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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

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Após a lama, depressão atinge vítimas de tragédia em Mariana

Matéria publicada em 14 de abril de 2018, 15:42 horas

 


Foram avaliados também o transtorno de estresse pós-traumático e o risco de suicídio

Crises: Desastre deixou rastros de destruição profunda também nas vidas das pessoas (Foto: Divulgação)

Crises: Desastre deixou rastros de destruição profunda também nas vidas das pessoas (Foto: Divulgação)

Belo Horizonte –¬†Mais de dois anos ap√≥s o rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Mariana (MG), quase 30% dos atingidos sofrem com depress√£o. O percentual √© cinco vezes superior ao constatado na popula√ß√£o do pa√≠s. Segundo a Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde (OMS), em 2015, 5,8% dos brasileiros tinham depress√£o (11,5 milh√Ķes de pessoas).
Os dados fazem parte do projeto Prismma, um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre a sa√ļde mental da popula√ß√£o de Mariana (MG) atingida pelo rompimento da barragem, ocorrido em novembro de 2015. O transtorno de ansiedade generalizada foi diagnosticado em 32% dos entrevistados, apontando para uma preval√™ncia tr√™s vezes maior que a existente na popula√ß√£o brasileira.
O estudo foi conduzido em parceria com a Cáritas, entidade escolhida pelos atingidos que moram em Mariana para prestar assessoria técnica no processo de reparação. No total, 64 entrevistadores aplicaram um questionário à população impactada nos dias 15, 16 e 17 de novembro do ano passado. Dos 479 indivíduos abordados, 225 adultos e 46 crianças e adolescentes até 17 anos aceitaram participar da pesquisa. O restante se recusou, alegou medo de assinar documentos ou tinha outra justificativa para não responderem às perguntas.
Al√©m da depress√£o e do transtorno de ansiedade generalizada, foram avaliados tamb√©m o transtorno de estresse p√≥s-traum√°tico, o risco de suic√≠dio e os transtornos relacionados ao uso de subst√Ęncias psicotr√≥picas, como √°lcool, tabaco, maconha, crack, coca√≠na.
РEncontramos uma prevalência aumentada de transtornos psiquiátricos relacionados ao estresse na população atingida quando comparados aos dados descritos na literatura Рregistra o estudo.
A depend√™ncia de √°lcool foi diagnosticada em 5,8% da popula√ß√£o e a de tabaco em 20%, enquanto 0,9% foi considerado dependente de maconha e 0,4% dependente de coca√≠na ou crack. J√° o risco de suic√≠dio foi identificado em 16,4% dos entrevistados. Entre eles, est√£o pessoas que declararam desejo de morte, relataram ideias suicidas, afirmaram que planejaram se suicidar no √ļltimo m√™s ou reconhecerem j√° ter tentado alguma vez colocar fim √† pr√≥pria vida.
Entre as crianças, o principal achado da pesquisa da UFMG foi a alta frequência de entrevistados que preencheram critérios para transtorno de estresse pós-traumático, superior a 82%. Nos adultos, este diagnóstico envolveu 12% dos atingidos. No recorte por sexo, notou-se que a prevalência nas mulheres, de 13,9%, foi superior em comparação com os homens, que ficou em 8,6%.

