domingo, 25 de junho de 2017

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Siderópolis não é só cidade e bairro; é exemplo para a tragédia do Brasil atual

Matéria publicada em 26 de novembro de 2016, 20:20 horas

 


A história de uma cidade que era uma miniatura de Volta Redonda e terminou devastada

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Siderópolis e Casa de Pedra são dois tranquilos bairros de classe média de Volta Redonda que têm duas coisas em comum. Primeiro, foram construídos pela CSN. Segundo, homenageiam duas minas que eram de propriedade da CSN: a mina de ferro de Casa de Pedra, em Congonhas, Minas Gerais, e a mina de carvão de Siderópolis, na cidade também de Siderópolis, em Santa Catarina.

A mina de Casa de Pedra continua a pleno valor.

Mas a mina de Siderópolis não existe mais. Em 1991, no governo Collor, a abertura para a importação do carvão barato e de boa qualidade em oferta no mundo fez com que a CSN desativasse a mina, vendesse suas máquinas e doasse à prefeitura seus prédios, como a sede do escritório da empresa e o Recreio do Trabalhador.

Sim, a exemplo, de Volta Redonda, Siderópolis tinha o seu Recreio do Trabalhador. Afinal, foi construída dentro do projeto da CSN pelo mesmo gênio que construiu Volta Redonda, o general Edmundo Soares de Macedo e Silva, durante o governo de Getúlio Vargas.

O Recreio do Trabalhador é hoje um prédio destruído em Siderópolis, assim como a abandonada sede do escritório central da CSN naquela cidade.

Havia também em Siderópolis o Recreio do Trabalhador, que foi abandonado e parte desabou

Havia também em Siderópolis o Recreio do Trabalhador, que foi abandonado e parte desabou

Na foto, parte do ex-escritório local da CSN, que está desabando

Na foto, parte do ex-escritório local da CSN, que está desabando

Não é só isso. A mineração deixou na cidade um rastro de destruição que transformou a paisagem de parte de Siderópolis no que os moradores chamam de “paisagem lunar”. Naquelas áreas, contaminadas pela tóxica pirita e metais pesados, nem a grama cresce. E 2/3 dos rios da região foram irreversivelmente contaminados pelos mesmos produtos tóxicos.
Por trás deste rastro de destruição havia um monstrengo tecnológico que se escondia por trás do diminutivo, em francês, do singelo nome da Virgem Maria: Marion.

Um mar de tristeza e de muita amargura

Marion 7800 era o nome da gigantesca escavadeira que, por mais de 40 anos, retirou o solo fértil de Siderópolis buscando o carvão que ficava quase ao nível da superfície. Foi importada peça por peça, dos EUA, e montada em Siderópolis, na mina da CSN, em 1960.

A escavadeira Marion da CSN devastou uma área equivalente a Copacabana, Leblon e Ipanema juntos

A escavadeira Marion da CSN devastou uma área equivalente a Copacabana, Leblon e Ipanema juntos

Só a base da máquina tinha 21 metros. Seu guindaste tinha 60 metros. Sua caçamba pesava 25 toneladas e a máquina como um todo tinha um peso de 1.500 toneladas.

Nos quase 40 anos em que atuou, devastou cerca de mil hectares – uma área maior que os bairros cariocas de Copacabana, Ipanema e Leblon juntos.

A tóxica pirita exposta pela máquina e espalhada pelas chuvas levou a biodiversidade local a zero. O mesmo solo infértil da lua, como foi citado. Subprodutos criavam uma chuva ácida. Os rios sofreram o mesmo efeito.

Mas a cidade colhia os louros da riqueza da mineração, graças à CSN. Era uma Volta Redonda em miniatura, naquela época.

Até que em 1991 a mina fechou. A máquina Marion 7800 foi vendida à Petrobrás. Sem os empregos e as riquezas da mineração, o município entrou em crise.

Há uma tese de que o nome Marion na verdade viria do hebraico “Myriãn”. Neste idioma a palavra significa “mar de tristeza” ou “mar de amargura”.

No caso de Siderópolis, foi este o rastro deixado por Marion: devastação, tristeza e amargura.

Os italianos que vieram e os descendentes que se vão

Apesar da sua origem francesa, Marion foi um nome muito popular nos EUA de 1880 até os idos de 1950. Os imigrantes italianos que iam para os EUA costumavam batizar suas filhas do sexo feminino como Marion, ao invés de Maria ou Mariana.

