segunda-feira, 15 de julho de 2019

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Capa / Bastidores e Notas - Por Aurélio Paiva / A selfie da Medusa e a selfie ao lado de cadáver do cantor Cristiano Araújo

A selfie da Medusa e a selfie ao lado de cadáver do cantor Cristiano Araújo

Matéria publicada em 28 de junho de 2015, 09:00 horas

 


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O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação.
 (Fernando Pessoa)

A selfie (autorretrato) invadiu o mundo principalmente depois que os telefones celulares passaram a ter câmeras de frente. Creio que o primeiro registro histórico de uma fotografia foi o rosto da Medusa gravado no escudo de Perseu, no mito grego. O escudo de Perseu foi a primeira câmera frontal relatada. Mas foi uma selfie a contragosto: a Medusa foi obrigada a ver naquela câmera frontal o seu próprio rosto aterrorizante, que petrificava a quem o olhasse, e ver ali o momento da própria morte, sendo decapitada por Perseu.
Se fosse hoje, a Medusa não teria tanto medo de ver seu próprio rosto refletido em uma câmera. Na verdade provavelmente compraria uma, faria algumas selfies e postaria no Facebook: “Eu e minhas cobrinhas na cabeça, exibindo novo penteado”. Sem falar que certamente, com o auxílio de um pau-de-selfie chinês, tiraria fotos ao lado dos homens transformados em estátua de pedra pelo seu olhar para postar no Instagram.
Não creio que o rosto da Medusa no Instragam ou no “Face” transformaria alguém em estátua de pedra. Nas redes sociais há muitas selfies, fotos e vídeos mais petrificantes.
O mais recente foi o vídeo e as selfies que uma senhora, que trabalha em uma clínica de Goiânia, ao lado do corpo do cantor Cristiano Araújo, vítima de um acidente de carro, na quarta-feira. O corpo estava sendo preparado para ser embalsamado. A funcionária filmava o corpo com o abdome aberto e outro funcionário fazendo o trabalho. Em dado momento chega a pedir ao funcionário: “Dá um tchau”. Em seguida filma o próprio rosto ao lado do cadáver.
Os gregos criaram personagens mitológicos capazes de explicar sobremaneira o comportamento humano. Mas nenhum deles consegue, isoladamente, refletir a total falta de senso de pessoas em eventos como este.
Observem a expressão da funcionária da clínica que fez a selfie. Ao contrário da Medusa de Caravaggio, a funcionária exibe uma expressão tranquila, de quem está se sentindo realizada. Mais: nota-se uma expressão orgulhosa por estar se achando única, como se por osmose absorvesse a fama do cantor. É o olhar vaidoso. Não vê refletido na câmera o rosto da Medusa a praticar tal ato petrificante . Pelo contrário: mascara-se  de Narciso e vê refletida no cristal líquido uma beleza interna que não possui. Por pura vaidade.
O episódio de Goiânia é apenas mais um no amplo universo paralelo conhecido como redes sociais. Um mundo bem melhor que o nosso cotidiano. Um mundo onde todos são ricos, felizes, charmosos, sedutores e inteligentes. E onde todos podem ser famosos entre si. Criando, em alguns, um vale-tudo pela fama efêmera.
A vaidade de ser o que não é, como definiu o poeta português Fernando Pessoa.

Da mitologia ao teatro grego:
a tragédia que vira comédia

Em janeiro deste ano uma jovem de 17 anos conseguiu ficar famosa na internet em uma tragédia pessoal. Motivo: fez selfie do próprio acidente.
Ela estava de carona no carro com um rapaz de 24 anos. Primeiro, fotografou ele e a si mesma dizendo: “cozido”, o que seria uma gíria local,  mostrando que ele estava bêbado. Em seguida fotografou o velocímetro do carro marcando 180 km/h. Ia postando tudo nas mídias sociais.
O carro capotou. Ainda dentro do carro postou mais uma selfie: de cabeça para baixo e pedindo socorro.
Por fim fez uma selfie com o rosto machucado e a legenda: “capotou”.
Não dá para fazer filosofia em cima do episódio. Até porque ele se equilibra na linha que separa o cômico do trágico.
Mas na internet foi o cômico que deu fama à moça. Não faltaram piadas. A de maior sucesso veio do site de humor Insoonia, que simulou uma questão do ENEM.
Vamos a ela:

(ENEM 2015) – Seu veículo se envolveu em um acidente porque você estava dirigindo a 180km/h. Qual seria sua primeira providência ao recuperar a consciência:
A) Pedir socorro aos passantes
B) Ligar para os bombeiros
C) Ligar para o SAMU
D) Ligar para a polícia
E) Fazer selfie com a cara toda arrebentada para ganhar like

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Esta é a questão: na internet você nem sempre escolhe como sua fama vai emplacar. A princípio a moça imaginou que ia se destacar por estar ao lado de um rapaz. Em seguida por estar andando a 180 Km/h. Na foto seguinte observa-se um real pedido de socorro. Em seguida a selfie sem noção do rosto machucado.
A internet não perdoa. A fama, que a moça pretendia que fosse por superioridade, lhe veio na forma inferiorizadora de chacota e zombaria.

