sexta-feira, 3 de dezembro de 2021 - 03:29 h

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / A poluição da baía e a São Gonçalo dos anos de 1950

A poluição da baía e a São Gonçalo dos anos de 1950

Matéria publicada em 8 de maio de 2015, 06:34 horas

 


wp-coluna-espaco-aberto-jorge-calife

Cenário: Do alto não dá pra ver a sujeira (Foto: Divulgação)

Cenário: Do alto não dá pra ver a sujeira (Foto: Divulgação)

Domingo passado dei uma zapeada na televisão e topei com uma cena insólita no Fantástico. Programa que adora mostrar cenas insólitas. O secretário estadual de Ambiente do Rio de Janeiro André Corrêa mergulhando de cabeça, nas águas poluídas da Baía de Guanabara. Para provar que o local é seguro para as competições de vela na Olimpíada do ano que vem. Não convenceu ninguém e a Federação Internacional de Vela já sugeriu que as provas sejam disputadas em outro local. Remadores e velejadores já toparam até com cadáveres nas águas da baía e o risco de contrair doenças como a hepatite é real. Afinal a Guanabara recebe 400 toneladas de esgoto doméstico por dia!

São Gonçalo no passado 

 A cena no Fantástico me levou de volta a um período distante da minha infância. Entre os quatro e os nove anos de idade eu morei em São Gonçalo, perto do que é, hoje, a área mais poluída da baía. Minha família morava em uma vila de casas no Porto da Madama (e não madame) diante da Rua Comandante Ari Parreiras. Hoje em dia São Gonçalo tem o apelido de “inferno fluminense”, mas naquela época, na década de 1950, era um lugar agradável para se viver.

A baía não era tão suja e a região era caracterizada pelos estaleiros e as indústrias de sardinha em lata. Meu irmão mais velho e minha irmã iam pescar no cais de uma dessas indústrias, a Sardinhas Maruí. Que ficava ali na altura do Barreto. E voltavam para casa com uma bolsa cheia de peixe. Bagres, tainhas e cocorocas que minha mãe fritava para alegria de todos. Eu tinha um cachorro branco, o Dick, e ia passear com ele na “praia da gasolina”. Que tinha esse nome devido a uns tanques enormes de armazenagem de combustível.

A praia da gasolina era um manguezal e o cachorro corria atrás dos caranguejos, que se escondiam nos buracos na lama. Toda aquela região do contorno da baía era tomada por mangues que eram importantes para a manutenção da fauna local. Eles cobriam uma área de 260 quilômetros quadrados, que, segundo a Wikipédia, está reduzida hoje a 82 quilômetros quadrados. Sem os mangues o assoreamento da baía aumenta o que vem reduzindo a sua profundidade.

Botos na Baía de Guanabara

As vezes, nos fins de semana, a família pegava a barca em Niterói e ia até a ilha de Paquetá. E os botos acompanhavam a embarcação. A Baía de Guanabara tinha botos naquele tempo. Hoje em dia é difícil encontrar qualquer tipo de vida por lá. A sujeira já era um problema quando o Rio de Janeiro sediou a Conferência Mundial do Meio Ambiente em 1992. Na época cobri a reunião para o Jornal do Brasil e o governo prometeu que ia despoluir a Guanabara. Para isso receberam 1 bilhão de dólares do governo do Japão e do Banco Interamericano para o desenvolvimento. E hoje, três décadas depois, a Guanabara continua mais suja do que nunca.

Degradação no país

Não foi só a baia que se deteriorou. Tudo no Brasil sofreu uma degradação nesses cinquenta e tantos anos. Quando morei em São Gonçalo tinha uma ferrovia, um trem de bitola estreita, que passava bem diante da vila em que morávamos. A composição ligava Niterói a cidade de Campos, no norte fluminense, passando por Macaé. O trem foi extinto e existe atualmente um projeto para usar o antigo traçado em uma futura linha de VLT, o Veículo Leve sobre Trilhos.

Olimpíadas

O fato é que nunca mais voltei em São Gonçalo. As vezes passo por lá de carro, a caminho da região dos lagos, pela rodovia Niterói-Manilha, mas nunca me atrevi a rever a rua onde passei alguns anos da minha infância. Ia me decepcionar na certa.

Quanto as Olimpíadas, a decisão da Federação Internacional de Vela é a mais sensata. O mundo inteiro assiste as Olimpíadas pela televisão e vai ser um vexame mostrar barcos a vela deslizando entre lixo e esgotos. O secretário de Ambiente foi esperto. Ele mergulhou no canal de entrada da baía, na hora da maré alta, quando a água limpa do oceano flui para dentro da Guanabara. Os velejadores vão partir da Marina da Glória, onde a água é puro esgoto.

Jorge Luiz Calife/ [email protected]


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)
Untitled Document