domingo, 8 de dezembro de 2019

TEMPO REAL

 

Capa / Cidade / Ansiedade e estresse são vilões contra a saúde dos professores

Ansiedade e estresse são vilões contra a saúde dos professores

Matéria publicada em 27 de outubro de 2019, 10:10 horas

 


Profissionais também sofrem com a depressão e falam que doenças são agravadas pelo excesso de trabalho

Ritmo de trabalho intenso é um dos fatos que leva à ansiedade, afirmam especialistas
(Foto: Divulgação)

Sul Fluminense– “De repente meu coração acelerou, fiquei sem ar, com um peso na cabeça e a sensação de que iria morrer na frente dos meus alunos”. Esse é o relato de uma professora de 46 anos que dá aulas para o ensino médio, na rede pública da região, e que preferiu não ter a identidade revelada. Passado o susto, na sala de aula, seu diagnóstico foi de Transtorno de Ansiedade Generalizada e, assim como outros profissionais da sua área, ela passou a fazer parte das estatísticas de uma recente pesquisa realizada pela Associação Nova Escola, que apontou que nos últimos cinco anos, 66% dos professores já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde.
Entre os problemas que aparecem com maior frequência então a ansiedade, que afeta 68% dos educadores; estresse e dores de cabeça (63%); insônia (39%); dores nos membros (38%) e alergias (38%). Além disso, 28% deles afirmaram que sofrem ou já sofreram de depressão. No caso da professora citada, que sofre com ansiedade, ela foi recomendada pelo psiquiatra com quem faz tratamento, a se afastar das salas de aula, uma vez que aquele ambiente havia se tornado o principal gatilho para suas crises. Essa decisão, segundo conta, foi uma das mais difíceis a serem tomadas em toda a sua vida profissional.
– Eu estava em um ritmo de trabalho muito intenso, dando aulas de manhã, à tarde e a noite e em cidades diferentes. E isso me deixava muito nervosa por conta de ter que me deslocar de um lugar para o outro sem me atrasar. Somado a isso, estava passando por uma cobrança muito grande em uma das escolas e acho que isso foi a gota d água para adoecer de vez. O médico me orientou o afastamento e foi muito difícil porque eu preciso trabalhar e sou apaixonado no que faço, mas tive que priorizar a minha saúde – ressalta a professora,
Com a professora Marcília Arantes de Oliveira, de 54 anos, o problema de saúde provocado pelo excesso de trabalho em sala de aula foi ainda pior: além do transtorno de ansiedade, o fato de ter buscado ajuda tardiamente a fez encarar um processo de depressão. Segundo ela, que lecionava para adolescentes em uma área da de periferia, os conflitos entre os alunos, somados a violência e, até ameaças sofridas em sala de aula, foram os principais motivos que a deixaram doente.
– Eu escolhi ser professora por amor, mas sou de uma época em que se havia respeito pela nossa categoria, principalmente por parte dos alunos. Mas, de um tempo para cá, para nós, tentar gerenciar o comportamento em sala de aula, e equilibrar o excesso de falta de respeito dos alunos é de deixar qualquer profissional doente. Eu fui dar aula em uma escola onde havia muitos conflitos, eu não estava conseguindo dar conta dos alunos comecei a ficar com medo, a me questionar enquanto profissional e acabei ficando doente. Primeiro veio a ansiedade e depois a depressão – salientou a professora.

Depressão profunda

Aos 44 anos e no auge da carreira como professora da educação infantil, a servidora pública Luciana de Castro se viu obrigada a abandonar as salas de aula e seus alunos para cuidar da saúde e tentar curar uma depressão profunda que, segundo ela, estava diretamente associada ao seu trabalho. Ela, que se desdobra em dar aulas em Barra Mansa e Volta Redonda, recorda que os sintomas da doença começaram com uma exaustão física e mental que, aos poucos, começou a diminuir sua autoconfiança e vontade de ir para as salas de aula.
– Um dia eu acordei cedinho, tomei banho e, antes e me trocar, senti uma angústia, uma tristeza muito grande e uma sensação de não era mais capaz de ensinar minhas crianças. Tive uma crise de choro compulsiva, não trabalhei aquele dia e só fiquei na cama, deitada, sem vontade de fazer nada. Daí em diante as coisas só pioraram e, por muita insistência de uma amiga e do meu esposo eu busquei ajuda de um psiquiatra – contou a professora.
De acordo com ela, na consulta o médico diagnosticou que ela estava depressiva e, além de ter indicado um acompanhamento com psicólogo, recomendou que entrasse com medicamentos. Segundo Luciana, embora tenha sido um processo muito difícil, aceitar aquela situação, o apoio da sua família foi fundamental para que conseguisse dar a volta por cima.
– Eu posso dizer que fui ao fundo do poço com a depressão, mas que consegui vencer graças ao apoio de muitas pessoas. Nesse segundo semestre eu voltei a dar aulas, mas por opção e recomendação médica, somente em uma escola. Às vezes a gente pensa que nosso corpo e a nossa mente são uma máquina, mas não são e o melhor a se fazer é se tratar e dar uma desacelerada. Sou professora com muito orgulho, mas para fazer o meu trabalho bem feito, em primeiro lugar, eu preciso estar bem – disse a professora, ao recomendar que os colegas de profissão que estão passando pelo mesmo problema para que não deixem de buscar ajuda.

Por Roze Martins

(Especial para o DIÁRIO DO VALE)


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)
Untitled Document