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A floresta cinza

Matéria publicada em 30 de agosto de 2019, 08:54 horas

 


Com a crise das queimadas na Amazônia, não apenas o Brasil, mas o mundo voltou seus olhos para o Estado do Amazonas e para as regiões próximas a ele. São chefes de estado, milhares de políticos dos mais variados partidos mundo afora, celebridades e cidadãos comuns que demonstraram, na última semana, uma enorme preocupação com o destino de uma das maiores floresta do planeta.
Desde os anos 1980 que a Amazônia arde em chamas. Isso ocorre de maneira devastadora, seja pelas mãos criminosas dos milhares de posseiros e grileiros, seja pela ação da própria natureza, que apresenta, em muitos períodos do ano, uma quase total ausência de chuvas.
A onda de queimadas que tomou conta dos noticiários nos últimos dias, acredite, não é exclusividade da Amazônia. O fogo está queimando também no Estado do Paraná e, ainda, na Bolívia e no Paraguai. Na Bolívia são cerca de 500 mil hectares consumidos sem piedade pelas chamas. No Parque Nacional de Ilha Grande, que fica entre o Paraná e o Mato Grosso do Sul, o fogo já queimou nos últimos dias cerca de 45 mil hectares.
A Amazônia não é o pulmão do mundo. Esse conceito errôneo, repetido a exaustão, partiu de um cálculo sobre a alta produção de oxigênio no processo de fotossíntese das grandes árvores dessa imensa floresta. Mas é importante que se diga que árvores adultas consomem, praticamente, na sua respiração a mesma quantidade de oxigênio produzida na fotossíntese; sendo assim, o saldo de produção de oxigênio gerado pela floresta é pequeno. Uma curiosidade que põe por terra essa afirmação de “pulmão do mundo”, está em que pouco mais da metade do oxigênio produzido pelo planeta (cerca de 55%) é gerada por algas marinhas. São elas que fazem processos químicos para reverter o gás carbônico em oxigênio; portanto, esse “pulmão” está nos oceanos.
Os oceanos são os principais ecossistemas afetados pelas mudanças climáticas. Muito gás carbônico no ar acaba por alterar a capacidade de absorção das algas e torna os oceanos mais ácidos. Isso afeta, a biodiversidade marinha. Como derrubar árvores na Amazônia aumenta a concentração de CO² na atmosfera, isso irá afetar, consequentemente a higidez dos mares. Veja que tudo está milimetricamente conectado, desde sempre.
Na verdade, a maior floresta do mundo fica na Rússia – floresta boreal, também chamada de taiga – e tem extensão de 12 milhões de km². A Panamazônia, que compreende o território brasileiro e mais territórios de oito países na região, tem 8,47 milhões de km². Já o território amazônico, no Brasil, é de 5,5 milhões de km².
A Amazônia é o ecossistema com maior diversidade de espécies em um mesmo território e as principais pressões são as que dizem respeito ao desmatamento que acontece devido as atividades de grilagem de terras, que são amplamente desmatadas para a extração de madeira e ocupadas com pastagens de gado.
Não podemos continuar a bradar batendo a mão no peito, que a Amazônia é nossa e nada fizermos para mudar o curso dessa devastação. Não podemos nos esquecer que dividimos este bioma com oito países: Colômbia, Equador, Bolívia, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Peru e Venezuela.
É sempre bom lembrar que o que acontece nesses países afeta o Brasil também. Boa parte dos rios amazônicos nasce na Bolívia e no Peru; sendo assim, a construção de hidrelétricas nesses países pode afetar o curso desses rios, assim como o desmatamento na Colômbia reduz o ciclo de chuvas em nosso país.
O grande volume de derrubadas na Amazônia começou em 2004 – e não parou mais. De lá para cá, são cerca de 27 mil quilômetros quadrados devastados. Monitorar o desmatamento por satélite ou por outros meios, fiscalizar as derrubadas de árvores e punir os culpados – é algo que não pode parar. Quantos já morreram na defesa desse patrimônio! Chico Mendes, Dorothy Stang – estes os mais conhecidos -, além de 1.043 outros defensores menos famosos foram mortos nos últimos dez anos.
A Constituição não deixa a menor dúvida acerca das responsabilidades do Poder Público: coibir, o emprego de técnicas e de métodos que coloquem em risco a vida, a sua qualidade e o meio ambiente. Sendo assim, proteger o meio ambiente cabe aos estados e municípios. Não é apenas responsabilidade da União, mas, sim, de todos nós. Para isso é fundamental que usemos sempre a nossa maior arma: a voz.


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Um comentário

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    O idiota do Macron fazendo politicagem em cima da floresta, popularidade no chão. Rodrigues sempre lúcido e coerente. Mais um texto alto nível. Parabéns.

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