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Moradores de rua preferem ficar nas ruas do que ir para abrigos

Matéria publicada em 25 de junho de 2016, 20:30 horas

 


Em Barra Mansa, eles passam a noite em terminal de ônibus; no município de Volta Redonda ocorre resistência às abordagens

Sul Fluminense – A presença constante de moradores de rua no terminal de ônibus localizado na José Alves Caldeira, no Centro, na subida da Igreja Matriz, tem provocado reclamações por parte de quem precisa pegar ônibus, à noite ou no início da manhã. Com o frio dos últimos dias, um grupo de pessoas se aglomerou no terminal – coberto e com bancos de concreto – e feito abordagens a quem passa ou permanece no local. O que mais tem incomodado os usuários é o fato dos moradores ficaram pedindo dinheiro e o clima de insegurança.

A cabeleireira Luciana dos Santos, de 60 anos, pega o ônibus para casa todos os dias, após o trabalho, nesse terminal. De acordo com ela, nas últimas semanas o que se pôde observar foi que muitas pessoas estão utilizando o espaço.

– Eles estão se aglomerando dentro do terminal e o maior problema é que sabemos que, entre eles, têm muito usuários de drogas. Até dá para entender que são pessoas sem moradia, mas é preciso que se faça alguma coisa porque a presença deles acaba passando insegurança – comenta a cabeleireira.

De acordo com ela, há alguns dias ela e outra mulher foram abordadas por um desses moradores, que pediu dinheiro com as duas. Conforme relatou, mesmo o homem tendo sido agressivo, elas não e intimidaram e não deram.

– Mas ele foi super autoritário. Quando falamos que não tínhamos dinheiro, ele disse que era mentira, pois iríamos pagar passagem. Ficou bravo porque não demos e ainda ameaçou a moça que estava com uma filha pequena, dizendo que a menina poderia aparecer morta a qualquer momento. É uma situação que passa medo – acrescentou Luciana.

A professora Gisele da Silva Mello, de 41 anos, é outra que também se sente insegura. Ela afirmou que eles têm agido como se fossem os “donos” do local. No Ao anoitecer, eles espalham cobertores, colchonetes e papelão e se acomodam. Muitas brigas, segundo a professora, já foram presenciadas entre eles.

– Para quem precisa passar por aqui bem cedo ou à noite, quando a rua está deserta, é uma situação que causa receio. Muitos ali, realmente, não têm casa e são moradores de rua, mas alguns, infiltrados, são viciados em drogas e que podem fazem de tudo para conseguir dinheiro – comentou a professora, ao ressaltar que um conhecido, que trabalha próximo ao terminal, lhe informou que muitos das pessoas que estão permanecendo ali são de outras cidades.

Por meio da assessoria de imprensa, a secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos informou que a equipe de Abordagem Social, em conjunto com a Guarda Municipal, realiza monitoramento diariamente no município a fim de convidar a população em situação de rua para participar da rotina do Centro Pop – Casa da Gente, localizado na Rua Alameda Vanazzi. O equipamento oferece, de segunda a sexta-feira, de 8 às 17 horas, atendimento especializado feito por uma equipe de assistentes sociais, psicólogos e pedagoga, alimentação, oficinas e espaço para higienização pessoal e de seus pertences.

No entanto, de acordo com informações da secretaria, nem todas as pessoas abordadas pela equipe aceitam o convite, permanecendo em situação de rua. O trabalho realizado pela Abordagem Social e Centro Pop – Casa da Gente visa garantir os direitos a população em situação de rua.

Com relação a um espaço para acolher esse público, a prefeitura informou que o Barra Mansa não conta com albergue municipal, até a presente data, contudo há articulações sendo desenvolvidas para que um albergue seja implantado na cidade.  Em relação aos usuários de drogas, os mesmos são abordados e encaminhados ao Ambulatório de Dependência Química – Espaço Reviver, localizado na Rua Pedro Vaz – Centro.

Para finalizar, a Secretaria de Assistência Social informou que as abordagens realizadas diariamente estão sendo intensificadas com intuito de diminuir as aglomerações nos principais pontos da cidade, reforçando o convite ao equipamento, e articulando com os demais serviços como: Consultório na rua e Ambulatório de Dependência Química – Espaço Reviver para o desenvolvimento de ações em conjunto.

