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Sonhos de liberdade

Matéria publicada em 17 de janeiro de 2017, 07:00 horas

 


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A deslumbrante vista do Mediterrâneo se descortina majestosa em mil tons de esmeralda, enquanto os raios oblíquos de maio fazem reluzir os sedutores tons metálicos do carro serpenteando a costa Amalfitana.

Imagens idílicas que se impregnam no nosso cérebro feito fumaça de óleo diesel.

Acostumamo-nos a associar o automóvel com sonhos de liberdade em estradas sinuosas e estreitas onde abaixo de nós derramam-se mil formas de paraísos (nunca o precipício).

“É no silêncio de um Chevrolet que meu coração bate mais forte”, dizia um clássico jingle.

Nos convencemos que o melhor lugar para o amor de nossas vidas é no banco do carona, que a vida é mais feliz com o vento que sopra da estrada, e que liberdade é poder ir pra lá e pra cá, bebendo gasolina e mastigando asfalto.

O carro é parte indissociável da cultura do século XX, não há como negar.

Mas muita coisa mudou nos últimos anos. As cidades ficaram entupidas dessas caixas de aço, as pessoas defumadas em monóxido de carbono e o direito de ir e vir se transformou no dever de permanecer. Permanecer parado num trânsito que não transita, num tráfego que não trafega, em marginais que não nos levam a lugar algum.

O carro de deixou de ser coadjuvante do sonho pra se tornar protagonista do pesadelo.

Em pouco mais de uma década o Brasil quase dobrou o tamanho da sua frota de automóveis. São quase vinte milhões a mais de veículos trafegando (ou congestionados) por aí. Em princípio isso é bom, é mais dinheiro em circulação, mais empregos sendo gerados, mais impostos. A indústria automobilística envolve uma grande cadeia de atividades, num círculo virtuoso de empregos e renda.

Mas não apenas. O trânsito desordenado também polui, entope as cidades, diminui a produtividade, aumenta os custos da economia, polui a atmosfera e deixa as pessoas neuróticas e infelizes.

A frota de carros dobrou, mas as ruas continuam do mesmo tamanho. A culpa não é dos carros nem dos motoristas, talvez do poder público que não sabe o significado de planejamento ou de transporte público eficiente.

Os Estados unidos, símbolo maior do culto ao carro, recentemente assistiu a um fenômeno raro: a redução no número de jovens que tiram carta de motorista. Por lá, ter um carro já não é tanto sinônimo de status (um iPhone 7 parece exercer melhor esse papel), nem tampouco de liberdade, muito pelo contrário. Melhor chamar um Uber na hora que quiser, sem ter que se preocupar com seguro, estacionamento, flanelinha, bicos injetores, rebimboca da parafuseta, IPVA ou bafômetro.

Seja pela crise econômica que se abateu sobre o mundo desenvolvido na última década, ou principalmente por uma mudança de estilo de vida, o fato é que a nova geração prefere adquirir experiências (viagens, esportes radicais, criar negócios inovadores) do que acumular propriedades e bens físicos. É possível alugar carros e apartamentos. Num mundo cada vez mais virtual, parece que grandes patrimônios físicos dão mais despesas e dor de cabeça do que prazer.

É um mundo em profunda mutação. Será o automóvel o cigarro do futuro?

Pouco provável. Serpentear por estradas fotogênicas e ir pra onde quiser a hora que der na telha com o vento batendo na cara ainda é uma experiência única. Mas é também improvável que tudo permaneça como está. Em muitas sociedades carro já é mais sinônimo de estorvo do que de ferramenta, é mais imobilidade que mobilidade. Não é a toa que Google e Apple (os novos donos do mundo) estão na corrida para lançar um carro auto dirigível e não param de surgir ideias de compartilhamento de carros e bicicletas mundo afora. Diversas cidades também têm bloqueado áreas antes destinadas aos carros para o lazer dos pedestres. Nova York parece o exemplo mais óbvio e no Brasil começam a sugir tímidas experiências nesse sentido, como o fechamento de avenidas importantes aos domingos, nas duas principais capitais do país.

Não creio que o carro se transforme no cigarro do futuro, mas tenho alguns amigos que alardeiam a liberdade de não usar mais carro e flanar felizes por aí, com suas mochilas, fones de mp3 e aplicativos para chamar taxis.

Não passa pela minha cabeça ficar sem carro, mas dia desses, levando o meu para uma oficina, logo antes de pagar o IPVA, juro que bateu uma invejinha deles.

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br

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