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Uma viagem no tempo do Anna Nery

Matéria publicada em 20 de abril de 2018, 07:10 horas

 


Brasil já teve seus transatlânticos de luxo e seus cruzeiros

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Bonito: O Anna Nery no tempo da Costeira

Bonito: O Anna Nery no tempo da Costeira

É muito fácil ser saudosista no Brasil. Nos últimos trinta anos nosso país só ficou pior, desmontando toda uma infraestrutura que levou anos para construir. Sem falar na nossa imagem de terra do samba e da alegria que anda mais desgastada do que nunca. Muita gente acha incrível que um país de dimensões continentais como o nosso tenha sucateado sua malha ferroviária e abandonado a navegação de cabotagem. Sobre o trem eu já falei em outras crônicas, hoje quero falar nos nossos navios, nossos lindos navios de cruzeiros, que acabaram vendidos e destruídos.
Até a década de 1980 o Brasil, acreditem, tinha uma companhia de navegação, a Companhia Costeira que tinha seus próprios navios e oferecia cruzeiros ao longo da costa brasileira. No início da década de 1960 esta empresa encomendou dois lindos navios aos estaleiros da antiga Iugoslávia. Foram chamados de Anna Nery (em homenagem a enfermeira, heróina da guerra do Paraguai) e Rosa da Fonseca. Eles chegaram ao Brasil em 1962, durante o governo do presidente João Goulart e logo receberam o apelido de “cisnes brancos” devido a pintura toda branca do casco e da superestrutura. A chaminé era toda preta, com o emblema da cruz da malta, símbolo da costeira.
Na época todos os países desenvolvidos tinham navios luxuosos como símbolo de sua modernidade. Os americanos tinham o SS United States e o SS Brasil (Que viajava de Miami para o Rio e Buenos Aires). Os ingleses tinham o Queen Mary e o Queen Elisabeth, os italianos tinham o Cristóvão Colombo e o Leonardo da Vinci e os franceses erguiam a bandeira tricolor no mastro do gigantesco France.
Nossos Cisnes Brancos eram mais modestos, com 150 metros de comprimento, 20 metros de largura e 10.400 toneladas brutas. Mas não ficavam devendo nada aos navios estrangeiros. (O Leonardo da Vinci italiano tinha 232 metros de comprimento e deslocava 33 mil toneladas). Eram bem confortáveis, com duas piscinas ao ar livre e todas as facilidades de um navio maior. Tinham sido projetados para cruzeiros ao longo da costa brasileira e não precisavam ter as dimensões dos navios destinados as rotas mais disputadas do o Atlântico.
Dos dois o mais azarado foi o Anna Nery. Logo na viagem de inaugural, em outubro de 1962, o Anna teve uma explosão na casa de máquinas e precisou ficar no estaleiro até ser reparado. Depois, em 1963, quando voltava de uma viagem a Israel, ele foi abalroado pelo petroleiro Presidente Deodoro que abriu um rombo enorme na popa, matando um taifeiro. Apesar dos danos o Cisne Branco não afundou e passou mais uma temporada no estaleiro, desta vez na Dinamarca, para ser consertado.
Seu irmão gêmeo, o Rosa da Fonseca, nunca sofreu acidentes. Durante anos os dois navios fizeram uma ponte marítima, Rio-Santos, transportando executivos que queriam fugir das filas dos aeroportos. Tinham capacidade para 600 passageiros e também eram usados para cruzeiros maravilhosos ao longo da costa brasileira. Os mais longos começavam no Rio e terminavam em Manaus, com paradas em Salvador e nas capitais do Nordeste. O cruzeiro mais curto ia do Rio a Santos com paradas nos pontos turísticos da costa verde. De dia os passageiros aproveitavam as piscinas e espaço do convés. De noite havia shows com cantores no salão de baile e jantares com a presença do capitão e dos oficiais. Hoje em dia para desfrutar de algo semelhante é preciso embarcar em navios estrangeiros, já que o Brasil perdeu toda essa estrutura e ficou, literalmente, a ver navios (De bandeira estrangeira).
A Companhia Costeira faliu em 1968 e foi absorvida pela estatal Loyd Brasileiro. Que por sua vez foi fechada pelo governo Fernando Henrique em 1997. O Anna Nery e o Rosa foram vendidos para armadores gregos e acabaram virando sucata em 2010, depois de passarem por vários donos. E nunca mais tivemos nada igual.

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

12 comentários

  1. A desindustrializaçäo do Brasil está transformando-nos num país exportador de comodities. Triste ver este processo em sua fase final com os nossos jecas neoliberais. A decadência de Volta Redonda, símbolo de um Brasil moderno, é uma lástima também.

    • Somos um país exportador de commodities desde 1500, qual é a novidade?

    • Smilodon Tacinus - O Emir Cicutiano

      Isso por si só não é problema. A Austrália é basicamente um país exportador de commodities, mas é também um dos mais avançados do globo, tanto econômica quanto socialmente. Idem a Nova Zelândia. Canadá, Finlândia e Noruega também o são em larga escala… Aqui perto, países com indicadores bem melhores que o Brasil, como Uruguai e Chile, praticamente não possuem parque industrial… tudo passa pela EDUCAÇÃO e, mais do que isso, pelos hábitos e costumes de seu povo, o que no caso brasileiro torna-se algo muito difícil de ser resolvido com uma canetada…

    • Nossa…,..o Financial Time está perdendo uma grande chance de vir a VR p contratar, como editores sênior de economia, os genitais leitores do DV.
      Cada um mais ” expertise” q o outro.

    • Geniais e não genitais.

    • Não, quem entende de economia é a Dilma, Guido Mantega, e os petistas.

  2. Discordo parcialmente do Calife hoje. Apesar dos imensos problemas que enfrentamos atualmente – em especial a maior depressão econômica da história do país, que o PT nos deixou de legado -, o Brasil melhorou muito em comparação com as décadas de 60 e 70. Abro uma exceção para o problema da violência, que aumentou assustadoramente nestas três décadas de aplicação das ideias de esquerda na segurança pública e no direito penal (desencarceramento, desarmamento, audiência de custódia, Estatuto da Criança e do Adolescente, etc, etc, etc).

  3. AI QUE SAUDADE QUANDO TÍNHAMOS GLAMOUR!!!!! AGORA SÓ ESSA POBREZA… TÍNHAMOS PURPURINA!!!!

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