Em Volta Redonda, eles resistem às abordagens do Centro Pop

Nos últimos dias, o frio surpreendeu a população com a queda brusca da temperatura, ainda durante o outono. Em Volta Redonda, a mínima registrada na semana passada foi de 6ºC, durante a madrugada do dia 14. Para quem mora na rua e dorme nas calçadas e debaixo dos viadutos esse cenário é mais preocupante. De acordo com o Centro Pop (Centro de Referência Especializada para a População em Situação de Rua) Uhady Nasr, atualmente 42 moradores em situação de rua são assistidos pela unidade que oferece serviços diários (de segunda a domingo, das 7h às 20h) de alimentação, higiene pessoal, lavagem de roupa, além de atendimento médico e social, com profissionais da região.

A unidade tem capacidade para atender 50 moradores de rua e conta com refeitório, sala técnica, lavanderia e armários para os moradores guardarem seus pertences e funciona na Rua Paulo Leopoldo Marçal, no bairro Aterrado, ao lado da Fundação Leão XIII.

A coordenadora do Centro Pop, Rozileia Delizandra, destacou que existem outros moradores em situação de rua, mas que resistem às abordagens da equipe. Ela acredita que essa recusa é devido ao medo de não retornar às ruas.

– Muitos moradores em situação de rua resistem nossa abordagem com medo de ficarem trancados no Centro Pop ou de serem transferidos para abrigos contra a vontade – disse, acrescentando que os assistidos pelo Centro possuem dificuldade de seguir os horários estabelecidos para os serviços de alimentação, lavagem de roupa e banho.

– Percebemos que os assistidos possuem dificuldade para cumprir as regras da unidade, acredito que por estarem nas ruas há muito tempo é complicada essa ressocialização – falou.

Para um morador em situação de rua se abrigar no Albergue Municipal Seu Nadim, localizado no bairro Nossa Senhora das Graças, é necessário ter o acompanhamento no Centro Pop.

– Só encaminhamos um morador de rua para o abrigo, caso ele tenha interesse – disse.

O Centro Pop ainda auxilia no encaminhamento para emissão de documentos para inserção no mercado de trabalho e proporciona oficinas e grupos de convivência.

Doenças e dependência química

Devido à exposição nas ruas e a dependência química de algumas substâncias, como o álcool, muitos acabam contraindo doenças, como pneumonia, principalmente no período do frio. A psicóloga do Centro Pop, Miriana Ribeiro, comentou que a dependência química é um dos fatores para a inserção nas ruas.

– Muitos moradores de rua são alcoólatras e saíram de casa devido ao vício. O álcool é a porta de entrada para outras drogas que acabam sendo adquiridas com mais facilidade diante da situação de vulnerabilidade. Em relação às doenças, percebemos que as mais comuns são gripe e pneumonia, principalmente no período do inverno. Além dessas, é corriqueiro também doenças no fígado devido ao consumo exacerbado do álcool – comentou.

A psicóloga explicou ainda que os moradores em situação de rua recebem atendimento e tratamento médico, porém alguns também apresentam resistência para ir à unidade de saúde, sendo necessário o acompanhamento de uma equipe do Centro Pop.

– Os moradores também apresentam resistência às consultas e tratamentos médicos, e não comparecem as marcações, nesses casos procuramos pelo morador nas ruas e o levamos para receber a assistência na unidade de saúde – disse.

Doação de esmolas e distribuição de sopão

Muitas pessoas se sensibilizam com a situação de um morador de rua e acabam doando dinheiro, mesmo em quantidade pequena. Essa atitude, de acordo com Rozileia Delizandra, fortalece a permanência dos moradores nas ruas e acaba contribuindo para a resistência aos centros de assistência social. A coordenadora disse ainda que, em relação à distribuição de sopão, que o Centro Pop não é contra a atitude, mas a ação poderia ser realizada dentro da unidade para atrair os moradores para o local.

A recepcionista Jenifer Seixas coordena um grupo de voluntários em Volta Redonda que fazem essa distribuição de sopas, é o “Amigos do Bem”. Segundo ela, a iniciativa surgiu há cerca de um mês e conta com aproximadamente 15 voluntários.

– Começamos a fazer depois de ver que um grupo de amigos estava fazendo esta distribuição mas somente em dias de semana, na terça e quinta-feira. Por isso, tive a ideia de fazer esse grupo que leva alimento aos moradores de rua aos sábados. Agora já estamos pensando em promover a ação aos domingos – disse.

