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A CIA, a revolução e os frigoríficos

Matéria publicada em 2 de abril de 2017, 06:10 horas

 


Enquanto a CIA derruba governos para defender a ITT, o Brasil produz escândalos que derrubam suas exportações

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Já não é segredo para ninguém que a derrubada do governo de João Goulart, em 1964, teve uma grande ajuda vinda dos Estados Unidos, a “terra dos livres e lar dos bravos”, como diz o hino nacional americano. Os livres ficaram bravos quando a subsidiária da ITT no Brasil, na época, foi estatizada.

Quem conta a história é um ex-diretor da agência que pavimentou o caminho para os tanques comandados pelo general Olympio de Mourão Filho: Stansfield Turner, diretor de CIA entre 1977 e 1981.

Ele escreveu sobre o que precedeu aquele 31 de março que alguns garantem ter sido, na verdade, um 1º de abril, no livro “Queime antes de ler” (Ed. Record, 2008 – páginas 137-138):

 

“(John) McCone é considerado o DCI que desenvolveu e organizou as funções de obtenção de inteligência e análise. Talvez não seja surpreendente o fato de esse homem de negócios habilidoso ter levado a CIA a recorrer ao conhecimento adquirido por corporações americanas que atuavam no exterior. Ele inclusive foi longe para encontrar maneiras de apoiá-las quando elas tivesse problemas com governos locais.

Um exemplo evidente disso foi o Brasil. A CIA considerava o presidente do Brasil, João Goulart, um comunista em formação, baseando-se em sua atuação em favor da propriedade estatal sobre serviços importantes. Parecia que o governo de Goulart assumiria o controle de uma companhia de telefone subsidiária da International Telephone and Telegraph (ITT). Harold Geneen, presidente da ITT, apelou a seu amigo John McCone. McCone envolveu a CIA em na realização de algo semelhante a uma campanha de guerra psicológica. Isso incluiu boletins de imprensa que caluniavam Goulart, um esforço conjunto da CIA e da Agência Internacional de Desenvolvimento (AID) para convencer a AFL-CIO, Federação Americana de Trabalho e Congresso de Organizações Industriais – maior central sindical dos EUA –, a estabelecer centros de treinamento para ensinar a líderes trabalhistas brasileiros alternativas ao comunismo, o envio de dinheiro para o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, numa tentativa de influenciar eleições regionais, e o incentivo a negócios americanos para que para que contribuíssem para partidos de oposição brasileiros.”

 

McCone não era diretor da CIA na época do golpe. Ele assumiu 13 anos depois. Talvez por isso tenha se enganado quanto ao verdadeiro responsável pela fúria ianque. Não foi Goulart, e sim o governador do Rio Grande do Sul à época, Leonel Brizola. Foi ele quem desapropriou a ITT e a Amforp, do setor de energia.

Danilo Macedo conta assim, numa reportagem escrita para a Agência Brasil, a participação dos EUA na “Revolução de 1964”:

 

“A divulgação, pela Casa Branca, de gravações de conversas entre o ex-presidente John Kennedy e o então embaixador dos Estados Unidos (EUA) no Brasil, Lincoln Gordon, comprovam a preocupação da maior potência do mundo com o caminho que vinha sendo trilhado pelos brasileiros em sua incipiente democracia…

…A insatisfação norte-americana em relação aos rumos do país sob a presidência de João Goulart vinha do início de seu mandato. Algumas posições de Jango, como colocar em prática uma série de reformas, entre elas a reforma agrária, e as de seus aliados, como o governador do Rio Grande do Sul à época, Leonel Brizola, que desapropriou duas companhias norte-americanas (ITT, do setor de telecomunicações, e Amforp, de energia elétrica), aumentou a crença nas informações, passadas por Gordon, de que o país caminhava para adotar o regime comunista”.

 

Ajudando as empresas

Então, o governo que comanda a maior economia do mundo ajudou a derrubar um outro governo para atender a interesses de empresas de lá. Aliás, John McCone, o diretor da CIA na época, quando saiu do governo, foi trabalhar na ITT.

Em um dos países com maior liberdade de imprensa no mundo, isso não gerou nenhum escândalo do tipo Lava Jato. Ficou tudo por isso mesmo.

 

Causa e consequência: Tanques na rua, em 1964, se devem pelo menos em parte à reação dos EUA a desapropriações de empresas americanas (Foto: Cedoc-FGV)

Causa e consequência: Tanques na rua, em 1964, se devem pelo menos em parte à reação dos EUA a desapropriações de empresas americanas (Foto: Cedoc-FGV)

 

Cinquenta e cinco anos depois, no Brasil…

 

A ação da CIA contra João Goulart e Leonel Brizola aconteceu em 1962. Em 2017, uma operação da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF), com ampla cobertura da imprensa, fecha frigoríficos supostamente envolvidos com adulteração de carne e derivados.

As exportações do produto, um dos itens mais importantes da balança comercial brasileira, despencam.

