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Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval

Matéria publicada em 24 de fevereiro de 2017, 07:00 horas

 


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Depois de atravessarmos dois anos de uma recessão que soma desemprego e um rombo sem precedentes aos cofres públicos, uma terrível composição orquestrada por muitas mãos políticas, agora aparece um grupo disposto a atravessar o samba, ou melhor, as marchinhas de Carnaval.

Um movimento que nasceu nas redes sociais sugere banir de vez da folia algumas marchinhas tradicionais que embalam os quatro dias de Carnaval desde a década de 1930.

O movimento insiste em taxar músicas como “Mulata Bossa Nova”, “Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão”, entre outras, como músicas preconceituosas onde só se pode encontrar machismo, homofobia e racismo.

A polêmica busca conscientizar os 451 blocos cariocas e centenas de milhares de outros pelo Brasil afora, que irão desfilar nesse Carnaval, até 5 de março, que músicas assim devem passar longe dessa grande festa, porque só gera apologia ao preconceito.

Maria Sapatão é uma moça que de dia é Maria e ao cair da noite se torna um macho chamado João; Zezé, que com sua vasta cabeleira parece ser um tremendo gay; temos também a linda Mulata Bossa Nova, que não tem suas inclinações 100% para o samba; e ainda o Índio que diz querer apito e que se não receber, promete que o pau vai comer feio, são letras ameaçadoras para muitos e sem a menor postura em relação aos foliões. E o que dizer de “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí?”, verso imortalizado pela Pequena Notável Carmen Miranda em 1937, ao cantar este enorme sucesso que é repetido nos carnavais de todo o Brasil desde aquela época, música composta pelo imortal Assis Valente. A música conta a história de um doutor que durante o Carnaval mudava por completo a personalidade, colocava um canivete no cinto e um pandeiro na mão e saía para a rua aprontando todas e ouvindo do povo o refrão: “Sossega Leão. Sossega Leão”. Um maluco politicamente incorreto sob todos os aspectos.

E a polêmica se estende para outros ritmos, como as músicas que fizeram sucesso na voz de Manhoso como: “Só capim canela”, “Eva e Adão” ou ainda “O gato Tico”. Tem ainda a dama do duplo sentido, Clemilda Ferreira que com seu “Talco no salão” chegou até a tocar por diversas vezes no programa do irreverente Chacrinha. Nesse time ainda temos feras como Genival Lacerda, Sandro Becker e trazendo para os nossos dias nomes como Falcão, Dicró e os Mamonas Assassinas. Cantores que marcaram com enorme bom humor a música brasileira e que usaram e abusaram de temas que tinham sempre uma dupla interpretação, músicas que não eram marchinhas carnavalescas, mas que como estas empolgavam e ainda empolgam um número considerável de pessoas pelos quatro cantos do Brasil e que também são tocadas nessa época pelas ruas das cidades.

Então, o que teria que ser banido do mercado não estaria restrito apenas as marchinhas, mas quase uma dezena de gêneros musicais “perigosos” e que servem apenas para afrontar a moral e os bons costumes do brasileiro.

Felizmente essa sandice em proibir as marchinhas de serem tocadas nos blocos e clubes do Brasil, parece que vai ficar apenas restrito ao moralismo de alguns poucos descontentes que, literalmente, detestam Carnaval ou que não entendem nem um pouco o que significa essas músicas no contexto em que elas aparecem.

O Cordão do Bola Preta, tradicional bloco carioca que arrasta milhares de seguidores pelas ruas da cidade e que este ano fará o seu 99º carnaval, já sentenciou que está fora dessa polêmica maluca e que não vai aderir a esta campanha pró-moral e que beira ao ridículo. O mesmo diz o Simpatia é Quase Amor, que no seu 33º Carnaval fez questão de dizer que na festa de Momo o politicamente correto passa longe.

O Carnaval desde os tempos de Chiquinha Gonzaga, sempre deixou claro que se não houver transgressão e inversão da realidade não é nem de longe a festa que anima um país inteiro e que traz para as principais cidades milhões de turistas apaixonados, que preferem o calor de um samba no pé, de uma marchinha que é pura piada, a um carnaval de máscaras pelas ruas e canais de Veneza, na Itália.

Os blocos este ano devem levar para as ruas cerca de cinco milhões de pessoas, sendo que um milhão serão turistas vindos de várias partes do planeta. O Carnaval é turismo e este é receita, algo que estamos bastante carentes nesse momento, para isso abrindo nossas portas, estima-se que os cofres só do Rio irão receber R$ 3 bilhões e se falarmos de Brasil, esse valor certamente irá dobrar.

Desde que o carnaval existe, as músicas como as que querem proibir existem, juntamente com as inocentes fantasias de índio, baiana, pirata, melindrosa e as mais “ousadas” de homens vestidos de mulher, sempre com calcinhas e sutiãs a mostra ou ainda camisolas e baby dolls sensuais, compondo os famosos Blocos das Piranhas. E isso já acontecia em 1940, com certo recato se é que isso era possível. Mas acredite, essa história de homem em trajes femininos vem mesmo dos carnavais na Rússia, algo datado de 1700.

Hoje os blocos são movidos a muito Marketing e carregam personalidades, sobretudo da TV, como Anitta com seu bloco das Poderosas que vai estar nas ruas do centro do Rio no dia 4 de março a partir das 7h da matina e que estreou no ano passado puxando atrás da cantora cerca de 180 mil pessoas, ou ainda Preta Gil, que desfilou no último domingo cantando para cerca de 400 mil pessoas. No repertório dessas cantoras, sucessos que as tornaram conhecidos do grande público e muitas marchinhas que alguns querem ver proibidas.

Outro que colocou a cara no trio elétrico foi o lutador de MMA, José Aldo, que é padrinho do bloco de pré-Carnaval do Rio, Alegria Sem Ressaca que prega a prevenção à dependência química e mostra que é possível cair na folia sem exageros etílicos. O bloco foi criado por um psiquiatra especializado em dependência química em Harvard e que não fugindo a regra toca músicas conhecidas e adaptadas para o Carnaval e, sobretudo, as tais marchinhas perigosas.

Escape

Diante da vida que muitos brasileiros levam e da certeza inequívoca que temos que trabalhar cinco meses por ano para somente pagar impostos e engordar os caixas para que muitos se locupletem, é fato que o Carnaval é a válvula de escape, é a alegria imprescindível, algo alto astral, pois ver uma multidão inteira se divertindo com as músicas sejam elas marchinhas com todos os seus sentidos e repletas de graça e ousadia é algo para não se levar nem um pouco a sério.

Pular Carnaval respeitando o folião ao lado, isso sim é a regra número um para ser feliz, vestindo a fantasia do politicamente correto durante os quatro dias dessa festa pagã.

Então, nesse Carnaval, faça o seu estandarte com as cores da alegria, todas, e cante sem medo de ser feliz, Máscara Negra, marcha-rancho composta em 1967 pelo imortal Zé Keti e que é peça fundamental da folia há 50 anos.

“Quanto riso, oh, quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando / Pelo amor da Colombina / No meio da multidão. Foi bom te ver outra vez / Está fazendo um ano / Foi no carnaval que passou / Eu sou aquele pierrô / Que te abraçou e te beijou meu amor. A mesma máscara negra / Que esconde o teu rosto / Eu quero matar a saudade. Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnaval”.

 

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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