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A indústria do carro e as mortes no trânsito do Brasil

Matéria publicada em 28 de agosto de 2015, 07:10 horas

 


Comerciais de TV estimulam a direção perigosa e mortal; todo ano mais de 45 mil pessoas morrem nas estradas e ruas do país

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Durante a semana: Jovem morreu em Volta Redonda quando o carro em que estava com o namorado colidiu de frente com outro veículo (Foto: Arquivo)

Durante a semana: Jovem morreu em Volta Redonda quando o carro em que estava com o namorado colidiu de frente com outro veículo (Foto: Arquivo)

Esta semana as manchetes aqui do DIÁRIO DO VALE noticiaram a morte de vários jovens no trânsito. Teve uma moça que morreu na Beira Rio quando o carro dirigido pelo namorado colidiu de frente com outro veículo. Ela foi levada para o hospital ainda com vida, mas não resistiu aos ferimentos. Na quarta-feira três pessoas morreram em outra colisão frontal na RJ-145. Todo o ano mais de 45 mil pessoas morrem nas estradas e ruas deste nosso país. É quase como se estivéssemos em guerra.
Enquanto isso uma montadora trouxe ao Brasil o ator Gerard Butler, do filme “300” para gravar um comercial de carro em São Paulo. No anúncio, veiculado em horário nobre, Butler aciona o motor do novo carro e sai “cantando pneu” e fazendo curvas em alta velocidade, dentro de um hangar. Falando em inglês, com legendas embaixo, ele elogia a potência do novo veículo. Pessoalmente acredito que comerciais assim deveriam vir com advertências como nos antigos comerciais de cigarros. Afinal, carros matam tanto quanto o tabagismo.
Os jovens são pessoas facilmente impressionáveis. Eles assistem a um comercial desses, ou a um filme da série “Velozes e Furiosos” e querem reproduzir tudo aquilo na vida real. Colocam a namorada no banco do carona e disparam por nossas ruas de mão dupla e por estradas mal conservadas a 200 por hora. E viram manchete de jornal. Na internet tem até um vídeo de uma menina que capotou em um carro com o namorado e ainda postou a foto, toda machucada, em uma dessas redes sociais.
Eu sei que as nossas montadoras empregam um monte de gente e são importantes para a economia. Mas deviam ser um pouco mais responsáveis na hora de anunciar seus produtos. Carro é meio de transporte, não é veículo para autoafirmação e exibicionismo. Enquanto a indústria estimular a direção irresponsável e perigosa, com astros de cinema pilotando máquinas potentes em comerciais, a sociedade vai continuar a enterrar milhares de jovens todo o ano. Como aquela mocinha que morreu em Volta Redonda no domingo passado.

Irresponsabilidade

O brasileiro já é notoriamente irresponsável ao volante. É só ficar diante de uma faixa de pedestres, em uma rua movimentada e contar o número de pessoas que passam falando ao celular enquanto dirigem. É proibido, mas ninguém liga. As pessoas entram em um carro e não se tocam que estão no comando de um veículo de várias toneladas de peso, que pode matar se colidir com alguém ou alguma coisa.
Saem por aí em disparada, morrendo e matando. Lá fora, no primeiro mundo, não faltam advertências. Na Inglaterra foram produzidos comerciais alertando para o risco da direção desatenta. O filme catástrofe “Terremoto – A falha de San Andreas”, do Dwayne Johnson, também tem uma abertura dedicada ao risco da direção perigosa. Uma jovem dirige o carro por uma estrada de montanha, perto de Los Angeles, e fica olhando para o celular e pegando coisas no banco de trás. Acaba capotando montanha abaixo e sendo resgatada pelo herói. Infelizmente na vida real não dá para contar com o Dwayne Johnson.
A civilização do automóvel surgiu no início do século XX, quando Henry Ford criou a linha de montagem e passou a produzir carros em massa. Logo o automóvel mudava o mundo, dando origem à indústria do petróleo e exigindo a construção de toda uma malha de autoestradas e rodovias. A humanidade ainda não percebeu que é um meio de transporte antiquado, perigoso, ineficiente e poluidor. Gasta uma quantidade enorme de energia para ser construído e usado e, geralmente, só transporta uma ou duas pessoas.
Meios de transporte mais seguros e mais eficientes já estão sendo desenvolvidos. Infelizmente, vai levar algum tempo para mudar tudo isso. Principalmente em países como o Brasil, dependentes dos combustíveis fósseis e com um sistema de transporte deficiente. Até lá teremos que conviver com os 45 mil mortos anuais. E com os comerciais de TV que estimulam a matança.


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(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

15 comentários

  1. Qual o sentido de produzir carros capazes de circular a 200 km/h? Essa velocidade é proibida em nosso país. A PRF precisa fazer um enorme esforço de fiscalização para inibir excessos de velocidade por parte dos motoristas.
    Acho que já passou da hora de se pensar numa forma de responsabilizar as montadoras. Se nossas vias permitem no máximo 130 km/h, por que produzir para infringir? Não são apenas os anúncios, os próprios veículos já são em si abusivos.

