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A saúde e a falência múltipla dos seus órgãos

Matéria publicada em 2 de junho de 2017, 08:00 horas

 


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Literalmente a saúde no Brasil está de pé quebrado. Achei melhor não chegarmos de pronto ao coma, preferi ir mapeando aos poucos o corpo doente dessa crônica, ministrando uma generosa dose de barbitúricos, evitando a ansiedade e a agitação de nós pacientes. O rapper Gabriel, o Pensador, tem uma música chamada “Sem Saúde” que ilustra muito bem o universo da saúde brasileira.
O SUS (Sistema Único de Saúde), que existe desde a Constituição de 1988, cujos princípios que o regem são Universalidade, Equidade e Integralidade, já deu provas que esse tripé está quebrado e muito mal engessado. Diante do descalabro que se encontra a política em nosso país, com os seus mandos e desmandos e a interminável dança das cadeiras no setor público, constatamos que a educação vai mal, a segurança vai mal, a habitação vai mal e, claro, a saúde nessa “competição” vai pior ainda. Enquanto isso cerca de 19 milhões de clientes estão espalhados por 349 cooperativas médicas distribuídas pelo país, empresas que lambem os beiços e se refastelam no doce e no queijo, já que o nosso sistema de saúde beira o surreal. Quem pode trate logo de fazer o seu plano de saúde.
Tem quem não acredite, mas o SUS, se realmente fosse colocado em prática da forma como foi concebido, certamente funcionaria com excelência, pois é sabido que ele é modelo, sendo copiado por vários países mundo afora, e suas regras quando são corretamente seguidas, da teoria à prática, é sinônimo de sucesso. Incrivelmente possuímos o maior banco de dados de sistemas de saúde do mundo e não temos uma saúde de qualidade. O que deveria ser um dos maiores e melhores sistemas de políticas públicas em saúde, servindo de exemplo para o mundo, é motivo de eterna lamúria e preconceito por parte de muitos. Uma pesquisa feita em 32 países mostra que o Brasil avançou em medidas que tornam o sistema mais transparente, mas isso não resulta em qualidade, o custo se anula com desperdícios e fraudes que chegam a bilhões de reais. A máfia avança ferozmente, o roubo vai dos remédios às próteses.

Buscando soluções

Na busca por soluções que possam ser colocadas em prática quase que imediatamente, os Fóruns de Saúde proliferam pelos quatro cantos do país. Um dos maiores deles aconteceu recentemente, o 4º Fórum Saúde do Brasil, em São Paulo. Muitos deles, mesmo a duras penas, consegue terminar com ideias e projetos a serem colocados em prática ou pelo menos um norte que possibilite dar velocidade e transparência ao trabalho, buscando, sobretudo, estancar a sangria do dinheiro público. Infelizmente muitos terminam exatamente como começaram, sem a atenção e o cuidado por parte dos responsáveis pela pasta da saúde, que simplesmente fazem vista grossa para estas ações. Encerra-se muitas vezes uma bem construída agenda de debates sem o mínimo resultado e com a triste sensação de que o povo não merece ser ouvido e muito menos respondido.
Pelos quatro cantos do país só se vê filas intermináveis que começam ainda de madrugada na porta dos hospitais, muitos destes caindo aos pedaços e com um número de equipamentos quebrados que dá inveja a qualquer ferro velho. Incrivelmente ano após ano a nossa saúde se supera e consegue ficar ainda pior. Com resultados bem abaixo do esperado, nossa saúde consegue ser mais cara do que muitos países ricos e o nosso governo tem se empenhado ao máximo para deixá-la cada vez mais cara e sucateada.
No ano de 2000, a Organização Mundial da Saúde fez um estudo completo sobre os sistemas de saúde espalhados pelo mundo e dos 190 participantes, o Brasil ficou em 125º lugar, uma posição vergonhosa. Passados 17 anos dessa pesquisa, comprovadamente não avançamos muito, ainda ocupamos uma posição medíocre. A saúde pública no Brasil custa muito caro e não entrega um serviço proporcional ao investimento. Pagamos por um serviço europeu e recebemos em troca um made in Senegal.

