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Capa / Bastidores e Notas - Por Aurélio Paiva / A poetisa de Resende que encantou D. Pedro II e os intelectuais da época

A poetisa de Resende que encantou D. Pedro II e os intelectuais da época

Matéria publicada em 8 de novembro de 2015, 08:03 horas

 


Admirada por poetas e escritores, Narcisa Amália foi perseguida por defender as mulheres e os escravos e condenada ao ostracismo

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Era uma sexta-feira chuvosa em Resende, no dia 16 de outubro de 1874, quando correu a notícia: um trem, com um vagão especial, acabara de chegar à estação da ferrovia. Dele desembarcara ninguém menos que o Imperador D. Pedro II, acompanhado de sua comitiva.

Foi um dia cheio de fatos inéditos. Primeiro, as carruagens de Sua Majestade e comitiva encalharam na atual Rua Albino de Almeida. As chuvas haviam transformado as ruas da cidade em um atoleiro.

Mas nada tirou nem o humor e nem a determinação do Imperador, que queria prestar uma homenagem, através da comenda da Ordem de Cristo, ao professor Joaquim Jacome de Oliveira Campos.

Quando mudou-se para Resende em 1863, este professor, poeta e jornalista fundou dois colégios – um para meninos, dirigido por ele, e outro para meninas, dirigido por sua mulher Narcisa Ignácia Pereira de Mendonça, que era também professora. Eram figuras intelectuais respeitadíssimas.

O deslocamento imperial para uma homenagem fora da Corte já era algo incrível. Porém, algo mais inusitado aconteceu: o Imperador pediu para visitar a Loja Maçônica Lealdade e Luz, de Resende.

Embora filho de um Grão-Mestre da Maçonaria (D. Pedro I) e vivesse cercado por maçons, D. Pedro II não era maçom e jamais havia visitado, por iniciativa própria, nenhuma Loja Maçônica da Corte (onde ficava o grão-mestrado nacional, no Palácio do Lavradio) ou em nenhum outro local.

Na visita à Loja Maçônica de Resende mais um ineditismo deixou a Corte embasbacada. D. Pedro II deu à Loja um florete (tipo de sabre) da sua guarda pessoal. Era algo incomum. O florete normalmente era dado a uma pessoa, abrindo-lhe livre acesso à presença do Imperador. Doada à Loja, D. Pedro II franqueou este acesso a todos os maçons do local.

De todos os ineditismos daquela data em Resende, porém, nenhum foi tão marcante quanto a sua visita a uma padaria, onde ele foi para, em suas palavras, consumir o “pão espiritual”. Um pão que não era feito de trigo, mas de poesia. Um pão fabricado por uma jovem poetisa, filha do homenageado do dia, o professor Jacome.

Seu nome?

Narcisa Amália de Campos.

É sobre ela que vamos falar. E vamos descobrir por que o culto e intelectual Imperador Pedro II quis tanto conhecê-la.

 O Imperador, a padeira e a princesa

A grande surpresa da visita foi justamente quando D. Pedro II, em dado momento, disse que queria conhecer e cumprimentar a poetisa Narcisa Amália, que havia se casado com um padeiro e trabalhava na padaria do casal.

Quando foi dito ao Imperador que ela morava na mesma padaria, e indicaram o local, D. Pedro II declarou:

– Não dilatemos a visita, vamos sem perda de tempo, porque enfim eu vou visitar a sublime padeira, por estar ansioso por lhe provar … do pão espiritual.

O cortejo foi feito com o imperador andando à frente, pisando na lama das ruas em atoleiro, seguido pelo seu séquito, até chegar à padaria da Rua da Misericórdia, onde a jovem Narcisa Amália, com roupa de casa, surpresa, recebeu o Imperador. Um tipo de atenção que normalmente só (e raramente) era dedicado à nobreza.

Merecido tratamento.

Aquela mulher que fabricava pães produzia poesias de uma intensidade e beleza raras.

No prefácio do livro de poesias intitulado “Nebulosas”, de autoria de Narcisa, o escritor Pessanha Póvoa assim escreveu: “Um livro que ilumina a grande noite da poesia brasileira. Quando houver um Conselho de Estado ou um Senado Literário, Narcisa Amália terá as honras de Princesa das Letras”.

Não precisou de um Conselho de Estado ou Senado Literário.

O próprio Imperador fez as honras à Princesa das Letras.

