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A cultura brasileira flerta com o nazismo

Matéria publicada em 24 de janeiro de 2020, 10:37 horas

 


Desde o início da gestão Bolsonaro, alguns ministros e secretários deixaram as suas pastas já no primeiro ano de governo. Foram quatro os ministros trocados ao longo de 2019, começando por Gustavo Bebiano, ministro da Secretaria-Geral, isso apenas três meses após a posse.
Na última semana, a demissão ficou por conta do secretário de Cultura Roberto Alvim, que, coincidentemente ou não, fez uma colagem infeliz – ou, falando em bom português, plagiou trechos do discurso do ministro da Propaganda e braço direito de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, reproduzido no livro “Goebbels: a Biography”, de Peter Longerich, discurso realizado em 8 de maio de 1933, no hotel Kaiserhof, em Berlim, para diretores de Teatro.
Ao som da ópera “Lohengrin”, de Richard Wagner, o compositor favorito do führer nazista, o secretário de Cultura do Governo Jair Bolsonaro fez um pronunciamento que muito se assemelhou aos que eram feitos por Goebbels, e não demorou muito para a bomba explodir.
Trechos do pronunciamento foram imediatamente checados e sua comparação com os do ministro nazista constatou que eram assombrosamente semelhantes. A fala de Roberto Alvim, dizia: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa […] ou então não será nada”. No seu discurso, o líder nazista havia dito: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferrenhamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa (…) ou então não será nada”. Nesse caso, qualquer semelhança não foi mera coincidência.
O caso provocou em poucas horas enorme revolta, sobretudo, nas redes sociais, e a manifestação da Confederação Israelita do Brasil considerou inaceitável as colocações do secretário, que, aliadas a inúmeras outras colocações, como a do ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, entre outros, como também da Ordem dos Advogados do Brasil e do Museu do Holocausto, ajudou a antecipar a saída do secretário, que foi demitido pelo presidente, alegando que se tornou insustentável sua permanência no cargo.
Após parafrasear o nazista, Roberto Alvim afirmou, através das redes sociais, que se tratou de uma infeliz coincidência de retórica, que não havia citado Goebbels e que jamais faria tal coisa. Chegou a dizer que a origem das frases do seu discurso é espúria, mas as ideias nelas contidas são absolutamente perfeitas e que assinava embaixo dessa sua colocação.
Dramaturgo por formação, Alvim ocupou a direção do Centro de Artes Cênicas da Funarte. Nesse período, ele chegou a atacar a atriz Fernanda Montenegro após ela criticar o presidente Bolsonaro em entrevista. Logo a seguir, surpreendentemente, o presidente o promoveu para a chefia da Secretaria de Cultura em novembro de 2019. No comando da pasta, ele chegou a nomear Sergio Camargo para a presidência da Fundação Palmares; por sua vez, o indicado pediu imediatamente, de maneira tresloucada, o fim do movimento negro – e ainda relativizou a escravidão no Brasil, dizendo que ela nunca havia existido por aqui.
Sua maneira controversa de trabalhar ainda gerou a indicação do maestro Dante Mantovani para a presidência da Funarte, o qual fez declarações patéticas sobre o rock, dizendo que esse estilo musical “leva ao aborto e ao satanismo”. Ele ainda complementou: “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto”.

Rumos da cultura

Por causa desse nefasto episódio, artistas, intelectuais e políticos se reuniram, no último sábado, em um teatro do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, para discutir os rumos da cultura no Brasil. Com o nome de “Encontro Cultura Agora”, o evento teve, entre as suas pautas, o futuro da Secretaria Especial da Cultura, da Funarte e do Prêmio Nacional das Artes, que havia acabado de ser anunciado na véspera, pelo agora ex-secretário.
A iniciativa do encontro partiu da Associação dos Produtores de Teatro, e boa parte da classe artística se sente preocupada com o episódio e com quem substituirá o recém demitido. Artistas e intelectuais pensam em promover uma “ocupação cultural” na Alerj e na Câmara dos Deputados, em Brasília, no dia 4 de fevereiro, data da abertura do Parlamento após o recesso.
O pronunciamento neofacista de Roberto Alvim mostra o quanto devemos proteger a nossa cultura, sobretudo, retirando do cenário pessoas que pensam em controlar a arte. Olavo de Carvalho, considerado guru por parte dos integrantes do governo Bolsonaro, declarou: “É cedo para julgar, mas o Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça. Veremos.” Uma coisa é certa: o ex-secretário, que flertou claramente com o nazismo, não está bem da cabeça e muito menos, agora, do espírito.
Enquanto isso, a possível nova secretária, a atriz Regina Duarte, está noivando com o cargo para a qual foi chamada pelo presidente Jair Bolsonaro, mas já enfrenta críticas de toda a ordem e certamente já deve estar sentido o peso da pasta e o quanto terá que trabalhar para poder reverter tantas sandices, devolvendo a Cultura ao seu verdadeiro espaço no cenário brasileiro.

Polêmica: Qualquer semelhança não foi mera coincidência (Foto: Reprodução internet)


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2 comentários

  1. Avatar

    Bem, o brasileiro sempre foi apaixonado por um bom “fascista” (carismático, autoritário e plenipontenciario), desde Pedro 1 a Getúlio Vargas (este fascista mesmo) e parece que daí não sai. As contradições levarão ao progresso ou à explosão, ou aos dois (a “revolução”).

  2. Avatar

    Interessante como os artistas e intelectuais ideologicamente à esquerda se alvoraçaram todos com o episódio mas nem se tocaram quando o famigerado novededos elogiou o chefe do Goebells, um tal de Hitler.

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