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A baleia, o cometa e os homens

Matéria publicada em 30 de novembro de 2021, 15:54 horas

 


Clássico da literatura, Moby Dick faz 170 anos e continua atual

Na semana passada um amigo blogueiro me lembrou dos 170 anos de publicação do romance Moby Dick, do escritor americano Herman Melville. Sim, foi em 1851 que a clássica história do louco capitão Ahab, que perseguia a grande baleia branca Moby Dick, foi publicada pela primeira vez na Inglaterra. Inicialmente o livro não fez muito sucesso, nem entre o público, nem entre os críticos. E Melville morreu se considerando um escritor fracassado. Foi no século vinte que o livro passou a ser exaltado como um clássico da literatura mundial, foi adaptado para o cinema e até para as histórias em quadrinhos, sob o traço do Will Eisner.

A livro descreve com detalhes como era a pesca da baleia no século 19. Mas no centro esta uma história de loucura e vingança. Ahab, o capitão do veleiro Pequod, quer se vingar do cachalote branco Moby Dick que arrancou sua perna direita. E persegue a baleia pelos sete mares, levando os tripulantes que o seguem a ruína e a morte. E é esse tema central do livro que mantem a história atual. A propensão dos seres humanos de seguirem líderes insanos e como isso os leva a desgraça e a destruição.

Há quem veja no livro uma antevisão do nazismo, e do que aconteceu com o povo alemão, que seguiu os planos de Adolf Hitler com uma obediência cega, como os marinheiros do Pequod ante seu capitão. Mas o tema é universal. Veja por exemplo o que aconteceu recentemente aqui no Brasil, com aqueles apoiadores do presidente da República. Que foram para a internet pregar o golpe de estado e o fechamento do STF no último 7 de setembro. Muitos estão na cadeia e tiveram suas vidas arruinadas pela devoção ao seu líder.

Mas voltemos ao Moby Dick. Em 1956 o livro virou filme sob a direção do talentoso John Huston. Que se cercou de um time de atores de primeira classe, como Gregory Peck, Richard Basehart, e o genial Orson Welles. Para transformar o livro de Melville em roteiro cinematográfico, Huston chamou o escritor de ficção científica Ray Bradbury. Que já era famoso por livros como “As crônicas marcianas” e “Farenheit 451”. Trabalhar na produção de um filme não foi uma experiência agradável para Bradbury. O diretor ficava reescrevendo o seu texto e tentando lhe dar aulas sobre roteiro. Anos depois da estreia do filme nos cinemas, Bradbury tentou exorcizar sua experiência traumática, escrevendo uma paródia de ficção científica sobre Moby Dick.

Na noveleta de Bradbury, intitulada “Leviatã99”, o capitão Ahab e sua tripulação são transportados para o século 21, para o ano de 2099. E comandam a maior nave estelar de todos os tempos. Nesta versão, Ahab ficou cego e louco ao contemplar o grande cometa branco. E passa a perseguir o cometa pelo espaço sideral, para destruí-lo, como Ahab queria destruir a baleia na versão do século 19. Em 1979 Bradbury tinha transformado a noveleta em peça de teatro e foi convidado para um jantar pelo cientista Bruce Murray, então diretor do laboratório JPL da Nasa, a agência espacial americana. O JPL é o responsável pelo projeto e construção de todos esses robôs que andam perambulando pelo planeta Marte.

Durante o jantar Murray falou sobre a passagem do cometa de Halley pela Terra em 1986. E de como a Nasa estava se preparando para recebe-lo. A ideia do JPL era enviar uma sonda, equipada com uma grande vela solar para circundar o Sol e encontrar-se com o cometa depois do seu periélio. Bradbury ficou fascinado pela ideia da grande pipa de plástico do JPL sendo enviada pelos homens para saudar o cometa branco e acompanha-lo em sua jornada pelo espaço. E escreveu um artigo a respeito para a revista Playboy.

Cem anos depois de Moby Dick os homens tinham aprendido a conviver com as baleias e os cometas. E os recebiam com alegria e admiração e não mais com medo e ódio. E pelo menos neste aspecto, a humanidade tinha evoluído.

 

Leviatã: Depois da baleia, o cometa


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Um comentário

  1. Esses textos são sempre muitos bons, quando não têm como temática principal a política…

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