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A lambreta do Heinemann e o acidente em Saquarema

Matéria publicada em 2 de agosto de 2016, 07:30 horas

 


Marinha busca piloto perdido a 100 quilômetros da costa; Enterprise foi lançado ao mar em 1960

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Semana passada a Marinha do Brasil perdeu um de seus jatos Skyhawk em frente ao litoral de Saquarema. O avião fazia um treinamento de ataque a alvos de superfície com outra aeronave e a fragata Liberal. Os dois aviões colidiram, um conseguiu retornar a base de São Pedro da Aldeia, outro caiu no mar. O piloto teria acionado o assento ejetável, mas ainda não tinha sido encontrado no momento em que esta crônica estava sendo escrita. Os Skyhawks brasileiros foram comprados do Kuwaiti em 1997 para equipar o porta-aviões São Paulo, comprado da França. O modelo é antigo e foi criado no início da década de 1950 pelo famoso projetista americano Ed Heinemann.

Na época a Marinha dos Estados Unidos queria um avião a jato de bombardeiro para substituir os velhos Douglas Skyraider a hélice. Heinemann, que era um gênio da engenharia aeronáutica, procurou criar o menor e mais leve avião que a tecnologia da época pudesse produzir. O resultado foi o Douglas A-4 Skyhawk que pesava só onze toneladas (a metade do que a US Navy tinha especificado), voava a 1080 quilômetros horários e tinha uma asa delta tão pequena que não precisava ser dobrada para ser guardado dentro dos porta-aviões.

Monomotor, e com um único piloto, o Skyhawk pode carregar uma carga de bombas equivalente a de uma Fortaleza Voadora da Segunda Guerra Mundial (que tinha quatro motores e precisava de 12 tripulantes para voar). Usando uma nova técnica de lançamento a baixa altura, o Skyhawk podia atacar um alvo com uma bomba nuclear B-61 ou B-43.

Em dezembro de 1965 um Skyhawk americano armado com uma dessas bombas atômicas caiu do porta-aviões Ticonderoga no Mar do Japão e sumiu. Até hoje não acharam o avião nem a bomba. O mar no local tem uma profundidade de 4.900 metros e na época não existiam equipamentos para resgates a essa profundidade. O Skyhawk brasileiro deve ser bem mais fácil de encontrar porque o acidente ocorreu perto da costa e nossos aviões não levam armas atômicas.

Em ação

Atualmente só o Brasil, a Argentina e Cingapura ainda usam esse tipo de aeronave. A Argentina usou seus Skyhawks para afundar um contratorpedeiro e duas fragatas inglesas durante a Guerra das Malvinas em 1982. Devido ao pequeno tamanho, os pilotos americanos, que usaram o Skyhawk na Guerra do Vietnã, apelidaram o jato de “A lambreta do Heinemann”. A lambreta era uma motoneta de fabricação italiana que fez muito sucesso nos anos de 1950. Quando o Skyhawk era um dos aviões mais modernos do mundo e equipava o orgulho da esquadra americana: O porta aviões nuclear USS Enterprise.

O Enterprise foi lançado ao mar em 1960 e atuou no Vietnã armado com esquadrões de Skyhawks, e caças Cruzader e Phantom. Foi desativado e virou sucata no ano passado. Por pura nostalgia alguns grupos de entusiastas da aviação americanos, como a Draken International, ainda mantêm alguns velhos Skyhawks voando.

Os modelos brasileiros são do tipo A-4KU, da última versão a ser construída. Não devem ser tão velhos quanto o USS Enterprise e o acidente em Saquarema deve ter resultado de algum erro do piloto. Colisões durante voos em formação acontecem com os melhores pilotos. No caso do Brasil, que não tem condições de equipar sua marinha com aviões mais modernos, o Skyhawk é uma opção para manter os aviadores voando.

E falando em aviões antigos, um leitor me lembra que o Museu da Aeronáutica fica na Base Aérea dos Afonsos, no bairro Sulacap, no Rio, e não na base de Santa Cruz como escrevi na última crônica. É lá que se encontra o PP-VJM, o último Electra da Varig.

 

 Veterano: A ‘lambreta’ na Guerra do Vietnã


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JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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