Feminista, abolicionista e republicana

O mais incrível na visita é que Narcisa Amália admirava o Imperador, mas era reconhecidamente republicana. E sua produção intelectual não se resumia à poesia. Ela escrevia artigos para vários periódicos. Foi a primeira mulher jornalista profissional do país. Seus textos eram implacáveis na defesa dos direitos das mulheres e pela causa da abolição da escravatura, além da defesa da República.

Sua genialidade na poesia e na prosa surpreenderam o país.

Virou um sucesso.

José do Patrocínio escreveu o poema “À Narcisa Amália”, em homenagem a ela.

Fagundes Varela dedicou-lhe a poesia “Tributo de Admiração – O Gênio e a Beleza”.

Raimundo Correia fez em sua dedicação o “Poema da Noite”.

Narcisa Amália prefaciou o livro “Flores do Campo”, do escritor, também de Resende, Ezequiel Freire. Foi quando Machado de Assis, na Revista Brasileira de 1879, elogiou o livro de Ezequiel Freire, dando destaque ao prefácio de Narcisa.

Disse Machado de Assis:

– As “Flores do Campo”, volume de versos dado em 1874, tiveram a boa fortuna de trazer um prefácio devido à pena delicada e fina de D. Narcisa Amália, essa jovem e bela poetisa, que há anos aguçou a nossa curiosidade com um livro de versos, e recolheu-se depois à turris eburnea da vida doméstica. Resende é a pátria de ambos; além dessa afinidade, temos a da poesia, que em suas partes mais íntimas e do coração, é a mesma.

 As lutas contra as infâmias

Embora nascida em São João da Barra, em 3 de abril de 1856, Narcisa foi para Resende aos 11 anos e se considerava resendense. Sua “pátria”, como acentuou Machado.

Pátria, claro, no sentido figurado. Pois a verdadeira pátria de Narcisa era, no sentido literal, o Brasil. Este era o seu campo de batalha na luta contra todo tipo de opressão – em especial a opressão contra as mulheres e os escravos.

Casada pela primeira vez aos 14 anos, separou-se pouco tempo depois e casou-se, aos 28 anos, com Francisco Cleto da Rocha, da Padaria Famílias, em Resende. Sete anos depois separou-se. O padeiro ficou furioso.

Sua independência como mulher e sua luta (até então inédita no Brasil, vindo de uma mulher) por direitos liberais acabaram lhe custando uma campanha de calúnias.

Seu talento e sucesso despertaram inveja e ódio.

O historiador Júlio Cesar Fidelis Soares fez um excelente levantamento do que ocorreu no período:

– O sucesso de Narcisa passou a incomodar o marido que, depois de separado, passou a difamar Narcisa declarando que seus versos não eram de sua autoria, mas escritos por poetas com quem teria tido casos de amor. O escritor Múcio Teixeira fez coro à campanha contra Narcisa declarando que o livro “Nebulosas” tinha sido escrito por um homem com pseudônimo de mulher.

Desgostosa, a poetisa desabafa em um de seus versos:

 “Meu nome atirei às ventanias….”

Fora as falsas acusações, era atacada por sua própria condição de mulher. Em dezembro de 1872, C. Ferreira, no jornal Correio do Brasil, elogia a poesia de Narcisa, mas ataca seu envolvimento com as causas libertárias. Diz que acha “fora de lugar” que a poetisa fique “cantando revoluções, apostrofando o reio, endeusando as turbas” e acrescenta:

– O melhor é deixar (o talento da ilustre dama) na sua esfera perfumada de sentimento e singeleza

Mais ásperos, outros críticos sugeriam que ela voltasse “aos cestos de costura”. O crítico Sílvio Homero chegou a dizer que textos de cunho social são “indignos de ocupar as páginas de um livro de mulher”.

Narcisa desabafou em poesia:

 “Quando tento liberar-me no espaço/ As rajadas em tétrico abraço/ Me arremessam a frase – Mulher!”

Derrotada pelo preconceito

Os boatos de que não seria autora dos textos do livro “Nebulosas” foram facilmente derrubados pelo depoimento de várias testemunhas, incluindo o jornalista Alfredo Sodré, que declarou tê-la visto escrevendo vários dos poemas.

Mas no fim Narcisa Amália não conseguiu vencer os preconceitos contra os quais bravamente lutara.

A princípio se considerava uma mulher forte (e era), como escrevera, no prefácio a Ezequiel Freire:

O horror da vida, deslumbrada, esqueço!
É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,
E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!…
– E eis-me de novo forte para a luta.

Mas sucumbiu.

Cansada das difamações em Resende, em 1889, com apenas 33 anos, foi para um exílio voluntário em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Sua chama se apagara. Foi lecionar em uma escola pública. Abandonou toda atividade literária.