Uma curiosidade é que a base de Siderópolis foi a imigração italiana, ali iniciada em 1891. Deram ao local o nome de Nova Belluno, em homenagem à cidade homônima na Itália. Na Belluno italiana, pequena localidade de 36 mil habitantes, nasceram dois papas: Gregório XVI e João Paulo I.

Na Nova Belluno brasileira cerca de 100 famílias italianas compraram as glebas de terra oferecidas pelo governo e criaram uma próspera região agrícola e pecuária. Assim foi por mais de 50 anos, até que foi descoberto o mar de carvão existente sob seu solo fértil.

Cerca de 60 famílias tiveram que deixar a cidade depois que suas terras foram confiscadas pelo governo Vargas, dando-lhes indenização mínima.

A entrada do Brasil na II Guerra Mundial contra Alemanha e Itália não ajudava a vida dos moradores. Por imposição do Interventor do Estado Nereu Ramos, a cidade não poderia mais ter seu nome homenageando uma cidade italiana. Por decreto, Nova Belluno virou Siderópolis – em homenagem à CSN.

Claro que houve ganhos. Como foi dito, a cidade (que se emancipou em 1958) desfrutou de uma grande prosperidade econômica, mas pagou o preço alto da devastação e do abandono após o fim do ciclo do carvão.

O bonito é que a comunidade de Siderópolis jamais abriu mão de suas tradições. Quase toda a população é bilingue, uma vez que o italiano – em vários dialetos – é ensinado nas escolas locais.

Como um considerável percentual da população possui cidadania italiana, boa parte dela faz o caminho inverso: deixando o Brasil para ir morar na Europa, especialmente na Itália e na Alemanha.

O Brasil virou uma grande Siderópolis

O episódio de Siderópolis foi o resultado de uma cidade cujos recursos foram sugados irresponsavelmente e sem planejamento, até que se esgotassem.

Hoje algo parecido acontece em escala maior. Acontece em um país:

O Brasil.

Programas sociais – como o bolsa-família, que antes era o bolsa-escola – foram totalmente desvirtuados e transformados em compra indireta de voto. A demagogia da passagem de ônibus a 1 real quebrou várias cidades. Em restaurantes populares a 1 real vê-se pessoas de classe média e até comerciantes desfrutando do almoço. Ou seja, não há qualquer controle… e não existe almoço grátis.

Dentre as categorias profissionais do serviço público, cada corporação defende seus próprios privilégios (e a ampliação destes) , mesmo em um momento em que o país atravessa a pior crise já vista.

Por décadas, o dinheiro dos tributos que deveria servir para criar a infraestrutura do país foi gasta em obras de infraestrutura no exterior. Internamente, financiou apenas os amigos do rei e da nobreza, com juros subsidiados do BNDES.

Com isso, sucateamos a indústria nacional, não construímos uma infraestrutura e passamos a viver de exportação de commodities, como minério de ferro e petróleo.

Surfamos no momento de prosperidade e não preparamos o futuro.

Aí os preços das commodities desabaram no mundo.

Resultado?

País quebrado, estados quebrados, municípios quebrados, empresas quebrando.

Eis o tamanho da devastação.

Nossos principais governantes das últimas décadas poluíram a ética e a política, tornaram estéril o solo dos novos empreendimentos, esvaziaram nossas minas de recursos e nos deixaram este imenso buraco que lembra a paisagem lunar de Siderópolis.

O que restou foi um Brasil irreversivelmente intoxicado.

Mas os donos da Marion estatal continuam escavando em busca de benesses para grupos organizados.

Não vai sobrar, ao povo, carvão nem para acender a churrasqueira.

23 comentários

  1. Defendendo o maçom gn Edmundo,o texto é de um servo ou copeiro maçom.Casa de Pedra bairro de pobre,e Siderópolis tnb,so ex funcionário da sucata CSN

  2. SUB CEZAR, perfeita sua observação, mas só não concordo com a “Abertura da Cicuta”. Deixa do jeito que está, o ser humano para natureza é como se fosse uma praga, uma erva daninha, me divertia muito no meu tempo de criança naquele lugar, mas pelo bem da natureza e melhor deixar assim. A Flora e fauna agradeçem.

