segunda-feira, 24 de julho de 2017

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Capa / Bastidores e Notas - Por Aurélio Paiva / O jornalismo, como o Titanic, não resiste a um simples iceberg

O jornalismo, como o Titanic, não resiste a um simples iceberg

Matéria publicada em 14 de julho de 2017, 20:29 horas

 


O noticiário em torno do grande iceberg que se desprendeu na Antártica é um exemplo de como o jornalismo está se desgovernando

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Lendo um dos maiores portais de notícias do país, esta semana, surge a notícia do enorme iceberg que se desprendeu do gelo oceânico da Antártica. O jornalista vai dissertando sobre o episódio e cita um especialista que indica o que pode ocorrer com o iceberg:

“Ele pode permanecer inteiro, mas é mais provável que se quebre em fragmentos. Parte do gelo pode permanecer na área por décadas, enquanto outras partes podem seguir para o norte, para águas mais quentes”, disse Adrian Luckman, professor da Universidade de Swansea e principal pesquisador do projeto MIDAS, que vem monitorando a plataforma de gelo há vários anos.

Até aí tudo bem.

Mas aí o jornalista acrescenta:

– Os blocos de gelo que partirem rumo ao oceano podem derreter, o que contribuiria para elevar o nível do mar.

Achei que tivesse lido errado, mas o portal fez questão de fazer um infográfico em que repete, contra o recém-nascido iceberg, a acusação de possível envolvimento na elevação do nível dos oceanos.

“O gelo que partir rumo ao oceano pode derreter, elevando o nível do mar” – diz um dos tópicos.

Arquimedes revirou no túmulo.

O referido iceberg é formado por água em estado sólido, cuja densidade é menor que a água em estado líquido. A água, quando congelada, aumenta de volume em cerca de 10%. Quando retorna ao estado líquido, retoma o volume original.

Por isso cerca de 10% do iceberg fica fora da água. Quando ele se derrete, perde 10% do volume e em nada altera o nível do mar.

Estamos, claro, falando em linhas gerais, sem entrar em detalhes, como o iceberg ser feito majoritariamente de água doce.

Mas há uma experiência legal dos tempos de colégio. Pegue um copo, coloque dois cubos de gelo. Encha com água até a borda. Quando o gelo derreter ele diminuirá de volume e nem uma gota de água vai transbordar.

O risco de aumento do nível do mar seria o derretimento do gelo continental (que está em cima da superfície sólida do continente antártico) e não do gelo que está sobre o oceano, como o do citado iceberg. Este já deslocou o volume de água que poderia deslocar.

Portanto, podem levar as crianças à praia. O iceberg malvado não vai afogá-las.

Isto é só a ‘ponta do iceberg’

Em março de 2000 um iceberg (o B-15) se formou em uma região próxima do atual, na Antártica. Tinha 11.000 quilômetros quadrados. Quase o dobro do atual. Não fez a metade deste barulho na mídia.

Muitos outros icebergs se formaram na Antártica em um ciclo que parece extremamente natural ao continente, pelo que os cientistas têm observado até agora.

O problema do iceberg atualmente formado é que os EUA, nesta era Trump, decidiu abandonar o acordo climático de Paris.

Embora nenhum cientista sério vincule o desprendimento do iceberg às chamadas “mudanças climáticas”, a mídia não ia deixar passar um pedaço de gelo enorme como este sem colocar na conta do Trump.

Se não há ciência para ajudar no discurso, não se preocupe: jornalistas sabem ser extremamente criativos.

Especialmente depois que foi criado uma espécie de “jornalismo do bem”, cuja definição básica é a seguinte: se a causa é “do bem”, você pode mentir, inventar, fazer conexões absurdas e, no caso do iceberg, até transgredir as leis da Física.

Aquela coisa básica de buscar a verdade começa a ser menos relevante na era das chamadas pós-verdades.

Lembrando que pós-verdade nada mais é que um termo modernoso para a antiga mentira maquiada como verdade.

Uma fraude.

O ativismo se fantasia de jornalismo

Um exemplo curioso da transição do jornalismo para o ativismo ocorreu no último dia 8, no vetusto “Estadão”. Vazou um vídeo de um jogador do Sport Club Gaúcho, um clube da terceira divisão, masturbando no vestiário outros dois jogadores.

Os três foram demitidos.

O Estadão e vários outros jornais do Brasil e do mundo acusaram o clube de… homofobia.

Não sei como funciona no “Estadão”, mas nos jornais em que trabalhei as pessoas não costumavam se masturbar no local de trabalho. Muito menos coletivamente. Quanto mais filmando.

Se fosse uma mulher masturbando os jogadores no mesmo episódio e todos fossem punidos da mesma forma não seria notícia.

Mas a palavra “homofobia” é uma daquelas palavrinhas mágicas que acompanham o ativismo jornalístico, junto com “misoginia”, “xenofobia” e outras “bias” que transitam por aí.

O politicamente correto feriu de morte o jornalismo.

Esta necessidade de encontrar “bias” e mais “bias” em qualquer caso e a qualquer custo tornou o jornalismo presunçoso, arrogante, preguiçoso e injusto.

Um jornalismo que, por exemplo, divide a classe política entre “os do bem” e “os do mal”.

Um político que a mídia considere “do bem” pode falar a asneira que quiser: o jornalismo ativista há de conseguir explicar que aquela foi apenas uma frase mal colocada.