Sumiu. Acharam até que tinha morrido.

 A impotência diante do mal

Narcisa Amália dizia que se consagrava à independência e ao feminino, à liberdade educacional e artística da mulher. Mas, com sua impecável inteligência, sabia da resistência que encontraria uma mulher livre, culta e educada como ela própria o era. Esta condição causava terror em muitos homens, como Narcisa escreveu, em 1882:

– A educação da mulher! Mas tem a mulher por acaso necessidade de ser educada? Para quê? Cautela! A mulher representa o gênio do mal sob uma forma mais ou menos graciosa e cultivar a sua inteligência seria fornecer-lhe novas armas para o mal. Procuremos antes torná-la inofensiva por meio da ignorância. Guerra, pois, à inteligência feminil!

Pois… abriram guerra contra ela.

Mataram sua vivacidade e enterram em seu próprio corpo, obrigando-a carregar o cadáver da sua inspiração até sua morte física.

O que abateu Narcisa não foi a tristeza em si. Foi a impotência diante do mal. Com a tristeza ela sempre convivera muito bem. E da própria tristeza tirava sua inspiração, conforme escreveu:

 Meu anjo inspirador não tem nas faces;
Nem tem nos lábios as canções vivaces
Da cabocla pagã!

Não lhe pesa na fronte deslumbrante
Coroa de esplendor e maravilhas,
Nem rouba ao nevoeiro flutuante
As nítidas mantilhas.

Meu anjo inspirador é frio e triste
Como o sol que enrubesce o céu polar!
Trai-lhe o semblante pálido — do antiste
O acerbo meditar!

Traz na cabeça estema de saudades,
Tem no lânguido olhar a morbideza;
Veste a clâmide eril das tempestades,
E chama-se — Tristeza!…

 O lento renascimento de Narcisa

Narcisa morreria em 24 de julho de 1924, aos 72 anos, na residência de um casal de amigos em Rio Comprido.

Com diabetes, a Princesa das Letras – cujo título lhe fora cassado pela inveja – morreu paralítica e cega.

E esquecida.

Mas a Narcisa que morreu derrotada renasce atualmente. Trabalhos e livros de escritoras e historiadoras como Mary del Priori, Heloisa Buarque de Hollanda e Lúcia Nascimento Araújo começam a colocá-la no patamar dos seus méritos.

Ela dá nome a uma escola municipal na Ilha de Guaratiba, no Rio de Janeiro, onde seu nome é cultuado pelos alunos e ex-alunos.

E dá nome a uma rua em Resende.

É pouco, muito pouco para o que foi Narcisa Amália.

Mas a força e a beleza de seus versos, como nos poucos exemplos aqui colocados, não têm como ficar sepultadas pela eternidade.

Mais cedo ou mais tarde sua poesia romperá o esquife em que aprisionaram sua história. Como este renascimento será inevitável, não há porque chorar o esquecimento.

As lágrimas são para os poemas que ela não produziu e os libelos que não escreveu quando, no auge da sua poesia, bárbaros demônios lhe roubaram a alma.

coluna aurelio 8 novembro


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17 comentários

  1. Avatar

    Realmente o Autor seguiu as regras da academia brasileira para referências (retiradas do site da Universidade Federal do RS) e para citações (retiradas da norma NBR 10520, ABNT ago/2002). O Senhor Aurelio não produziu nenhum algúrio ele menciona vários autores seguindo os ditames da ABNT

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      Infelizmente permita-me discordar de sua postagem Sr.Mahatma,sou professor de Metodologia de Pesquisa e entendo bem do assunto, se verificar o texto produzido não há uma só referência bibliográfica, além disto existem trechos de outros autores como da Profª Dr.Cristina Ramalho que pertence ao Livro Um Espelho para Narcisa. Existe norma para citação de fontes telematizadas como o senhor sita Universidade Federal do RS,então quem escreveu,quando,onde e que forma artigo ou dissertação?Não se vê uma referência correta no texto.

    • Aurélio Paiva

      Caro Julio Cesar Fidelis Soares.
      Primeiro você me acusou de tê-lo plagiado em um parágrafo e não ter citado o seu texto.
      Provei que citei e até elogiei.
      Você sequer se desculpou pela lamentável e infame acusação de plágio.
      Agora me faz nova acusação de plágio da dra. Cristina Ramalho, sem sequer citar a parte plagiada que me daria o direito de defesa.
      Solicito que cite o texto plagiado.
      É inadmissível que um professor de metodologia de pesquisa primeiro acuse falsamente a alguém; desmascarado, não de desculpe; e ainda volte a fazer lamentáveis acusações sem apresentar a mínima prova.
      Aguardo a cópia do texto plagiado.