Depois de o prejuízo ter acontecido, o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, informou que os laudos de 12 das 174 amostras de produtos colhidas em supermercados de 22 estados e já periciadas não acusam “qualquer perigo do produto para a saúde humana”.

Ou seja: a PF e o MPF, ao divulgarem a realização de uma operação que tinha objetivo de verificar uma suposta adulteração que, até o momento, não comprovou trazer risco para a saúde humana, deram um tombo de alguns bilhões de dólares nas exportações brasileiras. Se a divulgação dos fatos tivesse sido feita depois dos resultados, o prejuízo teria sido bem menor. Isso se houvesse prejuízo.

 

E a Petrobras na Bolívia?

 

No início do governo de Luís Inácio Lula da Silva, o presidente da Bolívia, Evo Morales, simplesmente estatizou instalações da Petrobras por lá. Lula preferiu ser bonzinho com o país vizinho e não moveu uma palha para defender os interesses nacionais.

 

Então…

 

Os Estados Unidos colocam seu governo a serviço das empresas deles, sem nem ficarem vermelhos. Já no Brasil, parte do Poder Público prefere agir contra as empresas brasileiras, fazendo de conta que elas, os empregos que geram e os impostos que pagam não são importantes.

 

Detalhe

 

Quando é preciso, o governo americano age contra as empresas de lá, sim. E não é só com “puxões de orelha”, não. O caso da Enron, empresa de energia que fechou depois de um escândalo de fraude, e das ações do governo de Washington contra as montadoras de automóveis de lá, por causa dos problemas levantados por Ralph Nader, são apenas dois exemplos. Mas o foco lá é resolver o problema. A punição, depois de passar pelo sistema jurídico americano, é aplicada a pessoas responsáveis pelos erros. As empresas, na medida do possível, são preservadas.

As montadoras dos Estados Unidos tiveram que gastar muito dinheiro em indenizações, sim, mas ninguém inviabilizou o funcionamento delas.

 

E nós com isso?

 

Nossa região, assim como o restante do Brasil, tem uma relação um tanto bipolar com suas grandes empresas. A chegada delas é comemorada. Afinal, mais empregos e mais arrecadação de impostos não fazem mal a ninguém.

O problema é que sempre tem alguém para criar alguma encrenca depois. A crise financeira instalada no Estado do Rio, por exemplo, virou desculpa para se abrir uma guerra contra a concessão de incentivos fiscais, uma prática adotada em todo o país. A coisa ficou tão séria que gera risco de empresas que estavam pensando em vir desistirem e, pior, de empresas que já estão aqui saírem.

Talvez a gente tenha alguma coisa a aprender com a maior economia do mundo. Nem que seja a esperar o fim das investigações antes de dar um veredito.

 

 

PAULO MOREIRA | [email protected]


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7 comentários

  1. O texto é pertinente. As ações midiáticas do Ministério Público, através da Polícia Federal, foram catastróficas. Embora 80% do volume produzido seja para consume interno – o que trará benefícios a população em termos de vigilância sanitaria e etc., o impacto que houve nas exportações desse setor – e de outros de tabela – foram enormes. Isso custou muito dinheiro, empregos e manchou a nossa reputação numa época em que países tem saído no tapa para aumentar suas vendas externas.

    Faltou visão e planejamento. Sobrou vaidade e vontade de aparecer.

    Sei que os militares tem visão estratégica e planejamento de longo prazo. Já quanto ao governo caótico, não tenho tanta certeza.

  2. Nem americano nem brasileiro estão certos sob o ponto de vista exibido no texto.

  3. MUITO BOM…
    DEVERIA TER MAIS DESDOBRAMENTOS..
    APROFUNDAR MAIS NO ASSUNTO…
    QUE SE REPETIU RECENTEMENTE…

  4. Antonio Carlos Peludo

    Gostei ,agora aquela do Jack 9 dedos de enfiar o galho dentro diante do Evo Morales foi um tapa na cara dos brasileiros e o pior ficamos todos quietos inclusive as F.A ,também totalmente sucateada e com reserva de munição para no maximo 1 dia de guerra ….

  5. Então derrubaram Jango só por causa das ITT!?
    Não tem nada a ver com as ligações dele com URSS, Mão Tsé Tug e ele ter promovido a revolta dos Sargentos não!?
    É sobre a Bolívia, a explicação disso tá no Foro de São Paulo que vocês dizem não existir.
    Sobre a carne, eles informam escutas de funcionários e donos de frigoríficos combinando de “adulterar” a carne.
    Onde o diário do vale arruma esses jornalistas? Pqp

  6. Muito bom. É isso mesmo.

  7. O colunista está sendo muito simplista com relação à derrubada do governo de Goulart por causa da ITT. Não vale nem contestar o restante da coluna , pois é totalmente distorcida da realidade . O problema maior foi como a informação foi dada . No Brasil tem muita gente querendo aparecer .

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