  3. Geraldo Claret Plauska

    Esse senhor que escreveu isso esqueceu-se de citar as privatizações, como o grande responsável pelo sucateamento de muitas empresas e dos ambientes nos seus entornos. Haja visto a CSN ea cidade de Volta Redonda, entregues ao judeu Steinbruch que as adquiriu a preços módicos com o nosso dinheiro, doado pelo BNDES. Fecharam o acesso a muitas áreas de lazer e constantemente poluem o ar e o rio Paraíba.As privatizações foram mais nocivas do que qualquer bolsa-escola, bolsa-família,restaurantes populares, investimentos em Cuba, Bolívia, mensalões ,etc.So a empresa que trabalhei em Minas, cuja construção custou 6,8 bilhões de dólares foi entregue a grupo inescrupuloso por 580 milhões de dólares. As privatizações foram o maior roubo da história desse país. E para completar o texto idiota, parcial, o autor desse artigo ainda chama o general Macedo de gênio, na verdade um general de merda, um militar baba-ovo, atrás de mesa, que abusava da autoridade.Sec existir Deus, esse general agora deve estar no inferno, seu devido lugar.

  4. “Por décadas, o dinheiro dos tributos que deveria servir para criar a infraestrutura do país foi gasta em obras de infraestrutura no exterior. Internamente, financiou apenas os amigos do rei e da nobreza, com juros subsidiados do BNDES.”

    Só uma pergunta: como foi que o Benjamin Steinbruch comprou a CSN?

  5. Parabéns pela matéria. Até que enfim, alguma mídia falou sobre o bolsa escola, que o PT transformou em bolsa voto. E aproveito para expor a indignação dos moradores daqueles bairros, principalmente o Siderópolis e sessenta, onde a privatização da CSN, inexplicavelmente proibiu moradores de entrarem na mata da cicuta, fecharam o versátil clube siderópolis que promovia festivais de futebol aos domingos. Há também intervalos entre as casas, onde o terreno pertence a CSN e ficam cheios de mato e mais nada. EM QUALQUER PAÍS DESCENTE HAVERIA NO CONTRATO UMA CLAUSULA PROMOVENDO UMA INTERAÇÃO ENTRE ESSES BAIRROS E A EMPRESA, OBRIGANDO-A AO DESENVOLVIMENTO DAQUELE LUGAR, ARRUMANDO O CLUBE. O CAMPO, ABRINDO A CICUTA E CALÇANDO-A PARA ATIVIDADES DE CAMINHADA, CORRIDA E VISITAÇÃO E ETC… Mas isso aqui é Brasil e, aqui onde tem dinheiro, não tem ética, não tem moral e não tem lei.

  6. Siderópolis,Casa de Pedra bairro de classe media….aff,só pelo enunciado já desisti de ler,conheço muita gente que conta moedinha e mora la…rsrsrs

  7. A matéria até que ia bem, mas ele resolveu misturar com política e sua opnião pessoal, aí virou como dizem: o samba do crioulo doido.

  8. Parabéns!!!

  9. A matéria é muito interessante e nos mostrou a insensatez, a vaidade e a ganancia do homem em construir uma história por desputa do poder e ao mesmo tempo se perdeu na própria história. Ou seja, o homem leva décadas para evoluir quando ele atinge as suas realizações ele se perde e não se sustenta. Tanto trabalho para nada. Temos visto nos noticiários as coisas boas que foram construídas ao longo dos anos em beneficio da humanidade se perdendo. Onde o homem quer chegar de fato? Acho que a lugar nenhum ! O homem constrói e destrói o seu próprio sonho. É o que temos assistido e vivenciado nesses últimos anos.

  10. Perfeito! Mostrou a decadência de uma época e seu reflexo na atualidade. A ganância e a incompetência, aliada ao desejo incontrolável pelo lucro e enriquecimento ilícito deixam seus rastros numa nação e num povo que ainda insistem em defender seus próprios interesses, antes ao interesse nacional. Parabéns pelo texto.

  11. Parabéns pela coluna, que tem nos proporcionado conhecimento acerca da história de VR.

  12. A reportagem até começou interessante e confesso que fiquei bastante atento e as fotos trás um pouco da lembrança do passado, mais quando foi chegando ao final parecia o WILLIAM WAACK da rede plim plim falando de um certo partido político. Não aguentei e saí da matéria.

