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A lua crescente, em um domingo de inverno

Matéria publicada em 28 de julho de 2015, 07:00 horas

 


Estádios da Copa custaram mais que missão a Plutão, nave que mapeou planeta custou 700 milhões de dólares, só o estádio Mané Garrincha em Brasília custou mais de 800 milhões

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Linda: O crescente e o Mar das Crises, em foto do observatório de La Silla  (Foto:Divulgação)

Linda: O crescente e o Mar das Crises, em foto do observatório de La Silla
(Foto:Divulgação)

A lua crescente estava linda no céu, na semana passada. Parecia o sorriso luminoso do gato Cheshire, aquele que importunava a Alice no País das Maravilhas. O crescente lunar chamou a atenção de uma equipe de TV que cobria um jogo de futebol. E a transmissão terminou com uma bela imagem do nosso satélite natural. Ampliado pela teleobjetiva da televisão dava para ver nitidamente a enorme planície circular do Mar das Crises. Que também pode ser vista a olho nu, como um ponto escuro na borda do hemisfério lunar.
Para os jornalistas científicos a novidade na ocasião era outra lua, Caronte de Plutão, que têm geleiras e é bem mais exótica do que a nossa. Um site da internet comparou o custo da missão New Horizons com o dos estádios fabulosos, construídos para a Copa do Mundo de 2014. Aquela que terminou no 7 a 1. A nave que mapeou Plutão custou 700 milhões de dólares. Só o estádio Mané Garrincha, em Brasília custou mais de 800 milhões de dólares.
Calma pessoal, eu não estou sugerindo que o Brasil deveria ter gasto o dinheiro da Copa em naves espaciais. Seria até perigoso. A última vez que os brasileiros tentaram lançar um foguete espacial o resultado foi uma explosão que matou 28 pessoas lá em Alcântara, no Maranhão. Mas há outras coisas prioritárias em nosso país além do futebol. Com a New Horizons os americanos ampliaram os horizontes da humanidade. Com os estádios da Copa enriquecemos empreiteiros e aquela turma da FIFA que está atualmente na cadeia, lá na Suíça.
Mas voltemos às belezas do céu. Aquela lua crescente, brilhando sobre um estádio de futebol me lembrou de uma tarde de domingo, em julho de 1969, quando os locutores interromperam a transmissão de uma partida do Fluminense para anunciar que uma nave chamada Apollo 11 tinha acabado de pousar com três sujeitos, na superfície de uma lua minguante. E todo mundo olhou para a lua pálida no céu de inverno, em uma saudação muda ao comandante Armstrong e seus companheiros.
Hoje em dia olhar o céu, e admirar as belezas da lua, ficou mais fácil com a tecnologia do século XXI. Meu vizinho veio me mostrar outro dia o programa Sky Map da Google, que ele baixou em seu smartphone. Você aponta o celular para o céu e ele mostra todas as constelações e planetas visíveis naquela direção. Além do Sky Map tem o Sky Safari, mas todos eles exigem que o usuário tenha um smartphone com o programa androide. Como sou de uma turma mais antiga prefiro uma carta celeste comum, de papel. Não precisa recarregar e dá para levar pra qualquer lugar, como o celular.
O que não quer dizer que a minha geração não tivesse seus truques. Nos anos de 1970, quando ainda estava na faculdade, arranjei um tempo para frequentar o curso de Introdução a Astronomia do Planetário do Rio de Janeiro. Naquela época o planetário tinha um projetor Zeiss, feito na Alemanha, bem simples (O atual é mais sofisticado), mas cumpria o seu papel. Recostávamos nas poltronas enquanto o professor, o falecido astrônomo Luis Eduardo Machado, projetava na cúpula a visão do céu que teríamos naquela noite. Aprendíamos a reconhecer o contorno do Escorpião, da Virgem ou do Sagitário.
Depois íamos para o terraço ver as estrelas reais, no céu da Gávea. Apesar da poluição luminosa o céu do Rio de Janeiro era muito bonito naquela época. Os planetas e as estrelas só enfrentavam a concorrência das luzes no vizinho Jóquei Clube. Mas nossas aulas nunca coincidiam com os dias de corrida.
Em Pinheiral o céu era fantástico. Com a Via Láctea e as nuvens da Magalhães brilhando no horizonte. Hoje em dia só dá para ver os planetas e estrelas mais brilhantes. Mas resta a lua. Que dá um show sempre renovado a cada mês. E não é preciso ter cartas celestes nem programas de computador para encontra-la.

Jorge Luiz Calife | jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

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    Desculpe, mas, embora caríssimo, o Mané Garrinhca custou R$ 800 milhões (REAIS)… ai dólar de hoje quase 1/4 da espaçonave.

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