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Mudança de hábito dos pais é a melhor saída no combate à obesidade infantil

Matéria publicada em 23 de abril de 2016, 14:00 horas

 


Nutricionistas afirmam que apoio da família é fundamental para que as crianças sejam adaptadas a uma alimentação saudável

Barra Mansa – Dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde, apontam que uma em cada três crianças, de cinco a nove anos, está acima do peso recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com especialistas da área de nutrição, além de buscarem profissionais qualificados para cuidar das crianças, nessas condições, os pais têm papel fundamental para que o tratamento dê certo. A saída, conforme afirmam, é a mudança de hábitos na hora de se alimentar.

Conforme destaca a nutricionista Karina Carvalho, quanto mais cedo os pais buscarem informações com um profissional qualificado, melhor. No entanto, é muito importante que os mesmos deem o exemplo aos filhos, uma vez que são eles que trabalham, compram e levam os alimentos para dentro de casa.

– Não adianta dizer à criança que não pode tomar refrigerante se o papai ou a mamãe estão tomando. Muitas vezes é necessário corrigir a alimentação dos pais, para conseguir corrigir a alimentação da criança. As crianças se espelham muito na família e, então, é preciso que o exemplo venha de cima – exemplificou a nutricionista.

De acordo com ela, hoje muito se discute a questão da obesidade infantil, principalmente pelos danos que o excesso de peso pode provocar com surgimento de vários problemas de saúde como: diabetes, problemas cardíacos, má formação do esqueleto, diabetes do tipo 2, esteatose hepática (gordura no fígado), apneia do sono, Bullying, ginecomastia, genitália masculina proporcionalmente menor, infecções cutâneas e  problemas posturais como, por exemplo: hiperlordose lombar e valgismo de joelho, entre outros.

– Para tratar o problema, é importante que as crianças e os pais aprendam a comer. A alimentação é a chave para o controle da obesidade que, nas crianças, caso não seja tratada, também pode levar a baixa autoestima e a depressão – observa Karina, ao ressaltar que fatores como dieta desequilibrada, rica em fast foods, alimentos industrializados e congelados, refrigerantes, doces, frituras e o sedentarismo são os que mais contribuem com a obesidade infantil.

Conforme destaca a nutricionista, além da genética e os maus hábitos alimentares, um dos principais vilões nessa guerra é o açúcar, hoje em dia introduzido precocemente na alimentação da criança.

– Um estudo do Jornal de Pediatria do Brasil revelou que, a partir dos 6 meses, 79,3% das crianças já comem bolachas e 20,7% consumem sucos artificiais.  Só isso já é motivo de sobra para que os pais se preocupem, já que a obesidade infantil acarreta problemas que impactam na adolescência e na vida adulta, como diabetes e hipertensão – alerta Karina.

Segundo ela, além de vários gráficos e percentuais estabelecidos pela OMS, dobras cutâneas, circunferência da cintura, o sobrepeso ou obesidade também pode ser identificado através de diagnóstico clínico: idade de início, nível de atividade física, hábitos alimentares da família, história familiar de obesidade, entre outros.

Investindo na alimentação saudável

De acordo com a nutricionista Juliana Beauclair, para que os pais possam contribuir no tratamento da obesidade dos filhos, um dos primeiros passos é o investimento em alimentos como frutas, legumes e verduras e a preferência por  alimentos integrais, evitando biscoitos e refeições prontas, todas ricas em açúcar, sódio e gorduras.

– Os pais têm que ficar atentos às situações do dia a dia. Devem diminuir o consumo de bebidas adoçadas, incluindo os sucos industrializados,  já que essas bebidas são muito calóricas e oferecem poucos ou nenhum nutriente. Devem reduzir o número de vezes em que a família vai comer fora, especialmente em restaurantes de fast-food, onde  muitas das opções do menu são ricas em gordura e calorias, e sempre servir porções adequadas às crianças – destaca Juliana, ao ressaltar que a inclusão da atividade física, nesse processo, é fundamental.

Sobre os tipos de tratamento, Juliana explicou que para crianças que estão acima do peso ou com obesidade leve, sem risco de desenvolver outras doenças, é recomendado apenas a manutenção. “Isso porque crescimento da criança pode fazer com que ela entre numa faixa de IMC (índice de massa corporal) saudável, sem necessariamente precisar emagrecer”, esclarece a nutricionista. Já para crianças com obesidade instalada, e risco de desenvolver outras doenças, a perda de peso é recomenda.

– Nesses casos deve- se optar por uma dieta saudável, associada a pratica de exercícios, lembrando sempre que o sucesso do tratamento na criança vai depender,  em grande parte do compromisso dos pais em fazer essas mudanças – comentou a nutricionista.

