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A carne estragada, a febre e outras mazelas

Matéria publicada em 21 de março de 2017, 07:20 horas

 


Depois das férias o Brasil parece ainda mais fundo no poço

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Estou de volta, depois de um mês de férias, e o panorama nacional parece ainda mais assustador. A febre amarela chegou ao nosso estado do Rio de Janeiro e as pessoas fazem filas nos postos de saúde para tomar vacina. Nos jornais as manchetes falam do escândalo da carne deteriorada, que envolve algumas das marcas mais famosas do país. O que dizer do Tony Ramos, que, passou meses repetindo na televisão que “carne confiável tinha nome”. Enquanto sua colega Global, a Fátima Bernardes, anunciava outra marca de produtos de origem animal? Agora ficamos sabendo que não só tinha nome como tinha salmonela também!

Meus amigos vegetarianos estão se sentindo vingados de anos de piadinhas e desprezo. Eles sempre insistiram que esse negócio de comer bicho morto não ia dar certo. Agora olham para os carnívoros com ar de desprezo enquanto degustam seus bifes de carne de soja. Nenhuma das duas crises, a da carne e a da febre amarela, era inevitável. A doença transmitida pelos mosquitos já tinha sido detectada há muito tempo no estado vizinho, de Minas Gerais, mas as autoridades de saúde do Rio de Janeiro esperaram que uma pessoa morresse, em Casimiro de Abreu, para iniciar uma campanha de vacinação em massa.

No caso da carne estragada, a operação da Polícia Federal revelou uma coisa que todo mundo já suspeitava. Pessoas que trabalham na área de fiscalização de produtos de origem animal sempre comentaram a existência de subornos e desvios nessa área. Um fiscal do Ministério da Agricultura comentou comigo, há muito tempo: “Se você souber como é feita a linguiça nunca mais vai comer linguiça!”.

O caso dos fiscais que recebiam propina, e dos frigoríficos que vendiam carne estragada, faz parte de uma doença moral que atinge o Brasil há muito tempo. O fiscal que recebe dinheiro para ignorar o produto com validade vencida é como o guarda de trânsito que aceita uma “cervejinha” para não multar o motorista infrator. É parte da lei do Gérson, a ideia de que é preciso “levar vantagem” e usar de todos os meios para ter mais lucro do que a concorrência.

O brasileiro critica a desonestidade dos políticos, mas se esquece de que a classe política é só um espelho da sociedade. Se a sociedade é corrupta, os políticos também são.

Todos esperamos que desse expurgo representado pela Lava Jato e outras investigações vá nascer um Brasil melhor. Mas nada vai mudar se a moral da nossa sociedade não evoluir. Se não deixarmos para trás a cultura nacional da malandragem e do jeitinho. Do contrário continuaremos a assistir ao triste espetáculo da corrupção generalizada em todas as esferas da sociedade.

Os prejuízos são imensos. O Brasil é o segundo maior exportador de carne e derivados, perdendo apenas para os Estados Unidos. Fatos como os que foram denunciados nos últimos dias inutilizam milhões de reais investidos em propaganda e abalam a credibilidade do país diante dos mercados internacionais. E credibilidade é uma coisa difícil de ser reconquistada, depois de perdida. É como aquela empresa de telefonia que precisou mudar de nome depois que virou campeã de reclamações no Procon.

De minha parte acho que já devíamos ter parado com esse negócio de comer bicho morto há muito tempo. Afinal, estamos no século XXI, cadê aquele sanduíche de carne sintética do filme “2001” do Kubrick? Ou o sintetizador de alimentos da nave Enterprise, de “Jornada nas Estrelas”?

O futuro que o cinema e a TV nos prometeram simplesmente não chegou ainda. Mas acho que é inevitável. A fome de milhões de seres humanos por carne de animais faz com que vastas extensões do nosso planeta sejam desmatadas só para virarem pasto para o gado. Gado que emite gases que provocam o efeito estufa. Calor que aumenta a incidência de doenças tropicais como dengue, zika e febre amarela. É um preço alto demais para pagar por um churrasco.

Melhor fazer como o senhor Spock e virar vegetariano.

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Futuro: Spock não comia carne (Foto: Divulgação)

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

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    Bem-vindo de volta! Dá próxima avisa, pois há muitos assuntos a comentar destes dias…

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