  13. Pois é.Tem também os jornais regionais que fazem acordos de publicidade vitalício com prefeituras,comprometendo a autonomia de opinião que todo órgão desse tipo deveria ter.

  14. Daril Placido Camilo

    Também concordo, começou bem, mas na hora que politizou acabou com a história das duas cidades. Tudo bem quando comparou os dois bairros da cidade do aço com as duas cidades, mas não podemos esquecer que em Santa Catarina tem mais três cidades que faz parte da história da CSN, são elas: Criciúma, Imbituba e Tubarão.

  15. Parabenizo Aurélio Paiva pelo seu editorial,partilho ,como MILHÕES de brasileiros da mesma opinião política e econômico,sou do mundo REAL,onde mais de 12 milhões de brasileiros e infelizmente muito mais ainda irão amargar a desgraça provocada pela acefálica raça Petralha,onde a farra do bolsa isso ,bolsa aquilo acabou para à VAGABUNDADA que se esconde atrás de uma desgraça alheia,a miséria dos outros,para como vampiros sugarem o suor dos que produzem algo para o crescimento desse País de riquezas naturais inigualáveis.

  16. Perfeita a análise, e realmente Siderópolis se RE-INVENTOU, e deu a volta por cima. Quanto aos que discordam do final, onde o articulista, mostra o que o Governo Petista fez com o País, cada um gosta de uma coisa, UNS, gostam dos olhos, outros da remela. Dinheiro do BNDES mandado para CUBA, Venezuela, Equador, Bolívia ( para este País, até foi “doada ” uma refinaria ” da Petrobras).Não esqueçamos dos Países Africanos que foram agraciados com verbas milionárias através do BNDES, dinheiro que NUNCA VOLTARÁ para o Brasil. ARREBENTARAM a Economia do País.

  17. Enquanto falava de história, estava muito interessante. Mas quando resolveu usar o senso comum do conhecimento político. Aí perdeu credibilidade. E olha que não é a primeira vez que esse jornalista faz isso.

  18. Estava indo muito bem, ótima matéria, até cagar tudo incluindo uma comparação com sua opinião pessoal sobre a crise atual.
    Tira a última parte q fica perfeito, não estrague uma bela reportagem sobre a história de cidades que tem íntima relação com a CSN e, portanto, acabam tendo íntima relação entre si com política atual e sua percepção pessoal. No mínimo esdrúxula essa comparação, épocas e cenários completamente diferentes, fora q foi parcial.
    Apaga que dá tempo a parte final e fique com um linda matéria histórica.

  19. A matéria analisa fatos históricos semelhantes buscando traçar um paralelo entre essas cidades e o estado brasileiro. É agradável de se ler, mas A cidade catarinense já existia antes da intervenção estatal, tem cerca de 20.000 habitantes e apesar da tragédia ecológica, facilmente retornou a sua vocação agropastoril original. Sua população é de imigrantes estrangeiros, bem diferente da nossa. Volta Redonda nasceu e cresceu muito em função do acordo político entre Getulio e os americanos que resultaram na CSN. Mas valeu a intenção.

  20. Só que naquele tempo havia pouco conhecimento da ciência e nenhum do povo. Assim foi devastada pela busca do carvão.

    Agora é diferente. Pelas redes sociais rola solto as informações da devastação do país. Um dos maiores exemplos e o nosso minério de ferro que é DOADO (pelo preço baixo) para os chineses, sem contar o minério nobre mais procurado no mundo que é o NIÓBIO, também vendido a preço de banana por força imposta pelos países desenvolvidos.

    E o que o eleitor brasileiro faz?

    Vota nos mesmos governos que aceitam essa devastação do país, que num futuro não muito distante se tornará como essa cidade Siderópolis.

  21. Parabéns pela notícia,o ontem e o hoje se misturam nas peneses dos políticos e a necessidade do cidadão só cresce,saude educação segurança e emprego

  22. Fiquei curioso e fui procurar na internet informações acerca dessa cidade, a qual sequer sabia que existia (só conhecia Casa de Pedra, em MG). Não me parece ser um lugar devastado… Tem um IDH elevado, um PIB per capita que é mais que o dobro do de Pinheiral e uma economia baseada na agroindústria, assim como várias outras cidades catarinenses… Se passou por um período de crise extrema com o fim de sua atividade principal, certamente se reinventou. Pelas fotos que vi me parece ser uma cidade muito organizada e bonita…

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