  2. Infelizmente estão matando os nossos jovens.

    Eu sempre taxo eles aqui, tentando alertar o nosso povo brasileiro americanizado e doutrinados a zumbis ou a amebas que estão sendo enganados.

    Os americanos sabem que o nosso POVINHO adora eles, por isso trazem um americano para mostrar a potência do carro na propaganda.

    A propaganda não traria sucesso se, por exemplo, o ator fosse um brasileiro das pistas, né?! Ah, e tem de ser legendado para convencer o POVINHO, tbm. kkkkkkkkkkkkk

  3. Otimo texto! Uma vez habilitados deveriamos continuar com prudência e responsabilidade na mesma proporção da experiência, sei que a tentação ao volante é grande, pois também sou motorista. Quer correr e arriscar a própria vida? Vá para o kartódromo e evolua até a F1, vamos orar e torcer por você!

  4. Carro não anda sozinho. A culpa é de quem está atrás do volante.

  5. O brasileiro é o pior motorista do mundo. Semana passada observei dois veículos rodando com um dos retrovisores fechados. Não precisa falar mais nada, né!?

  6. Me desculpa, mas associar a irresponsabilidade das pessoas com meros comerciais é um pouco sem sentido pra mim.

    A culpa não é de um comercial, todo mundo sabe muito bem diferenciar o certo do errado, esses acidentes ocorrer devido ao abuso causado, exclusivamente, pela falta de responsabilidade das pessoas e não porque viram em um comercial ou filme um ator fazendo isso ou aquilo.

  7. Não é atoa que o cabaço anda de ônibus, e ainda sem contar os longos períodos de espera, seja no calor (Deus me livre), frio, chovendo vtnc. O que mata não é o carro que tem 1000 cavalos ou o que tem 71, e sim o energumino que não mede as consequências, na maioria das vezes influenciadas por outros energuminos.

    • Tenho pena de você que deve ter sofrido na escola com interpretação de texto. Carro mata e polui sim. Volta Redonda tem mais de 110 mil veículos muito mais que a malha viária comporta. Junta o estresse mais a irresponsabilidade e temos a combinação perfeita para as mortes. Enquanto Nova York reduziu o limite em área urbana para 40 km/h pensando na segurança do pedestre aqui em VR o cidadāo anda a 80 km/h com um carro 1.0. A falta de educacação e o espírito individualista do brasileiro impede que o país evolua. Parabéns Calife pelo texto e pela reflexão

    • Filipe, imagino você, comentarista de jornal, escrevendo “energumino” para classificar o Calife, que já escreveu para diversas revistas e jornais do Brasil, fora outras atividades no campo da ciência. Só para começar, ele foi devidamente alfabetizado e sabe escrever, você não.

      O fato da pessoa preferir não dirigir, não o desclassifica em nada.

      Vejo muitos motoristas por aí que não possuem capacidade intelectual nem para acionar aquela alavanca que fica do lado esquerdo do volante…

  8. Boa parte dessas 45 mil mortes é por culpa de nossa malha viária obsoleta e perigosa e culpa de nossa frota de carros obsoletos e frágeis. O governo poderia retirar parte dos altos tributos para incentivar uma renovação de frota e privatizar todas as rodovias e exigir no contrato modernização, garanto que vai morrer bem menos gente. O carro é um transporte eficiente, porta a porta, anda com no mínimo 20% de ocupação, mas a média deve ser maior, não faz percurso desnecessário, é confortável e ideal para fazer compras. O Transporte coletivo, necessita de motorista, mesmo vazio parte para cumprir horário, faz voltas desnecessárias, volta vazio para a garagem e péssimo para fazer compras. Ou seja, enquanto o carro tem taxa mínima de 20% faz o percurso mais curto e vai de porta a porta, o ônibus não faz o trajeto completo, faz voltas, e também tem taxa de ocupação baixa. Passe a observar.

    • 20%. Um mané dentro do carro. Que eficiente hein? Padrao brasileiro. Talvez estejamos certos e o primeiro mundo que tem transporte coletivo de qualidade esteja errado.

    • Leandro, o tio Sam prefere o automóveis, e ele é o maior estrategista do mundo. Será que ele está errado? Sobre a taxa de ocupação, observe a quantidade de ônibus que circulam com menos de 20%. Detalhe, 20% é o mínimo do carro, do ônibus é 0%, pois nesse caso o motorista não é passageiro.

  9. Ótimo texto, de grande conscientização. Mas infelizmente neste país a única consciência que existe é quando se mexe no bolso, e ai são multas atrás de multas…

  10. Brilhante e relevante texto. Parabéns!

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