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Tempos apócrifos

Matéria publicada em 10 de novembro de 2017, 07:00 horas

 


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Apócrifo significa algo falso ou ainda suspeito. É uma expressão usada quando um determinado fato não tem sua autenticidade provada ou esteja sobre dúvida.

No universo em que milito, na literatura, esse termo é usado, sobretudo, como um adjetivo para designar uma obra de um autor desconhecido.

Ele foi criado no século V, pelo sacerdote, teólogo e historiador Jerônimo de Estridão, para os íntimos, São Jerônimo. Foi pensado para designar antigos documentos judaicos escritos no período entre o último livro das escrituras judaicas.

Mas aqui tomo a liberdade e porque não dizer a ousadia de fazer uso dessa palavra para tentar adaptá-la aos dias atuais, aos tempos em que vivemos, que por sinal é muito diferente do século quinto, quando Jerônimo criou essa palavra estranha e de significado tão contundente.

Os sinônimos para apócrifo não são poucos, como: duvidoso, ambíguo, arriscado, controverso, discutível, dúbio, escabroso, suspeito, enganoso, espúrio e mentiroso, além de muitos outros.

Esses dois últimos – espúrio e mentiroso -, são a cara atual dos muitos que nos cercam, sobretudo, na política, onde nos deparamos pelos quatro cantos desse país com um sem número de Vossas Excelências e Senhorias, fazendo os seus apócrifos sem medo de serem punidos.

Nosso país vive uma onda de lavagens a jato, onde muitos são tão rapidamente lavados e enxugados que voltam para os seus afazeres nas bancadas da vida em fração de segundos. Subtende-se que provaram que não estavam lá na hora do crime.

Já as delações são como bananas em cachos, chegam a ter fila no confessionário dos juízes, advogados e membros do Ministério Público para que se possa apontar o dedo com total “segurança” para esse ou aquele ex-amigo e parceiro de apócrifo.

Tenta-se aproximar ao final de tudo isso com a operação “mãos limpas”, que desvendou um esquema de corrupção envolvendo mafiosos na Itália nos anos 1990. E não se pode negar que muito se tem descoberto nesses últimos anos, haja vista os ilustres nomes que nossas prisões cariocas e paranaenses abrigam no momento. Certamente que ainda é muito pouco perto do esgoto que ainda jorra a céu aberto. Ainda falta muitos presos chegarem as celas e incontáveis tornozeleiras eletrônicas serem presenteadas para ornar os criminosos que ainda tentam ostentar seus alvos colarinhos.

Povo sofre

Isso enquanto o povo que elegeu muitos desses apócrifos da política, também carregam suas tornozeleiras, porque estão presos a um medíocre salário, ou ainda a falta de segurança e habitação, saúde e educação entre tantas outras faltas das quais muitos já se acostumaram e, por conta delas, morreram nas filas de espera no dia a dia desse nosso país caótico, onde lei não pega.

Lei não é um tipo de doença que se pega ou não, lei é algo categórico. Ela é um princípio, um preceito criado objetivando estabelecer regras que devem ser seguidas pela sociedade e isso sem ressalvas, ou seja, seguida por todos.

Claro que alguns políticos, analfabetos funcionais, teimam em não entender as regras do jogo e por conta disso, devido a essa inoperância, estamos chafurdados na lama até o pescoço, isso porque fomos levados por essa torrente igual aquela que matou e sepultou pessoas e sonhos em dois distritos da cidade mineira de Mariana, além de destruir parte de mais de trinta outras cidades em Minas Gerais e Espírito Santo, ação do espírito ruim da Samarco que parece desconhecer a lei.

Pior que dois anos já se passaram e pouco se fez para retirar a lama das cidades e dos rios, sobretudo, das pessoas que perderam vidas e bens.

Os apócrifos que aqui me refiro não deveriam continuar a atuar e nos gerenciar, deveriam ser banidos do nosso meio, porque são nocivos, são seres incapazes de gerarem o bem, porque são figuras abjetas e mesquinhas. Personagens desumanos que deveriam ser soterrados pela lama que teima em descer impiedosa após o rompimento das barragens que aprisionam os nossos direitos.

 

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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