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A árvore fugitiva e o verde escasso em Pinheiral

Matéria publicada em 29 de março de 2016, 07:15 horas

 


Comercial de TV lembra o fim das nossas florestas; campanha foi feita pela Unilever

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Um novo comercial na TV chamou minha atenção outro dia. Mostra uma árvore de 117 anos que foge da floresta arrasada e se esconde na cidade. Tudo feito com efeitos especiais que lembram aquelas árvores ambulantes do “Senhor dos Anéis”. A campanha foi feita por uma empresa, a Unilever, que fabrica sabonetes e pasta de dente. Ela fez uma parceria com o Fundo Mundial de Vida Selvagem. No anúncio a árvore consegue escapar da destruição indo parar em uma praça de uma cidade grande. Ainda bem que ela não fugiu para Pinheiral, onde nem nas praças as árvores estão seguras.

No final do ano passado cortaram todas as árvores da praça onde ficava a antiga prefeitura. A justificativa são as obras da “nova prefeitura”. O pessoal que mora em volta costumava se reunir à sombra daquelas árvores para tomar cerveja ou jogar dama. Agora vão ficar embaixo do sol quente. Semana passada a turma da motosserra desceu a rua e liquidou com a única árvore que dava sombra na praça Alcides Sabença. A árvore não era velha, não estava doente, mas nem assim escapou. Sobrou só o toco.

Na praça Alcides Sabença tem um ponto de ônibus que tinha uma cobertura de telhas. Ano passado um caminhão desgovernado arrancou a cobertura. A prefeitura não fez outra e as pessoas que esperam o ônibus para Barra do Piraí ou quilômetro nove contavam com a árvore para se protegerem do Sol. Agora, na praça, só ficaram umas palmeiras raquíticas que não fornecem sombra.

O governo anterior proclamava que Pinheiral “é uma cidade verde”. A cidade sofreu um processo de favelização, mas nos bairros mais antigos, como no Centro, ainda restam muitas árvores. Graças aos moradores. No Centro ainda predominam casas com terrenos amplos e árvores centenárias. Como a jaqueira que tem na casa do meu primo, que é do tempo dos meus avós. Fora isso a cobertura verde da cidade tem diminuído a cada ano que passa. E o resultado é um calor insuportável, que no auge do verão lembra bairros da zona norte do Rio de Janeiro, como Bangu.

Passado

Um dos lugares mágicos da minha infância era a “ilha do Tarzan”. Uma ilha comprida, no Rio Paraíba que tem uma extremidade em frente ao campo do Capitólio e a outra perto do Clube Santos, na Praça Brasil. Nos anos de 1950 e 1960 aquela ilha era coberta por um remanescente intocado da Mata Atlântica, que um dia cercou Pinheiral. Só dava para ir lá de canoa, mas nos sentíamos no meio da floresta Amazônica, ou em um filme do herói do Edgar Rice Burroughs. As árvores eram centenárias, com cipós e a ilha era um refúgio para pássaros, tatus, capivaras e lontras. Nos anos de 1980, alguém “comprou” a ilha, derrubou as árvores e transformou o local em pasto para a criação de gado.

Nunca entendi como é que se pode invadir, comprar ou vender uma ilha que legalmente pertence ao governo, a União. E que deveria ser área de preservação ambiental. Mas em Pinheiral isso é comum. Quando não cortam as árvores colocam fogo em tudo, como fizeram com o bosque que fica atrás do Colégio Agrícola. Pinheiral tem taxa de incêndio, mas não tem Corpo de Bombeiros. Quando pega fogo no mato são os moradores ou o pessoal do Colégio Agrícola que tem que combater o fogo. E com isso a cobertura verde do município fica menor a cada ano que passa.

Mas um pequeno trecho da “ilha do Tarzan”, o que fica em frente ao Santos, foi preservado. É só descer a rua ao lado da agência do Banco do Brasil e chegar na cerca na beira do rio. O visitante terá então uma pequena amostra de como eram as ilhas de Pinheiral nos tempos da minha infância.

Outro “lugar mágico” dos meus tempos de garoto ficava no Rio de Janeiro. Era a fortaleza de Lages, na entrada da baía de Guanabara. Mas isso será assunto para outra crônica.

Comercial: A árvore da Unilever não escaparia em Pinheiral (Foto: Divulgação)

Comercial: A árvore da Unilever não escaparia em Pinheiral (Foto: Divulgação)

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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6 comentários

  1. Avatar

    Processo de favelização ? Então vai morar em outro lugar, onde só exista pessoas da elite cheirosinha

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      Tanto a alcunha quanto o comentário mostram o nível de degradação cultural do Brasil – nem mesmo o nome da verdura o sujeito sabe escrever. Mas é o comentário que demonstra como a estratégia gramsciana deu certo no Brasil. O comentarista mal sabe, mas reverbera um tipo de ideia que entrou sorrateiramente no inconsciente coletivo, e hoje já pode ser considerado senso comum. Favelas, há não muito tempo, eram consideradas moradias provisórias, e qualquer um gostaria de sair dali para algo melhor. Chegamos ao fundo do poço: favela virou moda, um estilo de vida, lugar de morada permanente. Aquilo que era motivo de vergonha, virou motivo de orgulho. Orgulho de quê? Da pobreza? Do esgoto a céu aberto? O Brasil, definitivamente, é incorrigível.

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    Sabonete e pasta de dente… isso é o que a Unilever menos fabrica…

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    Bangu é bairro da zona norte ? putz.

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    O (ANTIGO GOVERNO) DR TONINHO, ERA MUITO MELHOR CALIFE, VAI CONFESSA, TODO MUNDO ERRA, ATÉ VOCE AMIGO.

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