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A loucura e os loucos

Matéria publicada em 4 de outubro de 2019, 07:00 horas

 


Raul Seixas, que morreu em 1989, aos 44 anos, cantou inúmeras músicas que se eternizaram ao longo de sua carreira. E uma, em especial, é incessantemente tocada até hoje: “Maluco Beleza”, a obra mais executada do repertório do cantor. De autoria de Claudio Roberto e do próprio Raul Seixas, foi lançada em 1977 no álbum “O dia em que a Terra parou”, e tornou-se um clássico do rock nacional. A letra – que ilustra com diversão e graça o que é ser maluco – não traduz a verdadeira realidade de ser um maluco, ou seja, a pessoa que é portadora de esquizofrenia ou transtorno persistente delirante.
Na verdade, em psiquiatria, igualmente em psicologia, o correto é dizer que se trata de transtornos, perturbações, disfunções ou distúrbios psíquicos, e não necessariamente que é uma doença. Isso se deve porque poucos são os quadros clínicos mentais que apresentam todas as características de uma doença no sentido literal do termo.
No Brasil, em março de 2009, a Câmara Federal, em caráter conclusivo, aprovou o Projeto de Lei nº 6.013/01, do deputado Jutahy Junior, e conceituou os termos “Transtorno Mental”, padronizando, assim, a denominação de enfermidade psíquica e assegurando aos portadores desta patologia o direito a um diagnóstico conclusivo, conforme classificação internacional.
Alguns conceitos sobre loucura defendem que o sujeito não está doente da mente, e afirmam simplesmente tratar-se de uma forma de a pessoa ser julgada pela sociedade. Casos como de Suzane Von Richthofen, que comandou o assassinato dos pais ao lado do namorado, ou ainda os assassinos da pequena Isabella Nardoni, vítima do pai, Alexandre Nardoni, e da madrasta, Ana Carolina Jatobá, entre muitos outros casos que se tornaram famosos. Um dos principais, o caso de João Acácio – mais conhecido como o Bandido da Luz Vermelha, assassinado em janeiro de 1998, depois de cumprir 30 anos de prisão -, mostrou que ele ainda não estava recuperado e por isso voltou a cometer o crime. Como seriam classificados esses personagens diante dos crimes que cometeram?
Indiscutivelmente, foi Nise da Silveira, psiquiatra alagoana (1905-1999), quem enxergou a imensa riqueza de seres humanos que estavam vivendo entre a loucura e a exclusão. Com seu enorme conhecimento, raro para a época, ela se rebelou contra a psiquiatria que aplicava choques elétricos, buscando, desse modo, ajustar a mente dos pacientes. Nise da Silveira propôs destinar a essas pessoas um tratamento humanizado, usando a arte como pano de fundo para que, através dela, fosse dignamente possível reabilitar inúmeros esquizofrênicos marginalizados e esquecidos.
A partir daí, muito deles “despertaram para a vida” e puderam dar asas a sua imaginação. São eles autores de obras hoje expostas no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Foi através da arte que homens e mulheres, até então execrados, renasceram das cinzas e, de alguma forma passaram a ter o seu espaço dentro da sociedade.
Nise da Silveira era uma ferrenha defensora da “loucura necessária para viver”. Ela dizia que não se cura além da conta, porque todo mundo tem um pouco de loucura. Portanto, a história dessa grande mulher (de pequena estatura), nos faz encontrar um pouco de nós mesmos, principalmente nos momentos em que não parecemos caber em nossa própria existência – e promovemos atitudes “diferentes”, “enlouquecendo”, assim, nossos pares.
Outro nome marcante dentro do universo da loucura é o incensado Arthur Bispo do Rosário (não confundi-lo com Adélio Bispo de Oliveira, pois são “loucos” diferentes, com desejos totalmente opostos). O ex-marinheiro viveu por mais de 50 anos como interno da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Durante seu período de internação, realizou trabalhos artísticos considerados por muitos como de vanguarda, mesmo sem jamais saber o que era essa palavra. Incrivelmente a Dra. Nise da Silveira e Arthur Bispo não chegaram a se conhecer: o artista deixou o Hospital Pedro II pouco antes de a terapeuta iniciar suas atividades no instituto.
A loucura no Brasil torna-se mais visível a partir de 1830, com a recém-criada Sociedade de Medicina e Cirurgia, que lança as palavras de ordem: “Aos loucos o hospício”. O hospício foi considerado, naquela época, o principal instrumento terapêutico da psiquiatria. Ele aparece como exigência imprescindível de uma crítica higiênica e disciplinar às instituições de enclausuramento – e ao perigo de uma população que começa a ser percebida como desviante.
É fato que a história é muito maior e mais grave do que qualquer crônica que insista em falar em poucas linhas sobre o que é a loucura no Brasil, seja no passado ou mesmo agora, no presente. Os nossos hospitais, vivem entulhados de pacientes de toda ordem, não conseguem dar conta dos sãos, muito menos dos loucos, e ainda acabam por produzir muitos outros no caótico universo em que vivemos. Infelizmente.

 

Julgamento: Alguns conceitos sobre loucura defendem que o sujeito não está doente da mente (Foto: Divulgação)


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