domingo, 21 de outubro de 2018

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‘Surubinha de leve’ ou apologia ao crime?

Matéria publicada em 21 de janeiro de 2018, 07:00 horas

 


Independente de ser funk, rock, sertanejo, forro, axé, MPB ou ária de ópera, uma letra daquelas é inadmissível

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Há algum tempo, a história de um estupro coletivo comoveu os brasileiros. Uma menina, dependente de drogas, foi à “boca” e acabou virando objeto nas mãos de diversos homens, depois de ter usado entorpecentes até ficar sem noção exata do que estava ocorrendo. Pois bem: aparentemente, o tal MC Diguinho pegou essa história, trocou as drogas por bebida, para não ser enquadrado em apologia ao tráfico, e criou a letra de “Surubinha de leve”, que felizmente foi banida do Spotify depois de reclamações indignadas.

Em resumo, a letra diz que um grupo de homens vai convidar mulheres para “beberem” e, depois de enchê-las de “bebida”, vão ter relações sexuais com elas (o colunista se recusa a reproduzir neste espaço a forma chula que o MC usou para descrever esse ato) e depois vão abandoná-las em qualquer lugar.

Algumas pessoas chegaram a ensaiar respostas dizendo que o banimento da música seria “preconceito com o funk”. Uma letras dessas seria criminosa em qualquer ritmo: funk, rock, sertanejo, forro, axé, mpb ou ária de ópera. Ter relações sexuais com qualquer pessoa que não esteja consciente do que está ocorrendo ou esteja impossibilitada de dizer que não quer é considerado estupro, independente da idade da pessoa violentada.

Dura realidade

A questão é que o MC Diguinho, infelizmente, está certo quando diz que a letra que ele escreveu reflete a realidade de quem vive em determinados ambientes. Mas é uma realidade criminosa. Basta conversar com moradores de qualquer lugar onde haja tráfico para ouvir casos e mais casos semelhantes ao que é proposto na música.

Nas “bocas” espalhadas por praticamente todas as cidades do Brasil, são comuns os casos de usuárias (os) que são violentadas (os) em “festinhas” para as quais, inclusive podem ter contribuído, comprando parte das drogas que serão “servidas”.

Em parte desses casos, a vítima começa pagando pela droga que está consumindo. Depois, faz sexo em troca de mais droga e, finalmente, está tão “doidona (ão)” que nem percebe que está sendo usada (o) como objeto sexual.

As meninas e mulheres que passam a maior parte do tempo nas “bocas”, geralmente em busca de alguém que financie seu vício, que não é nada barato, já ganharam até apelidos: são as “noiadas” ou “marmitas”.

Este último apelido, então, as coisifica completamente: elas são aquelas que estão disponíveis para serem “comidas” quando der vontade.

Boa parte delas, inclusive, sabe de sua condição de objeto sexual dos traficantes, mas a  vontade de continuar usando a droga é mais forte.

No entanto, o fato de um crime ser cometido com frequência não tira dele a qualificação de criminoso: seria como defender os assassinatos de negros por brancos da Ku Klux Klan nos Estados Unidos dizendo que isso fazia parte da “cultura” dos criminosos.

‘Isca’: Drogas são usadas para atrais vítimas em potencial de estupros coletivos (Foto: Divulgação)

‘Isca’: Drogas são usadas para atrais vítimas em potencial de estupros coletivos (Foto: Divulgação)

O crime é o estupro

E, repare o leitor, não estamos falando aqui do tráfico de drogas. Estamos falando, nesta coluna, do estupro, que ocorre diariamente em muitas situações em que a vítima, muitas vezes, nem percebe que está sendo vítima.

Não é só nas festinhas dadas em “bocas”. Quantos jovens “filhos de gente boa” já não se aproveitaram daquela convidada que ficou “um pouco alta” na festinha dada no apartamento de prédio de luxo em bairro de classe média alta?

Ou quantas mulheres já não acordaram com uma tremenda ressaca, no banco de trás de algum carro, com as roupas desarrumadas, depois de “beberem” demais em uma dessas “festas de peão” ou “festivais de rock” pelo Brasil?

