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Capa / Ciência – Por Jorge Calife / A ‘Progresso’ perdida e a desinformação do Jornal Nacional

A ‘Progresso’ perdida e a desinformação do Jornal Nacional

Matéria publicada em 7 de maio de 2015, 06:38 horas

 


Noticiário global mostra total desconhecimento sobre problemas espaciais

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Militar: Busca por satélites perdidos é tarefa da Norad (Foto: Divulgação)

Militar: Busca por satélites perdidos é tarefa da Norad (Foto: Divulgação)

Na semana passada a apresentadora do Jornal Nacional, Renata Vasconcellos, assustou os telespectadores com uma história fantástica sobre um foguete perdido. Segundo a apresentadora “astrônomos do mundo inteiro estavam de olho em seus telescópios, procurando por um foguete russo descontrolado”. O que mostra que o Jornal Nacional anda precisando urgente de um redator de ciências. Astrônomos não olham em telescópios nem procuram por foguetes descontrolados.

Aquela imagem popular, do astrônomo com o olho na ocular de um telescópio, só era verdadeira nos séculos dezoito e dezenove. Hoje em dia as imagens ampliadas pelos telescópios astronômicos são processadas por dispositivos eletrônicos, os CCD (Charged Couple Devices), muito mais sensíveis que o olho humano. E o resultado é mostrado em telas de computador. Além disso, telescópios astronômicos não servem para procurar por espaçonaves perdidas ou descontroladas. Eles são muito lentos para isso. As naves são rastreadas por radar e câmeras especiais. E o trabalho é feito pelas Forças Aéreas dos Estados Unidos e União Soviética, não pelos observatórios de astronomia.

 Cápsula espacial ‘Progresso’

Mas vejamos o tal foguete russo, que assustou o William Bonner e a Renata Vasconcellos. Trata-se, na verdade, de uma cápsula espacial “Progresso”, lançada por um foguete Soyuz. Ela levava carga para a Estação Espacial Internacional, mas se descontrolou depois de se separar do segundo estágio do foguete. Os russos não sabem muito bem o que aconteceu, mas as câmeras de TV da nave mostram que ela está rodopiando descontrolada no espaço. As Progressos são naves descartáveis. Depois de entregar sua carga na ISS elas se queimam ao reentrar na atmosfera da Terra.

Geralmente essa reentrada é feita sobre o oceano, para minimizar a chance de que um pedaço da nave chegue ao chão. Isso não poderá ser feito no caso da Progresso descontrolada. Mas como ela é pequena, com dois metros de largura por sete de comprimento, deve se derreter na reentrada. É uma situação diferente da enfrentada pelo mundo quando a estação espacial americana Skylab caiu na Austrália em 1979. A Skylab era do tamanho de uma casa de dois andares e várias partes sobreviveram ao atrito com o ar. Caíram no deserto australiano e hoje estão em museus.

Os telescópios usados pelos astrônomos são feitos para acompanhar o lento deslocamento das estrelas no céu noturno. Satélites e foguetes em órbita se movem rápido demais para eles, atravessando o céu, de um horizonte a outro, em poucos minutos. Para rastreá-los é preciso usar um radar potente, como o sistema Cobra-Dane americano, ou uma câmera especial a Baker-Num, montada sobre um mecanismo de ação rápida, como o de um canhão antiaéreo. Os russos estão testando um engenho desse tipo no Centro de Laser Ótico de Altai em Savvuskha, na Rússia. O Centro é uma instalação militar criada na época da Guerra Fria para cegar os satélites espiões americanos com disparos de um potente raio laser. Recentemente a equipe russa usou os sistemas de rastreio do centro para fotografar um velho satélite espião americano, o Lacrosse.

 Norad

Nos Estados Unidos a observação de naves em órbita fica a cargo da Norad, o Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte e do Centro de Operações Espaciais Conjuntas.

A Norad fica em uma fortaleza subterrânea, embaixo da montanha Cheyenne no Colorado, onde os militares acompanham o movimento de objetos em órbita em grandes telões informatizados. As informações são enviadas pela Rede de Vigilância Espacial Norte-americana.

Quando a Progresso cair, no dia 7 de maio, são eles que poderão determinar o local da queda. Não os astrônomos, que não tem equipamento para isso. Nem cuidam desse tipo de coisa.

Jorge Luiz Calife/ jorge.calife@diariodovale.com.br


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3 comentários

  1. Avatar

    Está correto o ponto de vista da coluna. Não me venham dizer que o Jornal Nacional tentou “simplificar” para que os telespectadores entendam. Não vejo essa preocupação deles quando se trata de falar do “pregão” da bolsa, ou da alta de juros impulsionada pela alta no indíce IPC-A…

  2. Avatar

    Foi uma chamada com sentido figurado, possível de se compreender… “astrônomos do mundo inteiro estavam de olho em seus telescópios, procurando por um foguete russo descontrolado”. Pior foi a desinformação propagada pelo Jorge Calife que afirmou que a retirada da cobertura vegetal de Pinheiral afastou a umidade e fez parar de chover no município. Um local perfeito para testar sua teoria lunática é face leste da cordilheira onde mesmo nos campos a 800m de altitude impera clima árido. Será que se a gente plantar árvore lá vai começar a chover ?

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      Boa resposta. O texto dito pela apresentadora foi simplificado para que os telespectadores entendessem.

      Imagine ela falando

      “Imagens ampliadas pelos telescópios astronômicos são processadas por dispositivos eletrônicos, os CCD (Charged Couple Devices), moatram a nave Progresso que são naves descartáveis desgovernada. Depois de entregar sua carga na ISS elas se queimam ao reentrar na atmosfera da Terra.

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