Jenifer explicou que os voluntários costumam se reunir na Praça 17 de Julho, no Aterrado, e saem pela cidade passando pela Rodoviária Francisco Torres, no Centro, na Praça Brasil, na Vila Santa Cecília, e também vão até ao Borba Gato, no bairro Dom Bosco.

A coordenadora do “Amigos do Bem” disse que durante as abordagens as reações são as mais diversas mas o sentimento de “fazer o bem” é maior que tudo.

– Alguns conversam, falam que saíram de casa por problemas com a família, outros só pegam a sopa e vão embora. Então é algo muito relativo. Mas eu me sinto muito bem de poder fazer isso por essas pessoas, porque eu penso que poderia ser alguém da minha família nesta situação. Veja dessa forma. E o que mais me dói é quando tem criança – revelou.

O “Amigos do Bem” sai às ruas todos os sábados à noite. Quem quiser participar da ação solidária pode entrar em contato com a coordenadora através do telefone: (24) 9-9978-6389.

ONG realiza trabalho há 14 anos

A Associação Grupo Irmã Regina realiza um trabalho de abordagem e apoio à população de rua há 14 anos, desses oito em Volta Redonda. A iniciativa surgiu dos irmãos Regina Di Stasio e André Luís Di Stasio. O DIÁRIO DO VALE conversou com André que relatou um pouco sobre como é o trabalho de assistência.

– Nós já fazemos esse trabalho há 14 anos e fazíamos no Rio. Então me mudei para Volta Redonda e continuamos fazendo. É um grupo formado por cerca de 15 pessoas que distribui alimentos, roupas, faz cabelo, barba, corta unha … e o mais importante: conversa bastante com eles – disse André que é fisioterapeuta.

O voluntário afirmou que o grupo realiza as abordagens nas noites de quinta-feira em Volta Redonda.

– A gente passa pelo Aterrado, Amaral Peixoto, Vila Santa Cecília e normalmente começo a abordagem dando uma boa noite e oferecendo um lanche. A partir daí a gente conquista a confiança e dependendo da pessoa, ela começa a se abrir e contar um pouco de sua história. Alguns só pegam o lanche, outros dizem que preferem não falar sobre o passado, mas as histórias são muito parecidas: por uso de drogas e problemas familiares – disse André, que informou que hoje são cerca de 35 pessoas em situação de rua que são atendidas pela ONG (Organização Não Governamental).

Ao ser questionado sobre o porquê que muitas dessas pessoas ainda estão nas ruas, apesar da existência de abrigos públicos em Volta Redonda o fisioterapeuta resumiu.

– Acho que falta é uma política pública adequada. Quando falo isso é porque minha irmã é assistente social e ela mesma diz: “Ninguém deseja ficar e dormir na rua, fria, sem comida, mesmo com o uso de drogas”. O que a gente acredita é que faltam políticas públicas e quando eu digo isso eu falo de clínicas para os dependentes químicos, a criação de um albergue maior, porque esse de Volta Redonda não dá conta do número de pessoas nas ruas. O Centro Pop Dia, que é ótimo, mas só funciona até à tarde e a pessoa que está na rua não pode ir para lá à noite, porque não funciona. Estivemos até reunidos com a prefeitura sugerindo para que seja colocado um plantão lá. Também há casos de moradores de rua que dizem que não são bem tratados nesses abrigos – afirmou André.

Quem quiser ajudar a associação eles precisam de doações semanais de leite, achocolatado, copos descartáveis e margarina, por exemplo. As doações podem ser entregues no Edifício Molica, sala 321, na Vila Santa Cecília, em Volta Redonda. Outras informações podem ser obtidas através do telefone: (24) 9-92495621.

Ajuda: Associação Grupo Irmã Regina realiza um trabalho de apoio à população de rua há 14 anos (Foto: Cedida por André Luiz Di Stasio)

Ajuda: Associação Grupo Irmã Regina realiza um trabalho de apoio à população de rua há 14 anos (Foto: Cedida por André Luiz Di Stasio)

 

Por Roze Martins (Especial para o DIÁRIO DO VALE) e Franciele Bueno ([email protected])


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13 comentários

  1. Toda iniciativa de fazer o bem tem que ser considerada, mas os especialistas sempre dizem sempre que
    na maior parte das vezes algumas dessas iniciativas acabam por manter na rua pessoas que poderiam
    estar fora dela, é complexo.