Jornada dupla contra a obesidade

Mães de três filhos, sendo dois diagnosticados com sobrepeso, a professora Renata Rocha Marquione, de 39 anos, não mediu esforços para que os filhos, uma menina de 11 anos e um adolescente de 16, conseguissem vencer o problema. Ela conta que, inicialmente, tentou impor uma dieta por contra própria, ás crianças, mas que logo reconheceu a necessidade da ajuda de um profissional.

Os resultados, segundo Renata, só surtiram efeito depois que os filhos iniciaram uma reeducação alimentar, prescrita por uma nutricionista. “Há dois anos eu levei eles na nutricionista e fiquei surpresa com a dieta, já eles iriam comer mais do antes. O que fez toda a diferença foram os horários das refeições e a quantidade”,  explicou a professora.

De acordo com ela, passados dois anos do início do tratamento todos ainda mantém uma alimentação balanceada, associada a atividades físicas, incluindo ela, que diz ter sido “muito rigorosa para que o tratamento desse certo”
“A família é parte fundamental nesse processo. Fiz dieta junto com eles para incentivá-los. Não deixei entrar nada na minha casa que eles não pudessem comer e fiz tudo isso porque entendo que nós, os pais, precisamos ajudá-los. Não é fácil, mas o quanto antes tratarmos a obesidade, mais estamos contribuindo para que nossos filhos não tenham problemas sérios de saúde. E eu posso afirmar que valeu muito a pena”, enfatizou a professora, ao acrescentar que nos seis primeiros meses de reeducação o filho perdeu 12 quilos e a filha dez.

Desde criança: Alimentação é a chave para o controle da obesidade (Foto: Divulgação)

Desde criança: Alimentação é a chave para o controle da obesidade (Foto: Divulgação)

Doutora em obesidade infantil critica dietas restritivas

Crianças obesas não devem fazer dietas restritivas, com proibição total de certos alimentos. Pesquisas demonstram que quando se orienta alguém a “fechar a boca” para perder peso, os efeitos são o oposto do desejado: há aumento do apetite, diminuição do metabolismo e a pessoa fica mais obcecada por comida.

Essa informação foi divulgada pela nutricionista Sophie Deram, doutora em obesidade infantil e genética pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Sophie Deram explica que as dietas restritivas são aquelas que deixam as pessoas com fome:

“O fato de ele sentir fome vai desencadear, no cérebro, um mecanismo de adaptação que vai fazer o quê? Vai aumentar o apetite. Claramente, o que acontece? Quando você está com fome, o corpo quer que você coma. Então ele vai fazer o quê? Vai mandar mais sinais de fome. Se você não responde porque você está de dieta, o cérebro vai mandar mais ainda e seu apetite vai ficar maior. Mostraram em pesquisas que até quando você para essa dieta, o seu apetite fica maior depois e durante pelo menos um ano”.

O presidente do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Paulo César Alves da Silva, concorda com a nutricionista:

“Não gosto nem de usar a palavra dieta. Na verdade, quando a pessoa engorda, ela tem um distúrbio metabólico e ela tem que passar a comer correto para o metabolismo dela. Então pode usar todos os grupos alimentares, mas com orientação médica ou com orientação do nutricionista. Mas não fazer dieta restritiva jamais. É um equívoco até porque a criança está em fase de crescimento”.

Paulo César da Silva destaca que a alimentação das crianças é normalmente fornecida pelos pais. São eles que compram o que se consome em casa e pagam as despesas nas cantinas das escolas, por exemplo. Por isso, segundo o endocrinopediatra, é fundamental que os pais sejam conscientizados sobre a necessidade de prover a casa com alimentos saudáveis e de verificarem o que as crianças estão comendo nas escolas.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares realizada pelo IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2008 e 2009, mostrou que, enquanto a desnutrição entre crianças vem diminuindo gradativamente, a obesidade infantil está aumentando. Em 2008, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos tinha excesso de peso. Também a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, realizada em 2006, mostrou que 7% das crianças menores de 5 anos já apresentavam excesso de peso.

A obesidade é uma doença crônica provocada pelo acúmulo excessivo de gordura no corpo das pessoas. Entre as consequências da obesidade infantil, podem-se citar a diabetes do tipo 2, a hipertensão, lesões na pele, alterações psicológicas, e obesidade na vida adulta. Isso sem falar que, em geral, as pessoas obesas vivem menos. A OMS, Organização Mundial da Saúde, já considera que há uma epidemia de obesidade, por causa do grande número de casos em vários países.

A endocrinologista Maria Edna de Melo destaca que, além de uma alimentação adequada, a atividade física é fundamental para evitar e combater a obesidade. Segundo ela, a educação física nas escolas do Brasil, por exemplo, é muito restrita e isso precisa mudar.
As informações são da Agência Brasil.

Por Roze Martins, com Agência Brasil
(Especial para o DIÁRIO DO VALE)


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