segunda-feira, 13 de julho de 2020

TEMPO REAL

 

Capa / Ciência – Por Jorge Calife / A Juno e a grande mancha vermelha de Júpiter

A Juno e a grande mancha vermelha de Júpiter

Matéria publicada em 20 de julho de 2017, 08:10 horas

 


wp-cabeca-ciencia

Segunda-feira passada a sonda espacial Juno sobrevoou a grande mancha vermelha do planeta Júpiter, fotografando em detalhes este estranho fenômeno. A mancha é um imenso furacão com 16.350 quilômetros de diâmetro. Ela é 1,3 vezes maior do que o nosso planeta Terra, que seria engolido inteiro por este redemoinho, caso fosse atraído pela gravidade de Júpiter. Sorte a nossa que Júpiter fica a meio bilhão de quilômetros de distância. Além de ser grande em tamanho, essa tempestade joviana não acaba nunca. Ela tem sido observada pelos astrônomos desde o século XVII e acredita-se que tenha surgido há mais de 350 anos.

As fotos foram feitas quando a Juno passou pelo perijove, o ponto de sua órbita mais próximo do centro de Júpiter. Mesmo assim a nave estava a uma distância segura de 3.500 quilômetros acima das nuvens de Júpiter. Com sua velocidade a sonda percorreu uma distância de 39 mil quilômetros sobrevoando a tempestade a uma altura de nove mil quilômetros, o que é pouco para um planeta como Júpiter, que tem 71.400 quilômetros de largura no equador, equivalente a 11,2 vezes o diâmetro da Terra.

As imagens da Juno ainda vão ser processadas nos computadores da Nasa para destacar os detalhes. A imagem ao lado é uma foto crua, ainda não processada, mas já mostra uma grande quantidade de detalhes que nunca tinham sido vistos pelos astrônomos. O estudo deste super furacão vai ajudar os cientistas a entenderem os furacões menores, do planeta Terra, que estão se tornando mais violentos com a mudança climática global. Alguns teóricos temem que o aquecimento do planeta possa criar um furacão gigante aqui na Terra, mas essa hipótese é bem improvável. As condições em Júpiter são bem diferentes.

Júpiter pertence a uma categoria de mundos que os astrônomos chamam de gigantes gasosos e que inclui também Saturno, Urano e Netuno. Esses mundos não têm uma superfície sólida definida. Os gases que formam o planeta vão se tornando cada vez mais densos em direção ao centro, passando do estado gasoso para o líquido e depois para o sólido. A pressão e o calor são intensos e qualquer nave que tentasse descer nesses mundos seria esmagada pela pressão e derretida pelo calor.

Júpiter é tão estranho que os astrônomos custaram a entender sua natureza. Até o início da década de 1960 ainda se acreditava que Júpiter tivesse uma superfície sólida abaixo das nuvens. No livro “Os planetas”, que o famoso astrônomo Carl Sagan escreveu em 1965, ele teoriza que a mancha poderia estar “ancorada” em algum acidente geográfico jupiteriano. Essa visão mudou completamente depois das missões das sondas espaciais Pioneer e Voyager, na década seguinte.

No filme “2001: Uma odisseia no espaço”, de 1968, a agência espacial americana envia uma enorme nave, chamada Discovery, com cinco astronautas, para explorar os mistérios de Júpiter. A missão da Discovery foi inspirada pelo projeto Empire, da Nasa, que previa a exploração de planetas distantes com naves tripuladas. Mas o progresso da eletrônica tornou esses projetos obsoletos. As naves robôs podem fotografar e explorar os segredos do espaço a um custo muito inferior ao de uma missão tripulada.

Além disso, Júpiter é cercado por cinturões de radiação mortais para astronautas curiosos. Uma nave tripulada teria que se manter a uma distância segura, perto das luas externas do planeta, e enviar robôs para observar mais de perto. O que é exatamente o que a Juno está fazendo. Ela partiu da Terra no dia 5 de agosto de 2011 e chegou a Júpiter em julho de 2016, depois de uma viagem de cinco anos pelo sistema solar. Para o diretor de exploração planetária da Nasa, Jim Geen, as imagens da mancha são um “exemplo perfeito da fusão da arte com a ciência.

Perto: O furacão vermelho visto da Juno

Perto: O furacão vermelho visto da Juno

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

Um comentário

  1. Avatar

    Os planetas gigantes são os mais interessantes do Sistema Solar, principalmente suas luas. Torço muito para que o sucesso da Juno anime a Nasa a tirar do papel o projeto da sonda de exploração a Europa. Um livro muito interessante que se passa em Júpiter e explora a possibilidade de vida na atmosfera do gigante vermelho é o “Encontro com Medusa”, dos autores Alastair Reynolds e Stephen Baxter, lançado recentemente no Brasil e que é baseado em um conto do Arthur C. Clarke de mesmo nome.

Untitled Document