domingo, 15 de julho de 2018

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Ideias disruptivas

Matéria publicada em 15 de maio de 2018, 06:30 horas

 


A gente vive uma era de grandes mudanças, revoluções tecnológicas e inovações disruptivas, ou seja, aquela invenção que não apenas cria algo novo, mas sobretudo que destrói o velho, uma espécie de destruição criativa.

Na prática é fácil entender o conceito. O Google acabou com as páginas amarelas. O MP3 acabou com o CD, o pendrive acabou com o CD e a nuvem vai acabar com o pendrive. A Netflix e o YouTube estão dizimando as locadoras de vídeo tradicionais, nos EUA os livros eletrônicos da Amazon fecharam milhares de livrarias tradicionais e assim a nossa nave segue apressada arrastando para o limbo empresas e pessoas, incautas ou incultas.

Mas a disrupção não vem apenas da tecnologia, ela pode vir de algo abstrato, como uma ideia, por exemplo. E ela pode vir de muito, muito tempo atrás.

Veja a revolução que Jesus Cristo provocou há dois mil anos.

Os princípios que o Cristianismo representou são absolutamente revolucionários, mesmo hoje em dia. Ainda que a gente saiba que é melhor que a sociedade seja guiada por princípios de tolerância, perdão e amor ao próximo temos muita dificuldade em seguir essa trilha. Quantas vezes não sucumbimos às nossos mais irascíveis desejos de vingança ou impulsos violentos, pelo pulso ou pela língua?

Aliás, é tão difícil seguir esses ensinamentos que a própria terra onde Jesus amassou barro (hoje chamada de Terra Santa), está sempre envolta em conflitos e guerras que em nada parecem seguir os princípios cristãos.

Imagine uma pessoa sem nenhuma autoridade formal que prega que se alguém nos agride devemos dar a outra face, que devemos amar nossos inimigos e jamais pensar em vingança?

O que seria da Humanidade se até hoje seguíssemos a Lei do Talião que pregava exata retribuição da agressão sofrida, expressa na máxima “olho por olho dente por dente”? Estaríamos todos cegos, como Gandhi disse sabiamente.

As ideias também podem ser disruptivas, quando rompem com o padrão vigente de uma época. Jesus rompeu padrões, foi um rebelde, desafiou o status quo. Ele pregou a luz e foi pregado numa cruz.

Sócrates foi condenado à morte por não respeitar as tradições e os deuses da época. Seu pensamento revolucionário desafiava os limites dos homens e reis de seu tempo.

E a igreja católica, que de perseguida passou a perseguidora alguns séculos depois de Cristo, quase queimou na fogueira o genial Galileu Galilei quando ele disse que a Terra não era o centro do Universo.

O mundo precisa não apenas de novos aparelhos e tecnologias, mas também de ideias disruptivas, de líderes inspiradores, que desafiem verdades absolutas e mostrem que existe um jeito melhor (ou mais certo) de fazer o que sempre fizemos.

Em 1963, o pastor americano Martin Luther King, em frente a uma multidão estimada em duzentas mil pessoas, fez aquele que talvez seja o mais famoso discurso da história contemporânea: I have a dream. Ele tinha um sonho, e esse sonho era uma América mais justa e humana, onde negros e brancos tivessem direitos iguais.

Esses líderes quase sempre pagam um preço muito alto pela ousadia de remarem contra a corrente: acabam envenenados, crucificados ou queimados numa fogueira, mas no final das contas a História reconhece o seu valor, e o mundo se torna melhor. Eles morrem em corpo físico, mas deixam um legado que dura para sempre.

Num mundo em que todos ficamos tão mesmerizados com a revolução tecnológica é sempre bom lembrar que grandes ideias podem também desencadear grandes revoluções.

O mundo ainda tem muito a evoluir, mas ao menos vivemos numa época em que brancos e negros são reconhecidos como iguais, o pensamento de Sócrates é a base da filosofia ocidental, sabemos que a Terra não é o centro do Universo (nem tampouco o Google) e se ainda não conseguimos amar o próximo como a nós mesmos, já estamos um bocado mais tolerantes.

Viva as ideias disruptivas!

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