Adoecimento

A trag√©dia de Mariana provocou a libera√ß√£o no ambiente de aproximadamente 39 milh√Ķes de metros c√ļbicos de rejeitos, que causaram devasta√ß√£o da vegeta√ß√£o nativa e polui√ß√£o de afluentes e do Rio Doce, alcan√ßando at√© sua foz no Esp√≠rito Santo. Dezenove pessoas morreram e comunidades foram destru√≠das. Em Mariana, os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu foram arrastados pela lama. O epis√≥dio √© considerado a maior trag√©dia ambiental do pa√≠s.
Passados mais de dois anos da trag√©dia, as indeniza√ß√Ķes das v√≠timas ainda est√£o sendo calculadas e os moradores que perderam suas casas continuam morando em im√≥veis alugados pela empresa enquanto convivem com atrasos na reconstru√ß√£o dos distritos destru√≠dos.
Segundo o relat√≥rio final da UFMG, o adoecimento da popula√ß√£o n√£o √© um fato isolado e est√° conectado com estresses e processos de sofrimento social que as fam√≠lias t√™m vivenciado. “Estudos t√™m mostrado que as lembran√ßas do ocorrido nas trag√©dias podem tornar-se profundamente vivas na mem√≥ria, levando a respostas p√≥s-traum√°ticas. As doen√ßas f√≠sicas cr√īnicas, as preocupa√ß√Ķes com os meios de subsist√™ncia, a perda de emprego, a ruptura de la√ßos sociais e as preocupa√ß√Ķes com as indeniza√ß√Ķes tamb√©m foram associadas a respostas p√≥s-traum√°ticas”, registra.
De acordo com a literatura m√©dica, a percep√ß√£o dos riscos de danos √† sa√ļde e de morte, a perda de moradia e de entes queridos e a consci√™ncia da falta de uma satisfat√≥ria assist√™ncia em sa√ļde s√£o tamb√©m fatores que podem levar a um diagn√≥stico de depress√£o em popula√ß√Ķes acometidas por desastres. A discrimina√ß√£o tamb√©m √© apontada como um elemento agravante, o que levou a pesquisa da UFMG a identificar se os entrevistados j√° haviam sido v√≠timas de atitudes preconceituosas motivadas pela sua condi√ß√£o de atingido.
Os resultados mostraram que 62,7% responderam j√° ter sofrido algum tipo de discrimina√ß√£o e 27,1% alegaram j√° ter sofrido algum tipo de discrimina√ß√£o verbal. Em 21,3% desse casos, a ocorr√™ncia se deu em lojas, restaurantes ou lanchonetes e em 12,4% em reparti√ß√Ķes p√ļblicas, como Receita Federal, cart√≥rio, departamento de tr√Ęnsito, companhias de √°gua, luz, esgoto e outras. Al√©m disso, 17,3% dos entrevistados descreveram tratamentos diferenciados por colegas de trabalho e 12,9% j√° se sentiram exclu√≠dos em sua vizinhan√ßa. Relatos de preconceito foram tema de reportagem da Ag√™ncia Brasil em novembro do ano passado.
A UFMG colheu ainda indicadores sobre a qualidade do sono. Dificuldades para dormir no √ļltimo m√™s foram relatados por 52% dos atingidos. Por outro lado, 53,8% classificaram seu sono como sendo √≥timo ou bom, enquanto 26,2% o consideraram regular e 19,6% ruim ou p√©ssimo. O uso de medicamentos para dormir foi constatado em 18,2% da popula√ß√£o e de antidepressivos em 16,9%. Em todos os casos, os entrevistados afirmaram que os rem√©dios foram prescritos por m√©dico.
A expectativa dos pesquisadores √© de que os dados possam fomentar a discuss√£o sobre pol√≠ticas p√ļblicas e planejamento em sa√ļde, al√©m de permitir uma melhor orienta√ß√£o e aloca√ß√£o de recursos e estabelecer programas adaptados √† realidade atual dessa popula√ß√£o. Eles tamb√©m sinalizaram a import√Ęncia de planos de a√ß√£o em casos de trag√©dia para minimizar os transtornos vinculados √† sa√ļde mental.

Fundação Renova

A Funda√ß√£o Renova, institui√ß√£o criada em acordo entre mineradoras e governos para gerir as a√ß√Ķes de repara√ß√£o da trag√©dia, informou em nota que tamb√©m est√° desenvolvendo pesquisas sobre a sa√ļde mental dos atingidos.
– Em parceria com o Instituto Sa√ļde e Sustentabilidade, um estudo que ir√° avaliar a tend√™ncia de aumento de transtornos mentais, de uso de √°lcool e outras drogas nos moradores das √°reas atingidas pelo rompimento da barragem de Fund√£o ‚Äď disse.
A conclus√£o da pesquisa est√° prevista para fevereiro de 2019, mas resultados parciais ser√£o usados para nortear a√ß√Ķes da √°rea de sa√ļde. Na nota, a funda√ß√£o afirma ainda que n√£o tem poupado esfor√ßos para garantir aos atingidos acesso aos cuidados com a sa√ļde. “Todos os estudos e pesquisas que permitam uma melhor compreens√£o dos efeitos do rompimento da barragem de Fund√£o sobre a sa√ļde dos atingidos, e que possam contribuir na defini√ß√£o de medidas de preven√ß√£o e assist√™ncia, s√£o acolhidos com interesse”, acrescenta.

 

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