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Uma aventura no Pão de Açúcar

Matéria publicada em 17 de fevereiro de 2017, 07:00 horas

 


Quando o Rio de Janeiro ainda era a cidade maravilhosa; ver o cair da tarde lá do alto da montanha era lindo

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Houve uma vez um verão, há muito, muito tempo atrás. Foi antes das Olimpíadas, antes do Lula e da Dilma, antes do César Maia e do Brizola. Em uma época em que o Rio de Janeiro ainda era a cidade maravilhosa. A faculdade de Jornalismo ficava em uma rua que ia dar no túnel Santa Bárbara, ali bem perto da enseada de Botafogo. Em uma quinta-feira ensolarada as aulas terminaram mais cedo e resolvemos ir até o Pão de Açúcar, ver o cair da tarde lá do alto da montanha.

A vista do alto do Pão do Açúcar já é maravilhosa. No cair da tarde, com as luzes da cidade se acendendo, fica indescritível. E como era quinta-feira não tivemos que entrar na fila que se forma nos fins de semana. Tinha pouca gente naquele final de tarde e logo pegamos o bondinho para o morro da Urca e de lá para o Pão de Açúcar propriamente dito. Chegamos lá em cima por volta de umas cinco horas da tarde. Céu azul, e visão ilimitada na direção de Niterói e da Serra dos Órgãos. Mas na direção do poente tinha uma nuvem de tempestade, com relâmpagos saltando do topo do cumulus nimbus.

O sol se escondeu por trás da tormenta e a cidade foi se iluminando. O Aterro do Flamengo e a enseada de Botafogo parecendo colares de pérolas luminosas. Os navios no porto se iluminando. Um avião turbohélice Electra decolou da pista do Santos Dumont e passou bem diante de nós. Voando para o mar para se desviar da tempestade que se aproximava. Era no tempo em que os Electras ainda faziam a ponte aérea Rio-São Paulo.

A essa altura devíamos pegar o bondinho e voltar para a cidade lá embaixo. Mas com a aproximação da tempestade a paisagem tinha ficado ainda mais bonita. Do lado leste o céu azul anil com as primeiras estrelas surgindo. Para oeste a muralha negra da tempestade, com os raios saltando de um lado para o outro.

A tormenta já estava chegando na Barra da Tijuca, além da Pedra da Gávea, quando resolvemos bater em retirada. Mas era tarde demais. Começou uma ventania, daquelas que se formam na frente dos temporais de verão. E o bondinho para de circular se a velocidade do vento passar de um certo limite. O fato é que quando entramos na estação fomos informados de que o serviço fora suspenso devido a ventania. Teríamos que esperar a tempestade passar lá no alto do Pão do Açúcar.

Não foi uma tempestade longa. Em pouco mais de 40 minutos a nuvem despejou sua carga de chuva sobre o Rio de Janeiro e se deslocou para Niterói. O vento passou e o bondinho voltou a funcionar. Ainda caía uma chuva fina e os raios cortavam o céu quando pegamos o carro e começamos a descida para o morro da Urca. Foi quando o inesperado aconteceu. Caiu um raio bem em cima do morro, provocando uma pane elétrica geral e imobilizando o bonde a uns cem metros de altura, bem entre o Pão de Açúcar e a Urca.

O condutor informou que teríamos que esperar lá em cima até trocarem os fusíveis ou coisa parecida. Tinha luz e energia no carro, ainda que o sistema de cabos estivesse paralisado. Era no tempo da discoteca e ficamos ouvindo disco music, suspensos no ar, acima da cidade iluminada. Não houve pânico, afinal, aquele filme do James Bond tinha passado recentemente na cidade. E todo mundo sabia que a única coisa que podia derrubar o bondinho do Pão de Açúcar era o vilão Jaws.

Depois de uma meia hora de espera o conserto foi feito e fizemos um pouso tranquilo na Urca. Os turistas que nos acompanhavam iam ter uma história e tanto para contar. Foi na época anterior aos celulares e ninguém pôde fazer selfies dentro do bondinho para confirmar a história. Melhor assim. Voltei muitas vezes ao Pão de Açúcar, mas aquela tarde de tempestade foi uma experiência única. Quando a única ameaça ao turismo no Rio eram as tormentas de verão.

Incidente: O bonde parou um pouco mais acima desta posição

Incidente: O bonde parou um pouco mais acima desta posição

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

18 comentários

  1. Pois é, o Trump quer até construir um muro na fronteira EUA x Cuba. Os cubanos vão ter que procurar o paraíso capitalista nas prósperas e democráticas repúblicas vizinhas: Nicarágua, Guatemala, El Salvador, Haiti…

  2. É verdade. Trump vai até construir um muro na fronteira dos EUA com Cuba.

  3. Saudade dos generais, mas o bolsomito tá chegando!!!

  4. O Rio de Janeiro continua lindo – geograficamente falando -, pena que ficou tão perigoso e violento, após tantos anos de coitadismo político, esta ideologia de esquerda em que o bandido é vítima e a sociedade é culpada.

  5. Imaginei a cena, um monte de bicho grilo, ouvindo disco música…
    Parece filme dá sessão dá tarde…
    Vcs eram felizes e sabiam…

  6. Bacana. Um pouco de poesia nos textos, principalmente nesses tempos esquisitos, é sempre uma coisa bem vinda.

  7. Deve ter sido na época do Geisel ou de outro general, e de prefeitos nomeados pelo governo estadual, bem ao gosto do Donald Trump do Brejo.

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