A questão não é acabar com as festas de peão nem com os festivais de rock. Eles devem continuar existindo, pois são opção de lazer e geram emprego e renda. A questão é que quem se aproveita do estado alterado de consciência de outra pessoa com fins sexuais está cometendo estupro e deve ser punido por isso. Simples assim.

Sobre as drogas

O colunista está longe de ter uma posição moralista ou intransigente quanto ao problema de segurança e de saúde públicas que as drogas representam. Este profissional de jornalismo acredita, porém, que a estratégia da repressão e de “sufocar” o tráfico está se revelando muito cara e ineficiente. Há abordagens diferentes do problema das drogas – sem que necessariamente se fale em “liberar geral” – que podem custar menos e gerar menos morte do que o enfrentamento atual. Detalhar isso fica para os especialistas, que sejam técnicos no assunto, não militantes disfarçados.

 

 

 

PAULO MOREIRA | paulomoreira@diariodovale.com.br


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16 comentários

  1. Este é o pior momento cultural de todos os tempos!

  2. Apologia ao crime, sexo irresponsável a imoralidade, degradação da mulher.

  3. mas infelizmente essa cultura vem de todas as classes, ouvi isso desde criança deixar doida …

  4. Aécio "A gente mata ele antes de delatar" do Helicoca

    Um absurdo esse incentivo às drogas e à violência, meu Zeusssss!

  5. Isso é ‘ARTE’, e quem reclamar será taxado de fascista e preconceituoso. Querem abrir nossa mente, SÓ isso!

  6. Vc esqueceu do Aécinho Snow no telefone…………

  7. Mas é disso q o povo (grande parte) gosta. Hoje, se vc não gostar ou explicar q essas músicas degradam o cidadão, vão dizer que vc é infeliz, mal amado, está velho, q essas “músicas” são apenas diversão, q vc está amargurado……..Quer dizer: Vc vira um peixe fora d”água.

  8. A Gleisi Hoffmann falou “em matar gente”… Apologia irresponsável ao crime da Senadora da República…
    E não acontece nada!
    É muito pior o incentivo à violência feito por uma Senadora da República que a violência numa letra de música…
    E não acontece nada!
    Como diria Boris Casoy: “Isso é uma vergonha!”

    • guto, não tenho dúvidas vc cheirou cola e fumou maconha estragada, tudo junto.

    • XIMBICA, quem cheirou cola e fumou maconha vota no Lula e é petista, pois as pesquisas eleitorais realizadas entre as pessoas que frequentavam a Cracolândia em São Paulo, davam sempre Lula em primeiro lugar nas intenções de voto para presidente da República, assim como as pesquisas realizadas em todos os presídios estaduais e federais!!!
      Como diria Boris Casoy: “Isso é uma vergonha!”….

  9. O traficante não respeita lei nenhuma.
    Ele assalta, mata e vende drogas.
    Você acha mesmo, colunista, que eles dão um pingo de importância aos “apelos” da sociedade, e que tirando essa música do Spotify vai mudar alguma coisa?

  10. Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

    Se a música reproduz um comportamento social, então o problema não está na música… Esses “estupros” coletivos que acontecem nas favelas e em outros lugares, na maioria das vezes, começa com uma relação consensual. Vira estupro quando a mulher decide que não curtiu (vale a palavra dela) ou porquê alguém, um terceiro, denunciou como sendo…

    Pobre ou preto, no Brasil, é como as vacas e os macacos langur na índia…

  11. Acho correto o colunista atentar para uma música sim que faz apologia nítida como esta, independente se é funk, rock, sertanejo etc, o pessoal tem que ter bom senso, essa coisa de brincadeirinha é o que todo malandro fala depois que já estuprou, o valentão que faz bullyng, é sempre a mesma desculpa, eu tava brincando. Mais racionalidade, afinal brincadeira tem HORA!

  12. Falam do funk, mas já fui a muita festa de bacana em que no final geral cai no pancadão.
    Quanto às letras, as do sertanejo também são uma m****: 70% falam de dor de corno. O resto divide-se entre ostentação de novo-rico, casa das primas, apologia ao machismo e encher a lata.

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