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A Bolívia também é aqui

Matéria publicada em 9 de dezembro de 2016, 13:55 horas

 


Insegurança nos transportes é regra na América Latina; avião sem combustível matou 71 pessoas em Medellin

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Na tarde de sábado, dia 3 de dezembro, morreu no Hospital São João Batista o senhor João de Souza Monteiro, de 86 anos. Ele estava naquele ônibus que saiu da pista e invadiu a calçada do viaduto Nossa Senhora das Graças, que liga o Centro de Volta Redonda ao bairro do Aterrado. João Monteiro tinha fraturado uma costela e a perna e morreu de insuficiência respiratória. O laudo que vai apontar as causas do acidente deve ficar pronto ainda este mês. Meu palpite é que foi excesso de velocidade, mas também pode ter sido uma falha mecânica, devido ao péssimo estado da frota de ônibus que circula em nossa região.

Imagino que, ao embarcar naquele ônibus que o levou a morte, o senhor João de Souza Monteiro teve que mostrar a carteirinha com foto para “provar” que era idoso. Não bastam as rugas no rosto e os cabelos brancos. É preciso ter um cartão eletrônico para ter o direito de arriscar a vida nessas arapucas sobre quatro rodas. Não faz muito tempo um ônibus da linha de Pinheiral pegou fogo, espontaneamente, ali na Amaral Peixoto, e só não aconteceu uma tragédia maior por milagre.

Somos como a Bolívia, o país que autorizou a decolagem daquele avião da Lamia, que matou 71 pessoas, sem combustível de reserva. Somos cheios de leis e normas que não são cumpridas. Na Bolívia o desrespeito a normas de segurança básicas matou 71 pessoas. Esta semana a boliviana Celia Castedo, que autorizou a decolagem do avião da Chapecoense, sem combustível suficiente, pediu asilo ao Brasil. Ela alega que sofre ameaças e que querem transformá-la em “bode expiatório” para justificar o que não tem justificativa.

O avião sem combustível matou 71 pessoas em Medellin. Aqui no Brasil morrem 45 mil pessoas todo o ano devido ao desrespeito das normas de segurança em nossas estradas. Normas que são ignoradas por motoristas, por empresas e por órgãos de fiscalização que deviam zelar pela segurança dos nossos meios de transporte.

E a maioria dos mortos nas nossas ruas e estradas é formada por pessoas jovens, e produtivas, que tem suas vidas interrompidas de modo tão cruel quanto no caso dos jogadores de futebol. Gente que morre em uma tarde ensolarada, como o senhor João de Souza Monteiro, porque um motorista não respeitou os limites de velocidade, estava falando no celular ou dirigia um veículo que não recebera a manutenção adequada.

O povo se emociona com a queda do avião. Com a morte dos mártires do futebol. Mas acha normal os 45 mil mortos anuais, que morrem anonimamente em estradas, avenidas, ruas e passarelas. Até quando vamos tolerar essa situação? Até quando vamos passar por ônibus tombados e carros batidos e achar que isso é normal? Que nunca vai acontecer conosco ou com pessoas de nossa família.

Nos acostumamos com a insegurança, passamos a considerá-la normal. Só as pessoas que costumam viajar ao exterior é que percebem que não é normal o motorista de um ônibus arrancar com os passageiros ainda subindo as escadas, ou fazer curvas em alta velocidade com o veículo superlotado e a carroceria rangendo com a sobrecarga. Só quem vai ao primeiro mundo percebe o absurdo do motorista acumular a função de cobrador, desviando a atenção da pista em frente para conferir o troco para o passageiro. Aqui é normal, aqui é como na Bolívia e em outros países de nossa pobre e corrupta América Latina.

Na Bolívia o governo do presidente Evo Morales (grande amigo do Lula) prometeu que vai apurar as causas do acidente com o Avro da Lamia em 40 dias. O que não vai ajudar em nada as famílias dos 71 mortos de um acidente que podia ter sido evitado. É como no caso dos parentes do senhor João Monteiro aqui perto de nós. Saber porquê o ônibus subiu naquela passarela não vai aliviar a dor de uma perda que não teria acontecido se normas básicas de segurança fossem respeitadas.

 

Volta Redonda: Laudo que vai apontar as causas do acidente deve ficar pronto ainda este mês (Foto: Paulo Dimas)

Volta Redonda: Laudo que vai apontar as causas do acidente deve ficar pronto ainda este mês (Foto: Paulo Dimas)

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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4 comentários

  1. Avatar

    ” Na Bolívia o governo do presidente Evo Morales (grande amigo do Lula) prometeu que vai apurar as causas do acidente com o Avro da Lamia em 40 dias. O que não vai ajudar em nada as famílias dos 71 mortos de um acidente que podia ter sido evitado. ” Por mais que uma investigação (séria) não vá desfazer o que está feito, ela é necessária sob a ótica da segurança. Os fatos que se conhece até aqui vieram todos de declarações de autoridades colombianas ou bolivianas, áudios vazados, plano de vôo vazado, etc. Por mais que nesse acidente em específico tudo aponte com grande acerto para uma causa principal, é preciso entender o que se passa com a autoridade de aviação civil boliviana e com o departamento responsável pelo trafego aéreo do país. Será que a aprovação daquele plano de vôo inválido, mas aceito, foi ato isolado? Será que a funcionária foi coagida? Foi corrupta ou corrompida? Ou será que há uma prática corriqueira e outras aeronaves decolaram em situação similar? Outras possíveis situações irregulares? Se a entidade como um todo tem problemas em sua estrutura e é ela quem zela pela organização e controla quem voa na Bolívia, a situação é grave!

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    Boa sua análise. Quem é o responsável, ou melhor quem são os responsáveis ? SUSER e DETRAN. Todos os ônibus para trafegarem em qualquer cidade, passa pela vistoria do DETRAN, e pela liberação da SUSER.
    Vamos cobrar dos responsáveis né ?

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    Mas na Bolívia TODOS os diretores envolvidos foram afastados em menos de 24 horas, Em menos de 01 semana prenderam o diretor responsável pela liberação do avião.

    Aqui até hoje ninguém disse uma palavra sobre a SUSER ou quem libera esses ônibus. Devia estar escrito no vidro a vista de todos quem vistoriou e liberou para as ruas.

    Até hoje não sabemos o nome do funcionário da PMVR que estava retirando gasolina de um carro oficial, mesmo flagrado, mesmo confessando na delegacia.

  4. Avatar

    Gostei do paralelo que traçou… Penso também que tudo deve ter a devida dimensão, mas as pessoas são movidas pela mídia, é o espetáculo que os mobiliza.

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