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Hasta la vista

Matéria publicada em 26 de junho de 2018, 08:59 horas

 


Achei curiosa a explicação de um amigo por ser (quase) fluente em espanhol, mesmo sem nunca ter estudado o idioma:

– É que morei um tempo nos EUA.

Até onde consta a língua oficial dos Estados Unidos é o inglês, mas não exatamente, se você mora em regiões “latinas” do país, como a Florida ou a Califórnia.

Há boas razões para essa latinidade, que vão além do sol abundante e dos parques da Disney. É que essas regiões concentram uma grande quantidade de imigrantes da América, como cubanos, mexicanos, argentinos e brasileiros.

Calcula-se que 1,3 milhão de brasileiros vivam nos Estados Unidos, população maior do que a de muitas capitais do país. Se somarmos os brasileiros que vivem em outros cantos, como Ásia, Europa ou no restante da América, essa cifra daria um outro país: são mais de 3 milhões de conterrâneos. É como se houvesse um outro Brasil pulverizado pelos diversos países do globo.

Essa imagem de um Brasil espalhado pelo mundo já andava meio esquecida desde que nos deslumbramos com o vislumbre de uma economia pujante, inflação domada, uma classe média em ascensão e o invejado carimbo de “BRIC” no meio da testa.

A realidade, nua e crua, é que nunca batemos o bolão que o mundo pensava que batêssemos, nem tampouco somos o vira latas pulguento que pensamos que somos atualmente. Nem tanto lá, nem tanto cá.

Mas eis que leio uma matéria sobre o resultado de uma pesquisa feita em todo o país, que mostra que 62% dos jovens brasileiros (16 a 24 anos) deixaria o país se pudessem. Os números são mais expressivos nos segmentos mais jovens, mais ricos e mais escolarizados da população. No cômputo geral, o Brasil perderia setenta milhões de pessoas, se valesse a intenção retratada pela pesquisa.

Fluxos migratórios tendem a seguir uma lógica econômica: quando a economia vai bem, atraímos imigrantes, quando a economia entra em depressão tendemos a perder cidadãos.

O resultado da pesquisa é sintomático do Brasil atual. Pior do que perder o emprego ou perder o sono é perder a esperança. Sob circunstâncias normais, a maioria das pessoas não deseja abandonar o próprio país, porque essa é uma empreitada com um custo alto, não apenas financeiro, mas social e cultural: afastamento dos familiares, o estranhamento de viver em uma cultura diferente da sua, na qual com alguma frequência você se sente um intruso não exatamente bem-vindo, sobretudo quando se imigra para um país que ocupa uma “hierarquia” econômica e civilizatória melhor do que o país de origem, que é o caso de 99% das pessoas que emigram.

Não faz muito tempo o mundo se chocou com a foto de uma criança síria encontrada morta numa praia da Turquia, com a face inerte afundada na areia, após o naufrágio da embarcação na qual sua família tentava cruzar mares e chegar à Europa. Apenas um dos capítulos da crise humanitária que atinge a Síria. Uma guerra que explode vidas, prédios e sonhos. Se eu vivesse todos os dias sob o risco de ver meus filhos bombardeados à luz do dia, talvez decidisse enfrentar as turbulências de uma vida de expatriado, nem que fosse para lavar banheiros, vender quinquilharias chinesas na rua ou o que quer que garantisse o mais básico dos direitos da minha família que é o de permanecer vivo.

A crise de desesperança do Brasil é de outro matiz, moral, econômico. Mas na essência carrega os mesmos elementos tristes de todas as outras crises: a destruição da esperança, a falta de perspectivas e a renúncia às próprias raízes.

Ainda acho que existe saída, e não falo exatamente do portão de embarque de Guarulhos. Às vezes, no fundo do poço, precisamos olhar pra cima e ver que ainda existe sol, estrelas e um firmamento sobre nossas cabeças.

É preciso ver também o quanto ajudamos a cavar os buracos que nos trouxeram até aqui. Por que acreditamos em políticos idiotas e moralmente tortos? Porque preferimos sempre o sedutor canto da sereia das soluções fáceis? Por que adoramos o “jeitinho” e o atalho? Que visão temos para o Brasil daqui a 50 anos? Porque estamos onde estamos? Porque não conseguimos transformar potencial em realidade?

É provável que as soluções sejam mais complexas, onerosas e doídas do que desejaríamos. Mas elas existem e não serão canadenses, americanos ou japoneses que as executarão por nós.

Construir uma nação dá um trabalho danado, individual e coletivo e não dá para terceirizar essa tarefa. Começa por uma Revolução na Educação, algo que está sempre presente nos discursos, mas sempre ausente das práticas.

Caso contrário, é melhor se acostumar com os nossos cíclicos voos de galinha ou então ir fritar hambúrgueres em solo estrangeiro.


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3 comentários

  1. Os EUA não têm uma língua oficial de fato, o inglês é apenas a língua franca…

    Eu fico imaginando um mexicano vivendo em algum estado do Oeste. Ele não deve se sentir estranho, afinal aquilo já pertenceu a seus antepassados, basta ver pelo nome latinizado da maioria das cidades…

  2. Existe uma saída sim. Partindo do princípio de que o atual sistema político nunca deu certo e nunca vai dar certo. Poderia ser substituído por uma Assembleia popular, da seguinte forma: Prefeitos, governadores e presidente continuariam a ser eleitos e aceitariam projetos de lei a serem submetidos a voto por assembleias populares, formadas por qualquer cidadão que se habilitasse e de forma gratuita. Todos votariam pela internet. E qualquer cidadão opinaria e as opiniões mais sensatas iriam ganhando vulto e influindo na opinião pública, a quem caberia aprovar ou não, caso preferissem votar.

  3. Infelizmente, aqueles que já tiveram a oportunidade de viajar, a passeio ou trabalho, por países onde não existe este déficit civilizatório que possuímos no Brasil sabem muito bem que somos um povo de merda, que bem merecemos viver na merda que estamos…imigração desqualificada é ruim pra qualquer um, quem vai pro exterior e pro povo que recebe o imigrante, mas pra quem domina o idioma do país de destino e tem uma boa bagagem profissional ou idade pra iniciar uma carreira promissora, não pensem duas vezes! Metam o pé e sejam felizes, o mundo é de vocês, porque este país só vai começar a melhorar daqui uns 30 anos, e olhe lá…mesmo que você se mate de estudar, passe em medicina ou num concurso pra promotoria, tua vida se acaba em 30 segundos num assalto num sinal, num disparo de arma por causa de briga em uma boate ou num atropelamento por um motorista embriagado.
    Tenho um aluno de intercâmbio, vietnamita, que me disse numa conversa que se o seu país tivesse o tamanho e recursos do Brasil, ele passariam a China, mas ele entende que nós brasileiros valorizamos mais o lazer do que o trabalho, pois somos “latinos”…este é o “olhar estrangeiro” sobre nós…

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