que dá dicas de trânsito, dizendo quais vias estão mais ou menos congestionadas e possíveis caminhos alternativos. Para isso, a emissora utiliza um aparato de guerra: helicópteros monitorando as vias, repórteres espalhados por toda a cidade e relatos telefônicos de seus ouvintes. Agora eu, e milhões de pessoas, usamos o Waze, um aplicativo de celular que dá a melhor rota, busca caminhos alternativos e diz com precisão a hora de chegada no destino, baseado não apenas em satélites, mas nas informações em tempo real dos outros milhões de usuários. Algoritmos e inteligência digital.

Agora a NetFlix escolhe quais filmes eu devo gostar.

A Amazon escolhe quais livros eu devo ler e o Youtube sugere quais vídeos eu provavalmente vou gostar. Não é de se estranhar, portanto, que locadoras de vídeo e livrarias aos poucos estejam sendo exterminadas do planeta.

Esse sistema de inteligência artificial é realmente revolucionário, embora em alguns aspectos seja um pouco totalitário e burro: quem disse que eu quero ler sempre os mesmos estilos de livro ou os mesmos gêneros de filme? Como os algoritmos me dão sempre mais daquilo que já tive, a tendência é um sinfonia no qual eu tenho cada vez mais acordes da mesma música de sempre.

Antigamente o medo era que a robotização tomasse o emprego das linhas de montagens em tarefas repetitivas, agora vão tomar o emprego de tarefas analíticas, que tenham que tomar decisões a partir de uma massa muito grande de dados, que o cérebro humano é sempre limitado para processar. Dizem que os empregos de analistas de crédito e de bolsa de valores estão com os dias contados, porque os algoritmos podem processar milhares de informações em tempo real e tomar decisões melhores do que nós.

Nos EUA já existe o robô advogado, por exemplo.

Ao mesmo tempo, talvez aumentem oportunidades em indústrias criativas, como gastronomia, artes, espetáculos, ou cuidados pessoais, e até mesmo nessas indústrias nascentes de tecnologia. Uma consequência óbvia disso tudo é o aumento na procura por matemáticos, estatísticos e programadores.

Ao mesmo tempo o custo de muitos produtos e serviços deve cair com a maior eficiência dos processos. Mas com mais gente desempregada, quem haverá de consumir tanta novidade?

Qual o saldo final disso tudo?

Verdade seja dita, ninguém faz a menor ideia do que nos espera pela frente. Há quem diga que as profissões ceifadas serão substituidas pelas novas profissões criadas, e há quem diga que o saldo de vagas será inevitavelmente deficitário. Há quem diga que isso gerará ainda mais concentração de riqueza nas mãos de quem detiver mais tecnologia e escala e que no futuro as grandes corporações mundiais dominantes (um Mega Google, por exemplo) terão que ser ultra taxadas para implementação de políticas sociais compensatórias.

Talvez, talvez, talvez.

Tudo que podemos prever é que não podemos prever tudo e que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.

Às vezes o futuro parece um pouco assustador, mas a fila anda. E se serve de consolo, entre indas e vindas, a vida parece melhor hoje do que foi no passado, e a espécie humana sempre soube se reinventar e vencer os desafios que apareceram no caminho.

Porque o algoritmo pode até ser mais inteligente do que a gente, mas ninguém entende tanto de gente quanto gente.

Que assim seja!

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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