A selfie do bobo que
destruiu uma fortaleza

Os exageros nas selfies não tem limite geográfico, de idade ou mesmo religião. Neste caso um episódio curioso ocorreu no início deste mês. Um jihadista do Estado Islâmico (EI) postou, nas redes sociais, uma selfie em frente ao quartel-general do grupo.
Como muitas destas redes permitem a geolocalização, os EUA imediatamente identificaram o local e, em menos de 24 horas, bombardearam o quartel-general.
O general americano Hawk Carlisle, da Força Aérea, narrou o episódio dizendo que jovens do serviço de inteligência de uma base aérea estavam trabalhando em uma rede social quando, em fórum aberto, “se deram conta de que este bobo estava no centro de comando”.

Injustiça com o bobo

Chamar o jovem jihadista de bobo é uma injustiça histórica.
Os bobos da corte costumavam ser muito inteligentes, excelentes comediantes e sua sagacidade era apreciada. Em muitos casos tinham a liberdade de apontar defeitos e satirizar quaisquer membros da corte, inclusive o próprio rei.
Há uma passagem bem esclarecedora em Rei Lear, de Shakespeare, em um dos diálogos  entre o rei e o seu bobo.
Recapitulando, Lear reinava na Inglaterra até que decidiu dividir o reino entre as três filhas. Mas antes queria que cada uma expressasse seu sentimento de amor e gratidão a ele. Duas filhas o bajularam ao extremo, enquanto a terceira respondeu-lhe sem adulação: “Infeliz de mim que não consigo trazer meu coração até minha boca. Amo Vossa Majestade como é meu dever, nem mais nem menos”.
Como se estivesse no Facebook, Lear curtiu as bajulações das duas primeiras filhas e dividiu a administração do reino entre elas. A terceira (a sincera) ele deletou do seu grupo – privou-lhe de todos os bens, expulsou-a da Inglaterra e a entregou ao rei da França.
O velho rei pagou caro pela sua vaidade – de novo a vaidade. As duas filhas bajuladoras que inflaram seu ego tomaram-lhe tudo. O reino e todos os bens. Deixaram-lhe o bobo da corte.
Na miséria material e quase louco, o rei recebe a sentença do bobo no seguinte diálogo:
BOBO: Se tu fosses meu bobo, titio, ias apanhar muito pra aprender a não ficar velho antes do tempo.
REI LEAR: Como assim?
BOBO: Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.
Eis a questão. Com seu inconsequente exibicionismo nas redes sociais, o jovem jihadista do EI cometeu o mesmo erro do velho Lear: sucumbiu à vaidade. E como no reino destruído do personagem, causou a destruição do seu quartel-general.
Na era digital não é preciso ser rei para, com ações simples e impensadas, detonar acontecimentos com graves consequências para si e para os outros.
Qualquer bobo sabe disso.
Mas nem todo mundo é bobo. O que é uma pena. Os bobos costumam ser mais sábios.

