domingo, 24 de setembro de 2017

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Um passeio noturno por Pinheiral

Um passeio noturno por Pinheiral

Matéria publicada em 11 de abril de 2017, 13:01 horas

 


Governos mudam, mas a sensação de abandono permanece; canteiros com flores morreram por falta de trato

wp-coluna-espaco-aberto-jorge-calife

 

A frente fria ainda não tinha invadido o nosso estado e a noite de quarta-feira estava ótima para um passeio. Céu estrelado com a lua em fase crescente. Júpiter brilhando como um diamante branco no meio da constelação da Virgem. E lá fui eu, caminhar pelo centro de Pinheiral e adjacências, seguindo o meu amigo canino, o infatigável Branco. Passamos pelas praças Brasil e Teixeira Campos, que perderam o seu tapete de grama verde aí por volta de 2010. Os canteiros com flores morreram por falta de trato e a sensação é de abandono e desolação. E pensar que aquelas praças já foram tão bonitas.

Saindo da praça, e atravessando a linha do trem, chegamos ao ponto final dos ônibus. Atrás dos banheiros públicos tem uma árvore enorme, de onde caiu uma grande colmeia, há uns 15 dias atrás. O ninho das abelhas se espatifou na calçada e continuava lá, duas semanas depois. Ninguém se atreveu a limpar o local, e olha que as abelhas já foram embora há muito tempo.

Seguimos pela Rua Domingos Mariano, em direção a 101ª Delegacia. Logo em frente outra obra inacabada e esquecida, o grande viaduto branco construído em 2012, por cima da via férrea.

O viaduto foi terminado, mas faltou construir os acessos. Virou um enorme elefante branco, grande e inútil. Uma daquelas estradas que levam a lugar nenhum, como a Rodovia do Contorno em Volta Redonda. De madrugada ele serve de refúgio a casais e usuários de drogas, que se sentem seguros lá em cima, já que os carros da polícia não podem subir lá. A menos de 50 metros da delegacia. Branco para embaixo do viaduto para beber água em uma poça deixada pelas últimas chuvas. Depois sobe a Rua Francisco Ribeiro de Abreu onde fica o Pronto Socorro e o Hospital Municipal.

Ele sempre toma esse caminho nos nossos passeios noturnos. O motivo é a Sofia, uma cadela preta e branca que mora lá em cima, perto das ruínas do Casarão. Toda noite o Branco vai lá visitar a Sofia. Passamos pelo asilo dos velhos e a sede do Rotary. Olho para o horizonte onde a constelação do Escorpião começa a surgir, pálida por cima do brilho avermelhado produzido pelas luzes de Vargem Alegre. Depois do Rotary Club a rua vira para a esquerda e a escuridão começa.

A lâmpada do poste, em frente ao número trezentos, queimou há mais de um ano e nunca foi trocada. Sigo o Branco pela rua escura, e no coração das trevas Sofia aparece e pula em cima de mim. Ela sempre faz festa quando acompanho o namorado dela em suas visitas noturnas. Dou meia volta e começo a retornar para casa, acompanhado agora pelo Branco e a Sofia. Ela adora quando pego um pedaço de pau e jogo para ela buscar. Na falta de um pedaço de madeira as vezes uma garrafa pet serve. Em Pinheiral as pessoas ainda não aprenderam que lugar de lixo é na cestinha e o mato ao lado da rua está sempre cheio de garrafas e copinhos de plástico descartados pelos estudantes e pelas pessoas que visitam o hospital.

Na torre da igreja o relógio bate dez horas da noite e começa a ficar frio. Sinal de que o inverno este ano vai “bombar”. As ruas estão desertas e perto do viaduto abandonado Sofia se despede do namorado com algumas lambidas e volta para casa. Dou uma última espiada em Júpiter, cujo brilho esbranquiçado rivaliza com o vermelho tijolo da estrela Arcturos, lá para os lados de Barra do Piraí.

Do outro lado da linha, na Rua Domingos Mariano, passa uma carreta levantando uma nuvem de poeira. Os governos se sucedem, mas nenhum se interessou em asfaltar aquele trecho da rua.

Volto para casa pensando na Pinheiral que eu conheci, há muito tempo atrás. Uma cidade adorável, que cheirava a eucalipto e tinha praças cobertas por um tapete de grama verde. Dela só restou a lembrança.

Praça: Cimento substituiu a grama verde (Foto: Arquivo)

Praça: Cimento substituiu a grama verde (Foto: Arquivo)

 

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

2 comentários

  1. No meu trabalho tenho a oportunidade de viajar por várias cidades do interior do estado e constato com muita tristeza esta mesma degradação que você vê hoje em Pinheiral, antes exclusiva da Região Metropolitana. Não apenas a degradação física, mas principalmente a degradação moral. O crescimento da criminalidade, do uso de drogas, do vandalismo, da falta de respeito entre as pessoas e também a falta do senso de comunidade, a corrupção; são mudanças assustadoras de se notar em tão pouco tempo. Estamos assistindo a mais uma geração perdida de cidadãos, destruída pelo Estatuto da Criança e do Adolescente; pelas novas ideias pedagógicas que condenam a reprovação e tiram a autoridade do professor; pela glamourização do uso de drogas; pelo mimimi do coitadismo, do bandido vítima da sociedade culpada; pela impunidade que campeia desde todos aqueles pequenos delitos até os maiores escândalos de corrupção; enfim, a destruição causada por todas as “grandes ideias” progressistas tão queridas pela esquerda hegemônica na política, nas universidades e no meio artístico brasileiro. E as principais vítimas são os cidadãos de bem que vêem suas comunidades, antes ordeiras, se transformando em um verdadeiro inferno de violência e degradação urbana.

Untitled Document