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Vivendo perigosamente

Matéria publicada em 9 de fevereiro de 2018, 13:40 horas

 


Como a cachorrinha na avenida, arriscamos nossas vidas diariamente

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Todo dia, no final da tarde, uma cadela de rua, marrom, percorre as calçadas da Avenida Nossa Senhora do Amparo, no bairro Niterói, em Volta Redonda, procurando restos de comida. Ela é magra e arisca, mas as tetas estão inchadas, cheias de leite. O que indica que ela teve uma ninhada recentemente e está amamentando. Geralmente a cadela encontra ossos e restos de carne nos sacos de lixo que ficam perto da churrascaria. Ela come apressada e volta na direção do trevo da Voldac.

Um pouco antes do trevo ela atravessa correndo as duas pistas, da Avenida Antonio Pedro da Costa e Adeodato Pires. E entra no bosque que cresceu no terreno da CSN.

Imagino que os filhotes estão lá dentro, escondidos em meio a vegetação densa. E a mãe deles faz essa jornada arriscada, todo dia, para conseguir comida. A travessia daquelas avenidas é perigosa até para nós seres humanos. Não há sinal de trânsito naquele local, só uma faixa de pedestre que a maioria dos motoristas nem respeita. Já fui obrigado a esperar quase cinco minutos naquele local por uma brecha no fluxo de veículos para conseguir atravessar. A cachorrinha olha para os carros que estão vindo, espera uma abertura e atravessa correndo.

Como a maioria dos brasileiros ela vive uma vida muito arriscada. Não somos diferentes daquela cachorra de rua, corremos riscos todo o dia quando saímos de casa para o trabalho ou o supermercado. Risco de ser atropelado por um motorista bêbado ou por um ciclista desses que sobem em cima da calçada. Risco de ser assaltado, esfaqueado ou baleado, já que a segurança pública no Brasil virou uma ficção há muito tempo.

Risco de ser picado por um mosquito e contrair uma dessas doenças que assolam o Brasil. Já tivemos a dengue, a chikungunya, a zika. Agora é a febre amarela, daqui a pouco será a malária. Viver é muito perigoso, principalmente se você vive em um país falido chamado Brasil. Até o carnaval, que era sinônimo de alegria e descontração virou uma brincadeira muito arriscada. Que chega a gerar situações tragicômicas. Na semana passada duas mulheres resolveram sair fantasiadas em um bloco que circula pelas ruas lá da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Perigo: Mesmo na faixa de pedestre corremos riscos (Foto: Paulo Dimas)

Perigo: Mesmo na faixa de pedestre corremos riscos (Foto: Paulo Dimas)

Em outros tempos a Tijuca era um bairro de classe média, muito tranquilo. Não é mais. As duas amigas colocaram fantasias de super-heroínas. Uma foi de Mulher Maravilha, a outra, loira, foi de Supergirl. Desfilaram no bloco e depois pegaram o carro de volta para casa. Perto da Praça Sáenz Peña entraram no meio de um tiroteio. Era uma pick-up cheia de bandidos perseguindo um carro da polícia.

Reparem na inversão de valores. Antigamente era a polícia que perseguia os bandidos, agora são os meliantes que perseguem os policiais. Em poucos instantes o carro das duas amigas foi perfurado por dezessete tiros de fuzil e pistola. Elas escaparam ilesas. A imprensa lá da capital do estado adorou a história. Teve um jornal que estampou a manchete: “Mulher Maravilha e Supergirl escapam de tiroteio na Tijuca”. O garçom de um bar na mesma rua não teve a mesma sorte e morreu com um tiro no peito.

E estamos apenas no pré-carnaval. Em São Paulo um folião já foi eletrocutado e dois foram fuzilados em um posto de gasolina. Só mesmo a Supergirl e a Mulher Maravilha para escaparem do Carnaval de 2018. A solução seria fugir do Brasil? Infelizmente não, lá fora existem outros riscos. O mundo inteiro vive perigosamente. No domingo passado o asteroide 2002 AJ129 passou pela órbita da Terra a uma velocidade de 122 mil quilômetros horários. Ele tem um quilômetro de diâmetro e com esse tamanho, e essa velocidade, arrasaria um continente inteiro em caso de colisão.

E não é o único. Existem dezenas de rochas como o 2002 AJ129 cruzando a órbita do nosso planeta todo o ano. Vivemos em uma galeria de tiro cósmica. E somos como aquela cachorrinha assustada, atravessando a avenida em busca de comida.

 

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

15 comentários

  1. Todos vivemos perigosamente hoje em dia. Nas calçadas corremos riscos, no trânsito, idem. Infelizmente, convivemos a cada segundo com o animal mais agressivo da terra. É preciso estar sempre atentos; ao menor movimento, podemos, sem qualquer intenção maldosa, ser surpreendidos por reações impensáveis de quem se encontre por perto. Parece incrível mas é a mais pura realidade. Penso positivamente para que a natureza proteja essa cadelinha dos ditos humanos.
    Parabéns pelo texto, de uma clarividência fantástica.

