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A revolução das flores

Matéria publicada em 30 de junho de 2015, 07:00 horas

 


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Era uma cidade cinza, e como quase todas as cidades cinzas, era uma cidade sem cores, sem flores, nem amores. E como todas as cidades cinzas sem flores nem amores, era uma cidade triste e feia.
Não havia árvores e o mato crescia feito erva daninha.
As quadras eram dominadas pelo abandono. O mato cobria a trave, impedindo o sonho do craque mirim de se realizar.
As praças eram escuras e sem flores. E como não tinham flores nem luz, também não tinham amantes e não inspiravam paixões.
Os muros eram todos pichados. Não de um jeito artístico, mas por aqueles que usam
o pincel como expressão de violência.
E como a praça era escura a luz do amor não dava as caras.
E como o mato crescia flor não nascia.
E como a trave estava encoberta pelo mato ninguém fazia gol.
E como não se fazia gol ninguém comemorava.
E como as paredes eram pichadas ninguém derrubava o muro da feiura.
E o cinza derrotou o amarelo. O piche derrotou a arte. O breu derrotou a luz. O mato derrotou a flor.
Até que um dia uma pessoa resolveu apagar a pichação do muro da sua casa, pintando uma flor amarela no lugar.
– Idiota, responderam todos. Utopia vã, tudo estará desfeito pela manhã.
E na manhã seguinte o piche preto cobriu o amarelo de sua flor.
E então ele foi lá e pintou uma flor amarela, agora com vívidas folhas verdes.
Gargalharam de sua sina inútil.
No alvorecer seguinte, novo acinte.
Foi lá e pintou de novo uma flor amarela com folhas verdes e agora também um céu azul.
No dia seguinte não houve pichação, e nem nos dias que se seguiram.
E então alguém na rua de cima resolveu pintar um girassol em outro muro.
Outro teve ideia melhor, e plantou margaridas na beira da calçada.
Outro foi e plantou begônias.
O pai do craque mirim tirou o mato e pintou as linhas da quadra.
Casais de amantes se uniram e plantaram flores na praça. Alguns namorados levaram velas para iluminar uma serenata. E a luz do luar lentamente foi derrotando o breu do abandono.
Pichadores resolveram usar as cores como expressão de arte.
E então a cidade explodiu numa profusão nunca antes vista de cores, flores e amores. E o cinza foi derrotado, não apenas pelo amarelo, mas pelo lilás, pelo azul, pelo bege, pelo branco e até mesmo pelo furta-cor.
E a luz venceu o medo.
E a música venceu a feiura.
E a flor venceu o silêncio.
É porque detrás daqueles muros pichados daquela cidade cinza havia uma cidade linda e cheia de flores coloridas, adormecida no peito de cada um.

Alexandre Correa Lima | alexandre.lima@diariodovale.com.br

 


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Um comentário

  1. Avatar
    O paulista mais carioca que já conheci.

    Parece um pouco com a história de nossa cidade Pré- Neto.
    O texto é uma aula de otimismo e um incentivo ao trabalho associativo comunitário.
    Parabéns ao autor!

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