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A manifestação e o presidente

Matéria publicada em 26 de maio de 2019, 11:00 horas

 


Bolsonaro pede apoio e algumas parcelas do eleitorado veem nisso um chamado para a guerra contra o Legislativo e o Supremo

Manifestação deste domingo pode virar arma contra Bolsonaro, se ruas não ficarem cheias – Foto: Arquivo/Julio Amaral

Quando o texto desta coluna estiver chegando ao leitor, numa manhã de domingo, estarão ocorrendo dezenas, talvez centenas, de manifestações pelo Brasil. Os atos terão uma característica incomum: serão manifestações “a favor”, em vez de contra. E o alvo do apoio será o presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, que teria pedido a seus eleitores que demonstrassem, nas ruas, que o povo está ao lado dele.
Até aí, tudo normal: o Brasil é uma democracia e as pessoas têm direito de reunião e manifestação. Mas o primeiro problema é que alguns dos apoiadores de Bolsonaro estão vendo nessas manifestações um chamado à guerra contra instituições como o Congresso Nacional e o STF, o que é um convite para implantar uma ditadura no país.
Isso não é bom, mas felizmente é improvável. Dificilmente Bolsonaro tentaria algo assim, pois já disse mais de uma vez que respeita as instituições democráticas; além disso, seria necessário que os militares o apoiassem na aventura, o que não é provável. Basta lembrar 1964: a “Marcha com Deus pela Família” só viu seus ideais se realizarem quando os tanques também foram para as ruas. E os militares não parecem dispostos a intervir no momento.

Pela culatra

Mas o colunista se lembra de uma ocasião em que outro presidente fez pedido semelhante, em 1992: Fernando Collor, o primeiro a ser eleito diretamente desde Jânio Quadros, pediu que as pessoas vestissem verde-amarelo para mostrar que estavam do lado dele. O resultado foi que a maioria das pessoas foi à rua de preto, pra não deixarem dúvida de que estavam contra. Outra pessoa que se lembrou desse episódio foi o ministro do STF Marco Aurélio Mello, que falou sobre o assunto ao site Antagonista – que está longe de ser um veículo ligado à esquerda ou favorável ao PT. Detalhe: Marco Aurélio é primo de Collor.
Esse é o grande risco das manifestações. Assim como tiros, podem sair pela culatra. Se o número de pessoas nas ruas neste domingo for pequeno, os adversários do presidente verão isso como um sinal de que ele perdeu apoio popular. Eles vão reagir como tubarões sentindo o sangue na água.
E o arco de alianças que elegeu o atual presidente já mostra algumas rachaduras: figuras importantes da direita, como Kim Kataguiri, Janaína Paschoal e o filósofo Luiz Felipe Pondé já não demonstram apoio incondicional ao “capitão”.
E não poderia haver momento pior para demonstrar fraqueza: agora, o governo precisa convencer o Legislativo e a sociedade como um todo de que é melhor tomar o remédio amargo da reforma da previdência do que morrer da doença de desequilíbrio das contas públicas.

Presidente ‘figuraça’

Bolsonaro tem pontos em comum com alguns ex-presidentes de nossa história recente.
Assim como Jânio Quadros, ele se elegeu com um discurso de combate à corrupção e tomou algumas medidas polêmicas. Quadros proibiu o biquíni e Bolsonaro liberou as armas. Os dois foram muito pressionados pela oposição, que Jânio, ao renunciar, chamou de “forças ocultas”.
Com o general João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura militar, Bolsonaro tem em comum o jeito desbocado de falar. Figueiredo disse que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo, enquanto Bolsonaro disse que não estupraria uma então colega de Câmara dos Deputados porque ela “não merecia”. Além disso, ambos foram militares, embora a diferença de patente seja gritante.
Com Fernando Collor, a semelhança está no perfil “super-herói” e no gosto por esportes. Além disso, há a grande confiança no fato de ter sido eleito por grande diferença de votos. Isso fez com que Collor, assim como Bolsonaro, pedisse que o povo fosse às ruas, quando se sentiu pressionado.

Em resumo

1) É preciso que os manifestantes deste domingo entendam que apoiar Bolsonaro está muito distante de ser a favor de uma guerra contra os outros poderes da União, que são independentes e harmônicos, como determina a Constituição.
2) A aliança de forças políticas que elegeu Bolsonaro já apresenta rachaduras. Se não houver diálogo para recompor o grupo, a estabilidade do governo pode estar em perigo.
3) Se as manifestações não levarem multidões às ruas, os adversários políticos de Bolsonaro verão nisso um sinal de fraqueza e vão aumentar a intensidade dos ataques.


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2 comentários

  1. Avatar

    Pela dúvida do jornalista sobre o número de cidades que participaram da Manifestação à favor do governo foram manisfestadas em 156 cidades no Brasil, até mesmo em Volta Redonda!
    Foram manifestações pacíficas, as pessoas que participaram estão de parabéns! Os detentores do poder, muitos já estão indo para a imprensa dizendo que não foi relevante, que não vai mudar nada! Não me parece uma reação inteligente!
    É importante olhar o que aquelas pessoas, principalmente aqueles que não tem envolvimento partidário, o que elas estavam dizendo?! Elas estavam dizendo que não querem um sistema previdênciário que privilegiam os ricos, como nós temos hoje! Elas estavam dizendo que elas não querem mais leniência com a violência, que foi o que nós tivemos nos anos do PT! Elas estavam dizendo, que mesmo não sendo ilícito, elas não se conformam mais com o STF cobrando para almoço e jantar institucionais vinhos importados caríssimos, uísques de não sei de quantos anos, lagostas caríssimas, etc…! Elas estavam dizendo, que seja aprovado o pacote anticrime do Sérgio Moro, pois todos os grandes juristas brasileiros estão apoiando Sérgio Moro, inclusive o nosso carioca Marcelo Bretas!
    Ou seja, é muito importante que antes de desmerecer essa passeata, os detentores do poder entendam o que está acontencendo!

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