  2. Elias Silva de Andrade

    Só mesmo o Tuca prefeito de Barra Mansa para resolver essa situação.

  3. O problema é que muitas pessoas na boa intenção de ajudar acabam fortalecendo a presença dos moradores de rua. Iniciativas como sopão e varal solidário só incentiva aos moradores continuarem nas ruas… Quem já teve um morador de rua morando em sua porta sabe muito bem a sensação de insegurança e as perturbações que isso causa. O mesmo acontece com quem passa nos locais onde eles frequentam, como foi denunciado na reportagem. Normalmente quem organiza essas ações mora em um belo condomínio com um esquema de segurança onde com certeza os moradores de rua não chegam nem perto… Ou vc já viu algum morador de rua nos bairros nobres da cidade??? Chega de demagogia e incentivo à pobreza! Nosso país só vai crescer quando as pessoas se orgulharem de trabalhar duro e conquistar as coisas com muito esforço… Favelização só é bonito nas novelas da Globo

  4. Liberdade e Propriedade

    Não dê nada a moradores de rua e pedintes em geral, caso contrário estará incentivando-os a permanecer nas ruas e nessa vida. Caso queira ajudar, prefira ajudar os abrigos, asilos ou centros de ressocialização de sua confiança.

  5. Mês passado prenderam dois moradores de rua, acusados de pequenos furtos. Como eram primários, foram condenados a prisão domiciliar.

  6. Romantizam muito a situação dos mendigos. A maioria está nas ruas porque não aceitam as regras das casas e não convivem bem com os outros (insossiaveis), tanto que acabam se apegando a cães, que não falam, não reclamam e tudo aceitam… Outros se tornam viciados em pedir… O maior erro que se comete é tratar essas pessoas como se fossem sempre vítimas da incompreensão e do desamor. O que é ruim pra vc, pode ser o ideal para outro. Vc nunca viu nem verá um protesto de mendigo por casa ou melhores condições de vida…

  7. Fazemos também esse trabalho de distribuição de amor e alimento e perguntamos para eles por que de não irem ao albergue para dormir, a resposta de muitos foram, não somos bem tratados lá, eles não tem bom vontade com a gente.
    O pior que é verdade, fui fazer uma doação lá e senti isso também.

    • Acho que não vão por outro motivo, na rua recebem roupas, comida e esmola (que vira bebida alcoólica é drogas) no abrigo não há oferta de drogas lícitas e ilícitas!

  8. Essas pessoas de rua adoram ficar na rua porque eles recebem tratamento especial dos cidadãos. Não dê nada a eles e eles ficarão com fome e vão para outro lugar. Este outro lugar pode ser os centros de apoio aos moradores de rua.

    Neste sábado de manhã fui a BM e contornei para passar frente a rodoviária. Na calçada eu vi dois cobertores novinhos ensebados de sujeira arrolados pelo chão.

    Querem ajudar por sentirem pena deles? Levem a sua doação a um asilo ou a casa de uma família necessitada. Na periferia tem muita gente mais necessitada do que esses moradores de rua.

    Eu já fui da Pastoral de Rua onde servíamos sopa e cobertores a eles. No outro fim de semana os mesmos já não tinham o cobertor ou o kit de higiene. Digo que são uns ingratos com quem os ajuda.

    Ninguém é digno de pena. O que precisam é de políticas públicas adequadas a essas pessoas. Muitos deles nem são da cidade, mas como recebem dos cidadãos, eles ainda trazem outros de fora.

    • Nem nós que pagamos 5 meses do salário com impostos temos políticas públicas adequadas, imagina as pessoas que moram na rua meu amigo, morador de rua sempre existiu e sempre vai existir, falar em solução sem obrigar essas pessoas, o que fere o direito de ir e vir é praticamente um caso sem solução.

  9. A reportagem é E N O R M E.

    Eu não acredito que alguém seja capaz de ler essas reportgagens nestes tempos que os leitores só conseguem ler 140 caracteres. Eu que adoro e sou viciado em leitura NÃO consegui ler tudo.

    Sugiro ao DIARIO DO VALE que faça reportagens fracionados desses assuntos longos e distribuído pela semana.

    Com essas reportagens E N O R M E S é um motivo para afastar os leitores.

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