domingo, 17 de dezembro de 2017

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Sei tão pouco de mim…

Matéria publicada em 4 de agosto de 2017, 07:05 horas

 


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Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos

 

Olho-me no espelho a cada manhã e descubro um novo eu, diferente do dia anterior. Nem sempre tão rapidamente me reconheço e me entendo nos meus atos. O tempo, a vida, as alegrias e as tristezas vão pouco a pouco moldando um novo eu, e isso também deve acontecer assim com os outros. Nós nos descobrimos mutáveis, diferentes da noite passada; muito parecidos, mas nunca igual ao que fomos ontem.

Uma nova oportunidade nos é dada e somamos as forças para buscar o resultado nosso de cada dia. Nem sempre nos preocupamos em olhar para trás, daí focamos o ponto que precisamos atingir e nos lançamos sem rede de proteção. Lá vamos nós rumo ao solo, que pacientemente nos espera. Às vezes, conseguimos estacar a milímetros do chão; noutros momentos, nos esborrachamos por inteiro para, a seguir, recolher nossos caquinhos e, com a paciência de um deus, colar um a um até recomeçarmos tudo no dia seguinte.

A grande realidade é impossível conhecer, nem do outro nem, muitos menos, de nós mesmos. Somos seres totalmente independentes com infindas maneiras de surpreender uns aos outros a cada novo dia. Melhor ainda quando somos capazes de nos espantar positivamente com atitudes que nunca imaginamos, até precisarmos tomá-las de verdade sem pensar duas vezes. Uma visão pode nos assustar, somos um mistério a ser decifrado por nós mesmos e pelos outros que interagem conosco no dia a dia. Podemos jogar com a realidade nua e crua, mas também com o melhor da fantasia.

Óbvio que sei quem sou, mas não por completo. Eis o lado obscuro do nosso eu, tanto que ninguém sabe quem somos e nós não sabemos nada de ninguém. Sei tão pouco de mim, porém insisto nesse descobrir, assim vamos vivendo um dia após o outro, buscando encontrar a combinação do cofre. E, se até o último dia de nossas vidas percebermos todos os números e conseguirmos abrir a porta, magnífico; ainda que seja por alguns instantes, nos depararemos com muitas das respostas que buscamos ao longo da vida.

A rotina nos consome e não é pouco. Assim, diante dela, nasce uma pergunta: quando nos daremos um tempo para enxergar o que vai dentro de nós? A bem da verdade, não queremos parar para pensar sobre nós mesmos! Tudo é motivo para fugirmos de nossa realidade íntima, e aí procuramos subterfúgios, apelamos para algo que neutralize nem que seja um instante, por algum pouco tempo, esse encontro. E nem sempre esse encontro, esse cair do véu precisa ser assim à queima-roupa, cara a cara ou, melhor dizendo, cara no espelho.

Muitas vezes, aquele monstro da infância, que ficava embaixo da nossa cama e desaparecia quando nos cobríamos com nosso cobertor, ainda teima em existir, em morar sob nossa cama; vira e mexe sai conosco para a rua, nos segue até o trabalho, a escola e, mesmo, o mercado quando vamos fazer a compra do mês.

Acredito que seja por imaturidade, continuamos com medo de enfrentar nossos monstros particulares, ainda nos envolvemos com a coberta do medo, da dúvida e, sobretudo, da insegurança. Na verdade, temos que urgentemente dar um basta em tudo isso e acreditar em nós! É hora de crescermos e sairmos debaixo do cobertor! Assim, daremos uma chance ao nosso coração, possibilitando-nos escutá-lo com seus pedidos de mudanças.

É hora de atingirmos a maturidade necessária para nossos olhos nos verem e nossos ouvidos nos ouvirem verdadeiramente. Precisamos nos dar a oportunidade de conhecer quem somos e o que queremos, nosso verdadeiro potencial, deixando de encarnar personagens e encarando a realidade que carrega alegrias e tristezas. Somos humanos, somos falíveis, e isso é muito bom.

Chico Buarque bem cantou em “Pedaço de mim”: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade afastada de mim / Leva o teu olhar / Que a saudade é o pior tormento / É pior do que o esquecimento / É pior do que se entrevar”.

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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