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    Parabéns pela linda descrição sobre Narcisa Amália! Ser uma Mulher “a frente de seu tempo” atualmente, já é motivo de exílio emocional e chacota pelos machistas de plantão… Imagino naquela época! Muito honrada por saber que em Resende viveu essa poetisa tão revolucionária, graciosa e inteligente!!! Parabéns mais uma vez pela linda matéria!

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    Prezado Autor e Editor
    Gostaria muito que o autor do texto fizesse as referência bibliográficas com as devidas citações,meus textos são livres não me importo,mas gostaria eticamente de ver as citações e os créditos, pois partes deste texto publicado são retirados de dois artigos meus: primeiro – O Florete e o Imperador publicado em meu Blog em 8/5/2014,em 10/10/2009 em Informativo do IEV(Instituto de Estudos Vale Paraibanos),Revista Cidades do Rio em 29/09/2010.Segundo – Reflexos de Narcisa em 24/6/2013 Jornal Ponte Velha, e em julho de 2014 Anais do Simpósio de História do IEV vol.1 pág 519 à 524 ISBN 9788565744232 sob título Reflexos de Narcisa, poetisa das névoas.

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      Puxa!… Se não tem citação, é plágio?

    • Aurélio Paiva

      O texto do autor está devidamente creditado a ele:
      ‘ O historiador Júlio Cesar Fidelis Soares fez um excelente levantamento do que ocorreu no período:
      – O sucesso de Narcisa passou a incomodar o marido que, depois de separado, passou a difamar Narcisa declarando que seus versos não eram de sua autoria, mas escritos por poetas com quem teria tido casos de amor. O escritor Múcio Teixeira fez coro à campanha contra Narcisa declarando que o livro “Nebulosas” tinha sido escrito por um homem com pseudônimo de mulher.”
      Eis o texto devidamente creditado e inclusive elogiado.

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      Tá vendo, Julio Cesar Fidelis Soares, o jornalista é sério… num cria problema para aparecer mais não… Ele já te deu os devidos créditos, até com elegios… larga de ser chato!

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    Com triplo e fraternal cumprimento aos irmãos do passado, presente e futuro! Plasticidade, tesouro intelectual da nossa história! Nosso passado, não é só monárquico, escravagista e etc… Temos de tudo um pouco. Inclusive as justiças reais e as injustiças populares. Carregamos esta herança cultural, infelizmente. Alguns reparos, demandam tempo. Provável não estarmos mais aqui, quando isto ocorrer. Portanto, retidão nas condutas social, política, religiosa, cultural e intelectual. Tudo se resume a educação de um povo. Ou seja, parte de um triângulo completado pela instrução.

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    Apenas uma correção.A loja Maçonica em questão é a LEALDADE E BRIO e não Lealdade e Luz.

    Um abraço

    João Carlos

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    Mais uma bela crônica . Peço que continue resgatando a nossa história . Parabéns

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    Liberdade e Propriedade

    Resendenses, entoemos um hino
    Que fulgure qual mundo que sois,
    A esta terra, que é um berço divino
    De poetas, de artistas, de heróis!

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    Caríssimo Aurélio, mais uma vez você nos presenteia com um belíssimo texto sobre os fatos históricos da nossa região. Sugiro uma matéria sobre Marianna Claudina Barroso de Carvalho, a Condessa do Rio Novo. Abraços!

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    Oportuno o texto, como um desagravo à memória da poetisa que lutava contra a opressão.
    A propósito, o país parece viver atualmente uma onda de ódio em que que não raro veem-se pessoas simples a repetir nas redes sociais notícias inventadas e bordões instilados pela oligarquia com o apoio da grande mídia.
    Hoje, quem assume postura libertária e a favor dos movimentos sociais corre o risco de ouvir desaforos do tipo “comunista”, “vai pra Cuba”, “assistencialista”, “defensor de vagabundo”. É o oprimido a repetir e a endossar o discurso do opressor. A história há de fazer justiça aos injustiçados de hoje.

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    Mais uma vez utilizo-me deste espaço para elogio ao Aurélio; aproveito pra informar o erro de digitação ao mencionar o ano de 1989, entendemos que seria 1889.

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    Não, o mau não venceu, ela venceu e ainda esta e sempre estará viva através de sua estória. Aurélio, maravilhoso demais, eu tomei a liberdade de receber este texto como uma homenagem as mulheres e chorei de emoção. Parabéns e obrigada.

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