É possível ter solidão mesmo
com milhares de amigos no Face

A esta altura é preciso deixar bem claro que a coluna não tem nada contra selfies e muito menos as redes sociais. Pelo contrário. São mecanismos interessantes para conversar com amigos, reencontrar velhos conhecidos, expor ideias, agilizar tarefas profissionais e postar fotos.
A coluna está se atendo aos exageros e, ao mesmo tempo, tentando estabelecer as diferenças entre o universo real e o universo paralelo que surgiu a partir das novas tecnologias – com suas vantagens e riscos pessoais e sociais.
Inclusive a inspiração para esta coluna veio de uma palestra do professor e historiador Leandro Karnal, que me foi passada em vídeo por uma amiga. Sua palestra é literária e ele busca transportar o personagem Hamlet, da peça homônima de Shakespeare, para os dias atuais. Será que Hamlet estaria nas redes sociais?
Karnal é bem radical neste ponto: “Hamlet é o anti-facebook. Ele não só não é feliz como não faz questão de parecer feliz. Hamlet é melancólico. tem uma consciência brutal. E quem tem consciência brutal não sorri nem compartilha sua vida medíocre o tempo todo”.
O professor ainda acrescenta:
– A consciência moderna nos leva ao grande mal da humanidade: a solidão estrutural. A modernidade nos trouxe a diversidade política e religiosa. Como não tenho amigos, tenho 3.000 no “Face”. Como não tenho nada interessante para mostrar, eu fotografo tudo. Isso é sinal não de um Narciso fraco, mas um Narciso que não ouve ninguém.
A palestra de Karnal, claro, vai além do transporte teórico de Hamlet para a vida atual. Na verdade ele faz um belo ensaio literário sobre Hamlet. E, mesmo “en passant”, evoca personagens mitológicos aqui abordados, como a Medusa e Narciso, em ótica (genial) diversa da aqui apresentada.
O fato é que uma discussão sobre “ser ou não ser” membro das redes sociais é de certa forma um Fla-Flu. Por isso foge da pretensão da coluna. O que se propõe, repita-se, é a abordagem do narcisismo exacerbado nas redes, que muitas vezes vai além dos limites até de civilidade.
Até porque ser Hamlet é algo muito doloroso em qualquer época. A plena consciência destacada por Karnal pode ser depressiva. Não dá para olhar para a Medusa o tempo todo, às vezes precisamos ver um pouco do Narciso na fonte dos desejos e dos sonhos.
O grande problema trazido pelas redes sociais são as pessoas que acreditam de verdade que são o próprio Narciso.
Narciso ficou tão admirado de si mesmo que definhou até morrer vendo sua própria imagem na fonte, apaixonado por ela. Há também a versão de que ele teria se afogado ao mergulhar na fonte atraído por sua própria imagem.
Reza a lenda que naquele local nasceu uma flor, porém era estéril e narcótica (narcose vem de Narciso).
Só uma pessoa sob efeito narcótico é capaz de fazer selfie ao lado de um cadáver e postar para seus amigos e desconhecidos. Ou se fotografar em um acidente automobilístico com a face dilacerada. Ou passar a maior parte do tempo postando cada momento da vida privada. Ou ficar criando momentos sintéticos de felicidade para consumo externo.
O fato, enfim, é que não dá para viver entorpecido em um mundo paralelo, sob pena de tornar estéril a vida no mundo real – assim como a flor de Narciso.

Aurélio Paiva| aurelio@diariodovale.com.br

 

 

 

 


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17 comentários

  1. Avatar

    O texto é excelente.

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    Ótimo texto! Analogias interessantes.

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    Muito inteligente seu texto, condiz totalmente coma realidade que vivemos hoje! Parabéns!

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    Luiz Eduardo Monteiro Alves

    Gostei do texto ótima visão de tudo estamos vivendo numa rede social imaginária onde todos somos amigos e fora dela meros idiotas.

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    Ótimo texto. .. me incentivou a buscar outros do autor.

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    Excelente texto! Parabéns

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    Texto de excelente qualidade, trazendo de volta as reminiscências históricas que vinham notabilizando a coluna… O comportamento de todas essas pessoas eu nem considero como falta de respeito deliberada, mas sim falta de bom senso (famoso “semancol”) e leviandade, caracter comum em pessoas que não medem a seriedade da situação (boa parcela da população é assim, diga-se de passagem)…

    Cá entre nós, preferiria ver a cara da Medusa ao acordar do que a dessa assistente de necrotério. É mais feia que caminhão-tanque batendo de frente com ônibus escolar lotado…

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    Excelente matéria Aurélio.

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    Muito boa a materia!

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    Nossa bem legal a matéria,algo de qualidade ‘-‘

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    Esse é o POVINHO existente tbm no Brasil, em proporções gigantescas. A ignorância é enorme. As pessoas são incapazes de se valorizarem como são. Certamente a senhora fazendo autorretrato (selfie), a acidentada pelo capotamento, o jihadista, os jovens americanos da base aérea, assim como tantos facebookistas nunca mais farão a mesma coisa devido às babaquices criticadas pela rede social.

    Mas não servirão de exemplo para muita gente por pura falta de cultura. Quantos conhecia o autorretrato (selfie) da medusa? Quantos vão ler e se corrigir ou mesmo ficarem alerta com essa matéria?

    No Brasil é ate compreensivo devido a falta de pertença cidadã ao país. Os brasileiros têm vergonha de mostrar o lado inteligente (quantos e quantos especialistas, professores e ate mesmo os entendidos em determinado assunto se omitem de mostrar o que é certo) em detrimento a burrice coletiva.

    Fui a uma festa vestido de caipira conforme o convite – só eu e familia além do anfitrião e família. Lá ouvi de alguns justificando por não terem se vestido conforme pedia a festa. Fiquei embabacado com algumas respostas: tenho vergonha, o que vão pensar de mim, esqueci, entre outras. Mas no FACEBOSTA estão fazendo coisas piores, sem qualquer vergonha ou desculpa.

    Esse é o POVINHO!

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    Perfeito. Tá uma orgia no pior sentido da palavra essa coisa toda nas redes sociais.

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    É isso. Falou e disse. Tudo!

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