Um político que a mesma mídia considere “do mal” será levado ao inferno se deixar uma frase mal colocada.

Não há jornalismo nisso.

É puro ativismo que, de tão infantil, chega a ser grotesco.

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O discurso de boiada na mídia

Junte aos elementos acima citados o “efeito boiada” que atingiu o jornalismo. Vejo programas jornalísticos televisivos com três a quatro jornalistas interpretando (ou melhor, opinando sobre) um mesmo fato.

Todo mundo fala a mesma coisa. Todo mundo pensa igual. Toda a boiada é contra ou a favor. Não há um Paulo Francis que nos salve desta mediocridade.

Para quê quatro jornalistas falando a mesma coisa?

Desperdício.

Bastava um.

Afinal, não há debate nem controvérsia. Pelo contrário. Para confirmar que estão “certos” convidam alguns especialistas que em sua maioria absoluta pensam igual a eles e, mais uma vez, repetem a mesma coisa.

Parece um Bolero de Ravel executado por uma orquestra de batedores de panela.

Esta junção de ativismo e jornalismo lembra a máxima caipira que fala do resultado do cruzamento de um burro com uma vaca: um bicho que não dá leite e nem serve para puxar carroça.

Da mesma forma, o ativismo tem sua função social.

O jornalismo idem.

Mas o cruzamento dos dois forma um bicho que não cumpre honestamente nenhuma das suas funções em particular.

E este bicho está no comando do pomposo e inabalável Titanic jornalístico, sem ter a menor noção do que representa um simples iceberg.

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16 comentários

  1. Interessante Aurélio, em VR. apareceu a ponta do iceberg (o embaixador do Qatar), e virou motivo apenas de piadas. Ninguém está se importando com o tamanho total iceberg, que irá aumentar substancialmente nos próximos 42 meses…
    E o pior: Notícias referente ao iceberg de VR. não alertam sobre a inundação que virá; ou seja sem a imparcialidade.

  2. Excelente texto.

  3. Muito bom. Aurélio conseguiu expor, de forma precisa, a maléfica aliança entre jornalismo e ativismo que aumentou sistematicamente nos últimos anos. Nada escapa desta estratégia.

  4. ótimo texto.
    parabéns

  5. Excelente texto! Mais uma vez justo e perfeito. Parabéns!!!

  6. Fake news no seu mais completo e puro estado. Jair Messias Bolsonaro 2018!!! O terror dessa gentalha!

    • Pobre de direita e o Complexo de Dona Florinda…

    • Para acabar com as frescuras, e a roubalheira da esquerdalha JAIR BOLSONARO em 2018. O Brasil precisa urgentemente de ORDEM. Baderna nunca mais.

    • Passando só pra dizer que eu e toda minha família também somos BOLSONARO 2018!!! E se não gostar não há problemas, democracia é respeito de opiniões… vote 13 se Lula não estiver preso e continue apoiando a pobreza socialista de esquerda que depende do Estado pra viver de bolsa família sem emprego! Quem sabe alcançamos a Venezuela!!!

  7. الفتح - الوغد

    Muito bom texto! Dividido em duas narrativas com temas diversos mas que se relacionam, escritas de forma clara e objetiva, facilitando o entendimento… Mas é assim mesmo. A imprensa fala o que lhe é conveniente (premissa básica), erra por falta de conhecimento e enfatiza o que seu público quer ver, ler e ouvir, pois do contrário não subsiste…

    Isenção total e absoluta é virtualmente impossível, tudo o que fazemos é motivado por algum interesse, mas a coerência deve ser mantida sob qualquer circunstância…

  8. Isso acontece há anos com o jornalismo aqui na região.
    E esse Senhor que assina o artigo sempre fez parte disso…
    Ou seja, escreveu olhando no espelho?

    • الفتح - الوغد

      O DV é basicamente um veículo de relato, de reportagem, não de opinião. Isso quem faz são os colunistas, imagino que observando parâmetros definidos pela editoria do jornal… Jornalismo de opinião, aqui na região, quem faz é o aQui, que aliás tbm gosto de ler…

    • Pensei o mesmo. Lembrei-me quando fazem manchete sobre guardas municipais, multas do Detran etc.
      São assuntos sem importância jornalística, mas rendem bastante.

    • Observador, boa observação (com o perdão do trocadilho). Texto, no meu modestíssimo ponto de vista de leigo, pareceu-me exageradamente carregado d convicções peremptórias de um sócio-fundador do Clube da Verdade, com expressões chochas de radicalismo que remetem a tretas de comentários em redes sociais. Lembrei-me do texto sobre o “desdenhado” Edson Arantes e do daquele outro que escreveu nesse veículo que “o Pré-Sal é uma fantasia”. Ao menos, não encerrou o texto com um “E tenho dito”. Bom, cada um com o seu estilo.
      O relevante no momento é a constatar que a Imprensa (as we know it) encolhe e fragmenta-se a cada dia, e o espectro do passaralho assombra a profissão de jornalista no que resta das redações a cada dia.

    • Aiatolá o senhor da verdade já soltou outra pérola sugerindo que temos dengue e zica devido a proibição do DDT.

  9. Texto ótimo! Sou fã do dos textos do Aurélio Paiva. Quanto à opinião acerca do assunto, exatamente o que eu penso: muita gente foi dominada pela “mídia imparcial” e tratada como gado sendo levado para o abate. E agora reclamam das “forças subterrâneas que invocaram”.

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