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A corrida espacial dos brinquedos

Matéria publicada em 12 de março de 2018, 14:07 horas

 


Criações japonesas viraram peças de coleção; realidade ficou bem aquém da ficção

Quando os primeiros astronautas orbitaram a Terra, em 1961, 1962, a notícia provocou uma verdadeira corrida para o espaço entre os fabricantes de brinquedos. As crianças iam deixar de lado os cowboys, índios e bonecas e brincar de astronauta. E nenhum país do mundo aderiu com mais entusiasmo a nova moda do que o Japão. Hoje, 60 anos depois, os brinquedos espaciais japoneses viraram peças de coleção e são disputados a preços salgados nos leilões virtuais da eBay.
Uma característica dos brinquedos japoneses é que são lindos, coloridos e totalmente eletrônicos. A criança só tem que apertar um botão e a nave ou estação espacial acende luzes, faz ruídos e gira e se move em todas as direções. Um dos primeiros lançamentos desta corrida espacial em miniatura foi a Super Cápsula Espacial da Horikawa, que reproduz, mais ou menos, as naves Mercury, usadas pelos primeiros astronautas americanos. O brinquedo abre e fecha as portas, se move por cima de umas rodinhas ocultas e tem a figura de um astronauta solitário, como o major Tom da canção do David Bowie.
O fato de o brinquedo se basear em uma nave americana e não russa é fácil de explicar. Na época a forma das naves soviéticas era segredo de Estado. Já os americanos lançavam seus astronautas em transmissão ao vivo pela televisão. Era muito mais emocionante e os fabricantes japoneses preferiam trabalhar em cima de naves cuja forma e função era bem conhecida, do que tentar imaginar o que os russos faziam em segredo.
Em 1966 a União Soviética finalmente mostrou suas naves para a imprensa. Foi uma decepção. Eram muito menos sofisticadas do que as americanas. Mesmo assim a Revell americana lançou um modelo da cápsula Vostok, com um bonequinho do Yuri Gagárin dentro. Afinal, o primeiro homem a ir ao espaço merecia ser homenageado com um brinquedo. A essa altura dos acontecimentos a agência espacial americana Nasa estava pronta para testar sua nave lunar Apollo. Capaz de levar três astronautas até a superfície da Lua.

Cápsula: Nave americana abria as portas

Cápsula: Nave americana abria as portas

Versão

A Masudaya japonesa recriou a Apollo em uma versão chamada Apollo Z. Que tinha um módulo de comando transparente mostrando os três astronautas no interior. Já a sua rival, a Horikawa, preferiu reproduzir o primeiro passeio no espaço, com um brinquedo que mostrava um astronauta flutuando do lado de fora de sua nave Gemini. Outro brinquedo, movido a imãs, permitia que as crianças treinassem as manobras de acoplamento entre o módulo lunar e a nave mãe, que seriam fundamentais para o pouso na Lua.
Depois da viagem à Lua, o passo seguinte na conquista do espaço seria a estação espacial. Uma mistura de laboratório, hotel e posto de combustível no espaço. Uma estação espacial desse tipo apareceu no filme “2001: Uma odisseia no espaço”, que foi um dos maiores sucessos do cinema em 1968. A Horikawa não perdeu tempo e lançou uma estação espacial em forma de roda, ou câmara de ar, com interior detalhado e figuras dos astronautas trabalhando dentro dela. A ilustração na caixa do brinquedo tem várias naves circulando em torno da “roda espacial”, incluindo o ônibus espacial do filme “2001”.
A realidade ficou bem aquém da ficção. Quando as primeiras estações espaciais foram colocadas em órbita, em 1971 e 1973, elas eram bem diferentes dos hotéis circulares imaginados nos filmes. Pareciam latas de óleo, como a Salyut russa e a Skylab americana. A Waco japonesa produziu a sua Estação de Reabastecimento no Espaço. No estilo tambor de óleo do Skylab e da Salyut. Todos esses brinquedos cumpriram a sua função. De despertar nas crianças japonesas o interesse pela tecnologia e pela ciência espacial. Hoje o Japão já enviou vários astronautas de verdade ao espaço, tem um foguete lançador de satélites e é um dos principais parceiros na operação da Estação Espacial Internacional. A brincadeira deu certo.

Por Jorge Luiz Calife
jorge.calife@diariodovale.com.br

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