Saga

O filme de terror é longo, fazer um exame em um equipamento de tomografia de última geração, jamais! Isso porque a Anvisa não aceita a importação de equipamentos que ela mesma não certificou. Não importa quantas certificações o aparelho possua no exterior, pois para entrar no Brasil ele ainda precisará do aval do órgão. Acredite se quiser, um equipamento médico pode esperar até sete anos para receber o sinal verde da Anvisa, muitas vezes por conta dessa desurgência, torna-se ultrapassado.
Em 2012, o Ministério da Saúde lançou o Índice de Desempenho do Sistema Único de Saúde, que buscava atribuir uma nota de 0 a 10 para o desempenho do SUS nos municípios brasileiros. Para variar o resultado ficou muito abaixo do ideal e, sobretudo, do esperado: 5,4 pontos. O governo buscava atingir 7,0 pontos. Moral da história, o Ministério acabou desistindo de buscar esta meta, talvez imaginando que não seria possível alcançá-la tão cedo.
No Brasil, até o mês de março de 2016, havia 268 escolas médicas em plena atividade. São 146 particulares, 75 federais, 32 estaduais, 13 municipais e duas públicas. A China, com mais de um bilhão e 300 milhões de habitantes em 2010, possuía 150 cursos médicos; os Estados Unidos, com população de mais de 300 milhões naquele ano, contava com 131 faculdades de Medicina. A previsão para até 2020 é que 32 mil médicos se formem por ano. Em 2016 foram formados mais de 21 mil médicos. Apesar dos significativos números que aumentam anualmente, a desigualdade na distribuição ainda é uma realidade difícil de ser resolvida. A grande maioria permanece nas grandes capitais.
Diante de tudo isso, da certeza de se ter um dos melhores sistemas de saúde do mundo, optou-se por torná-lo o pior, o mais ineficiente e, sobretudo, voraz no que diz respeito aos gastos que ele carrega. Com o muito de ruim que a política nos delega, a cultura que prevalece é a da corrupção, aquela que leva o país à decadência moral. A cultura do roubo se institucionalizou, com isso o honesto virou uma espécie em extinção, ser correto é mérito com direito a placa de agradecimento e aplausos, mesmo correndo risco de morte.

ARTUR RODRIGUES | [email protected]


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Um comentário

  1. Muito bem colocadas as suas palavras Arthur. Sem contar que os gestores não são gestores, são apadrinhamentos oriundos de políticos. Eu mesma tenho três pós-graduações no setor da saúde (Administração Hospitalar, Gestão da Saúde Pública e Administração Pública) e não consigo entrar nestes órgãos de jeito algum, pois são todos cargos de apadrinhamentos políticos, nenhum por meritocracia. É médico sendo gestor, é engenheiro sendo gestor, é um Zé Ninguém sendo gestor.. e o administrador, assim como eu, fica de fora, não podendo colocar em prática tudo aquilo que lhe foi confiado em teoria.
    O dinheiro chega… mas por artérias furadas, onde pinga-se um pouquinho aqui e acolá. Tem jeito? Sim, tem!
    Acredito que começando por sistemas que utilizem uma auditoria financeira séria, compromissada com a transparência do destino de cada centavo recebido. outra coisa é colocar pessoas capacitadas e dispostas a trabalhar. É tanta gente neste guarda-roupa governamental que os cabides de emprego partidários derruba toda a vontade de se fazer uma gestão transparente e séria.
    Desenvolver um sistema de marcação de consultas, fiscalizar os profissionais ruins, padronizar o atendimento de forma que todos possam falar a mesma língua, reformular essas regras da Anvisa que possibilitará a entrada de equipamentos utilizados em países de primeiro mundo…
    são muitos os obstáculos, mas resolvê-los requer ética, transparência, competência, caráter e fé.

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