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A saturação de um modelo de transporte

Matéria publicada em 6 de setembro de 2016, 17:54 horas

 


Fracasso do transporte público leva ao congestionamento das ruas; pessoas continuam tirando o carro da garagem

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A matéria foi capa do DIÁRIO DO VALE no domingo, dia 28. O crescimento do transporte individual complica a mobilidade urbana em Volta Redonda. De 2006 para cá o número de veículos de transporte individual passou de 73.968 carros e similares para 113.062 em 2016. E a pesquisa só conta os carros emplacados no município. Na prática o número de veículos engarrafando nossas ruas estreitas é ainda maior.

É o oposto do que mostram os comerciais das montadoras na televisão. Onde o sujeito entra em um carro supermoderno e desliza em alta velocidade por ruas sempre desertas. Na prática aquele carro potente vai andar a dez, quinze quilômetros horários em meio a vias cada vez mais engarrafadas. Onde um pequeno acidente ou um caminhão enguiçado pode parar o trânsito durante horas.

Mas as pessoas continuam tirando o carro da garagem. Porque não tem opção. Apesar de toda a falação sobre incentivo ao transporte público nada se faz. Em nossa região não existem alternativas. Ou você anda de carro ou anda de ônibus. Ônibus onde a passagem é cara e a superlotação é constante. No passado o ônibus cheio, entupido de pessoas em pé, era uma visão típica da chamada “hora do rush”. Acontecia as seis da manhã e as seis da tarde, coincidindo com o horário de entrada e saída no trabalho.

Agora não. Agora a superlotação dos coletivos é uma constante. Esta semana viajei duas vezes em ônibus lotados as duas horas da tarde. Quando a maioria dos usuários ainda devia estar no trabalho. Paga-se caro por uma viagem desconfortável, onde até idosos são obrigados a viajar em pé, agarrados naqueles ferros. Diante desse quadro quem tem carro não vai deixá-lo na garagem.

Afinal, é melhor suportar um engarrafamento sentado dentro de um carro, ouvindo música, com o ar refrigerado ligado. Do que suando, em pé, dentro de um ônibus. Esse quadro mostra a falência de um modelo de transporte coletivo, que não desenvolveu outras opções como o trem urbano. A saturação daquele sonho do carro individual, potente e confortável, que já virou pesadelo para muitos brasileiros.

Situação

A situação só não é pior devido a crise econômica. Meu pai costumava dizer que ter um carro é como ter que sustentar duas famílias. São despesas com impostos, manutenção, estacionamento (cada vez mais difícil em nossas cidades) que estão se tornando impossíveis de manter para uma classe média ameaçada pelo desemprego. Com a crise muita gente foi obrigada a deixar o carro na garagem e enfrentar o inferno do transporte coletivo.

Tudo isso tem um limite, claro. Em um futuro bem próximo os engarrafamentos vão se tornar contínuos. E os governos serão obrigados a impor um revezamento. Proibindo os donos de veículos de saírem nas ruas em determinados dias da semana.

Uma solução de curto prazo é o desenvolvimento de outros meios de transporte. Não, não me venham falar em bicicleta. A bicicleta não é uma opção em uma região como a nossa, onde a maioria das pessoas mora em uma cidade e trabalha em outra. Enfrentar estradas intermunicipais, saturadas de carretas e ônibus em uma frágil bicicleta é um convite ao suicídio.

Sem falar nas tempestades de verão, que acontecem sempre no final da tarde. Tente pedalar debaixo de um aguaceiro de verão e vocês vão entender do que estou falando.

É preciso encarar a realidade. Na nossa região a única opção, a curto prazo, é o retorno do trem urbano. Que prestou bons serviços no século passado e foi abandonado para beneficiar um modelo de transporte que já atingiu o limite. O investimento não é pesado, já existem trilhos e vias férreas. É só reinstalar a rede aérea e colocar os trens elétricos em circulação. Custa menos do que construir novas rodovias e pistas elevadas.

 

Engarrafados: Apesar de toda a falação sobre incentivo ao transporte público nada se faz (Foto: Arquivo)

Engarrafados: Apesar de toda a falação sobre incentivo ao transporte público nada se faz (Foto: Arquivo)

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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5 comentários

  1. Avatar

    Quem manda no transporte coletivo da região são os donos das empresas de ônibus, através do SINDPASS e da FETRANSPOR, que também comanda o restante do Estado do Rio. Então, qualquer modernização só se for por interesse desses patrões, pois só interessa o que for para preservar o lucro absurdo deles. Os políticos fluminenses e suas administrações públicas só obedecem. E em V. Redonda muitos, por conta do status, não podem ser vistos andando a pé nem até a esquina da própria rua onde moram. E olha que a Cidade do Aço já foi o paraíso dos operários se deslocando em bicicletas. Tempos que o pessoal morava no Conforto, Rústico, Sessenta, Jd. Paraíba, N.S. das Graças, agora bairros de aposentados, além do finado Acampamento Central. Agora, a turma da ativa está morando cada vez mais distante da Usina.

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    Considerar bicicleta um meio de transporte alternativo ao motorizado, isso é falácia que políticos e ativistas ambientais arrotam como a solução para as mazelas do trânsito em nossas cidades. É muito complicado se fazer isso num país onde chove muito, faz muito calor, o relevo é acidentado e as distâncias de deslocamento são relativamente grandes. Vc chega suado, fedendo, sujo ou cansado ao seu local de destino… Bicicletas têm inúmeras limitações, como a pouca ou inexistente capacidade de carga (nada de supermercado ou compras avulsas), e a principal delas: a dependência da tração humana, o que restringe seu uso para uma parcela significativa da população…

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    Curitiba é considerada referência no país em matéria de transporte coletivo, no entanto tem a maior média per capita de automóveis dentre todas as capitais brasileiras, tendo congestionamentos monstruosos em suas ruas e avenidas…

    O brasileiro quer carro particular, não adianta, é cultural. Ele não abre mão do conforto e do status. Pode colocar ônibus de graça rodando por aí que ainda vão continuar com seus carrinhos. Piraí tem passagem a 1 real, em Porto Real é de graça, contudo os carros estão lá nas garagens, sem qualquer sinal de poeira…

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    marcos josé duarte silva

    Belo texto, parabéns Calife

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    Em Barra Mansa a linha férrea atravessa toda a cidade, e poderia ser aproveitada para realizar o transporte público.
    Falta de visão da MRS que poderia diversificar sua atividade e aproveitar mão de obra da região.
    Linhas intermunicipais também são possíveis, dada a ligação entre as cidades.

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