  2. Achei a comparação muito pertinente, triste, mas pertinente sim. Não vou dar uma de historiadora, mas sabemos que tudo isso é resultado de uma sociedade injusta e desigual a qual estamos inseridos, aceitamos ou somos obrigados a conviver. Inseridos porque nascemos já em uma cultura desigual desde os primórdios, mas quanto mais aumenta a tecnologia e o progresso desenfreado e inconsciente, mais o ser humano teve forte tendência para a ambição desmedida, o capitalismo selvagem, a desigualdade das classes sociais. Aceitamos porque em meio a todo esse caos fecham-se os olhos nos dias de eleição ainda votando-se em políticos desonestos, ou se prefere assistir uma novela e futebol (nada contra) do que um jornal tão informativo. Obrigados porque até mesmo os que lutam, são cidadãos conscientes estão de frente a pessoas poderosas ? que por mais que estejam erradas utilizam dinheiros e métodos para prejudicar quem realmente tem boa vontade. E o resultado é esse: um mundo de violência. Não vamos esquecer de que diante de uma cadela de rua se tem os animais de estimação de pedigree, muito bem tratados. Ou seja, nessa minha comparação é só mais uma contradição humana: pessoas estão sendo tratados como animais e animais sendo tratados como pessoas. E o resto que o comentarista disse com propriedade resume exatamente a falta de amor e ambição entre outros pecados capitais que estão destruindo a raça humana! E com grande chance de extinção!

  3. Quando li “Era uma pick-up cheia de bandidos perseguindo um carro da polícia” pensei que você estivesse delirando, mas continuando a leitura, percebi que não.

  4. Prezado Jorge, leio suas crônicas sempre. Muito boas por sinal. A situação do RJ e também de outros estados, ficou assim, depois que bandido virou cidadão. Se um policial mata um bandido, ele responde a processo, e se bobear ainda vai preso. O bandido mata policial e é um coitado, pois a sociedade não deu oportunidade na vida, essa xaropada de esquerda. Precisamos mudar as LEIS no Brasil, e acabar com esse negócio de bandido cidadão. Porém não vejo por parte de nossos congressistas (sic ), um bando de aproveitadores que nós o povo colocamos lá em Brasilia. Duas vezes por ano passo de 30 a 40 dias no Canadá, pois tenho um filho que mora lá, e digo para você, volto para o Brasil, triste e se fosse mais novo mudaria em definitivo para lá.Abraços.

    • Concordo 100%. Devemos começar a chamar as coisas pelos seus nomes apropriados: bandido é bandido e vítima é a que sofre com o crime dele. Bandido tem que ir pra cadeia, para dizer o mínimo, com penas proporcionais à gravidade do crime.

    • Sr Alberto Roberto,
      Charopada de esquerda é o C…, nós não defendemos bandidos, bandidos teem que ser punido severamente de acordo com o crime que praticaram, o que defendemos é uma sociedade mais justa onde as oportunidades sejam realmente iguais. Vampirão neo liberal.

    • Falou tudo Alberto Roberto!

    • A esquerda adora bandidos e odeia a polícia. Os esquerdistas sempre estiveram do lado errado da história e defenderam ideias que geram crime e pobreza.

  5. Parabéns Jorge. Como sempre nos presenteando com belas crônicas do cotidiano e da vida

  6. Muito se fala da violência urbana e acabamos não falando da violência do trânsito. Este último mata tanto quanto o primeiro – mais de 50.000 mortes anuais! Ambos parecem ter a mesma origem: a deterioração de nossa sociedade. É o resultado de todo este tribalismo, este nós contra eles, alimentado pelos progressistas de esquerda que vêem luta de classes em tudo.

  7. Essa odisseia da cachorrinha é conhecida por milhares de venezuelanos que estão fugindo para a Colômbia, Peru, Brasil e Chile… O povo que fugiu da Venezuela, porque não entendeu muito bem a Revolução Bolivariana defendida por Maduro e seus amigos Lula e Frei Betto!
    São milhares de venezuelanos que estão buscando comida nos lixos das capitais do Amazonas e de Roraima, pois a Revolução bolivariana defendida pelos partidos políticos brasileiros PT, PDT, PSTU, PCdoB, etc…. levou milhões de venezuelanos à miséria e, hoje, milhares de crianças estão subnutridas e muitas não vão conseguir sobreviver até o fim do dia!
    Lula e sua corja defendem o governo ditatorial de Maduro, contudo se Lula fugir do Brasil ele não vai fugir para Caracas, pois ele é esperto e sabe que um governo como de Maduro pode cair a qualquer momento, e aí, Lula sabe que ia perder os privilégios que o governo ditatorial iria lhe conceder como vinhos caros e picanha na brasa!
    Como diria Boris Casoy : “Isso é uma vergonha!”….

  8. Sem contar que um dia ela terá que abandona-los forçadamente ou não e eles terão que viver a própria sorte.

  9. SE SUPERANDO NOVAMENTE…
    ESSA É A NOSSA LUTA TODOS OS DIAS. O MELHOR DA CACHORRINHA É QUE ELA NÃO PRECISA
    CONHECER OS DETALHES DIA A DIA.
    TÔ ATÉ COM INVEJA DESSA CACHORRINHA. NÃO SABE O PERIGO QUE CORRE E TÁ AÍ… TODA FELIZ.
    NEM OBRIGAÇÃO DE VOTAR ELA TEM. PAGAR CONTA ENTÃO…NEM PENSAR.
    E VIVA A CACHORRINHA.
    PRA NÓS…SÓ DESGRACEIRA. DÁ-LHE JACK

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