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A Força Espacial Americana e a militarização do espaço

Matéria publicada em 2 de novembro de 2018, 08:21 horas

 


Proposta de Donald Trump ameaça o futuro da NASA

No mês passado, o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, voltou a falar no projeto do governo Trump de criar uma força militar espacial americana. Pence lembrou que os Estados Unidos pretendem aumentar suas atividades comerciais no espaço próximo a Terra, e precisam de uma força espacial militar para proteger os 383 bilhões de dólares que os americanos pretendem investir no espaço. Num discurso perante o Conselho Nacional do Espaço, Pence relembrou os planos do governo Trump de enviar americanos para a Lua, na próxima década e, eventualmente, chegar ao planeta Marte em 2030.
Infelizmente o estabelecimento de uma força espacial pode tirar dinheiro da combalida NASA e sabotar esses planos. O orçamento da NASA foi de 19,7 bilhões de dólares em 2017 e a agência gastou 19 bilhões em 2018. Isso é menos de 0,5% do orçamento federal dos Estados Unidos. Na época das viagens a Lua e do projeto Apollo, a agência espacial gastava 50 bilhões de dólares por ano. É muito difícil acreditar que a NASA possa montar estações espaciais em órbita da Lua e enviar astronautas para a superfície lunar nesse estado de penúria econômica.
Atualmente o desenvolvimento do foguete gigante SLS e do telescópio espacial James Webb andam a passo de tartaruga. O SLS deveria ter começado a voar este ano. Agora o primeiro teste foi adiado para 2020. Os astrônomos vêm se esforçando para manter o telescópio espacial Hubble em funcionamento, porque seu substituto, o James Webb também foi adiado para 2020. No mês passado o velho Hubble sofreu uma pane em seus giroscópios e quase virou um pedaço de lixo espacial.
Agora coloquem nesse cenário uma força militar espacial, que vai precisar de dinheiro e engenheiros para construir naves militares e foguetes. Naves, como o caça espacial X-20 Dyna-Soar que foi proposto na década de 1960 e cancelado em 1966. Pode ocorrer uma sangria de dinheiro e de recursos que deixaria a agência espacial civil, NASA, impossibilitada de desenvolver seus programas científicos de exploração dos planetas e do Universo. É claro que o futuro das viagens espaciais não depende mais só do governo americano. Um número cada vez maior de empresas comerciais, como a Space X, começa a investir no turismo e na exploração das riquezas espaciais.
Um dos argumentos é de que essa nascente indústria espacial e lunar precisa de uma força militar para protegê-la. Os chineses já testaram um míssil antissatélite que poderia derrubar os satélites americanos em órbita baixa. E os russos têm desenvolvido novos satélites com capacidade de abordar, capturar e talvez destruir naves de outros países. Os defensores da força espacial militar falam até na necessidade de proteger as naves comerciais da pirataria! No início os piratas espaciais seriam hackers, fazendo ataques cibernéticos contra os satélites e naves espaciais. Mas no futuro eles poderiam chegar fisicamente ao espaço. Como nas antigas histórias de ficção científica do século passado.
O problema é que a militarização do espaço tem sido feita, até agora, de modo reduzido e experimental. E as armas espaciais chinesas e russas tem sido uma resposta aos progressos americanos. Mesmo sem força espacial regulamentada os americanos operam atualmente uma nave robô, a X-37, que tem executado missões secretas de meses de duração na órbita da Terra.
Além dos riscos para a sobrevivência da Nasa, o projeto do governo Trump pode provocar uma corrida armamentista no espaço com resultados imprevisíveis. Uma corrida que quase começou há sessenta anos e foi evitada pela sabedoria de lideres como o presidente John Kennedy. Que cancelou projetos de armas espaciais e assinou acordos de desmilitarização do espaço.
O problema é que Donald Trump não é Kennedy.

Futuro: Estação lunar está prevista para 2024.


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Um comentário

  1. Avatar

    “Tendo a Lua, aquela gravidade aonde o homem flutua…merecia a visita não de militares, mas de bailarinos, e de você e eu…e de você e eu” (Herbert Vianna – Paralamas do Sucesso).

    Excelente matéria Jorge Calife, como sempre, muito informativa e embasada em dados confiáveis!

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