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A sexta extinção e o colapso dos oceanos

Matéria publicada em 23 de setembro de 2016, 13:07 horas

 


Humanos estão causando estrago igual ao do impacto de um asteroide; extinção descontrolada vai nos afetar cedo ou tarde

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A Nasa anda preocupada com a possibilidade de um asteroide colidir com a Terra, provocando um evento de extinção em massa. Mas mesmo sem asteroide nosso planeta já está sofrendo um ataque contra a sua biosfera equivalente ao de uma catástrofe cósmica. Esse é o tema do livro “A sexta extinção”, da pesquisadora Elisabeth Kolbert, que ganhou o prêmio Pulitzer no ano passado. Através da caça, da destruição das florestas e da pesca os seres humanos já colocaram inúmeras espécies de animais e vegetais a beira de se tornarem extintos. O estrago causado por nossa espécie é comparado, pela autora, ao impacto do asteroide que matou os dinossauros há 75 milhões de anos.

Chamada de catástrofe do Cretáceo-Paleogeno a morte dos dinossauros foi a quinta extinção em massa na história do nosso planeta. A maior de todas foi a extinção do Permiano-Triássico, há duzentos milhões de anos, que matou 96% de todos os seres vivos do planeta. A causa pode ter sido a erupção de um super vulcão e a liberação de metano do fundo dos oceanos. Outras extinções foram atribuídas a explosões de estrelas supernovas perto do nosso sistema solar ou a acidificação dos oceanos por uma série de mecanismos.

Mas o que distingue as extinções anteriores, da atual, é que elas foram provocadas por eventos naturais. A atual é a primeira provocada por uma espécie supostamente inteligente. Que está mudando o clima do planeta através da queima de combustíveis fósseis e caçando e pescando os animais de grande porte sem dar tempo para eles se reproduzirem.

Um estudo da universidade de Stanford, publicado pela revista Science, focaliza o impacto da ação humana sobre a vida nos oceanos da Terra. E conclui que “a eliminação seletiva dos maiores animais dos oceanos modernos, algo sem precedentes na história da vida animal, pode alterar os ecossistemas durante milhões de anos”. Segundo o principal pesquisador do estudo, Jonathan Payne, “quanto maior um animal marinho, maior é a chance de ele se tornar extinto”.

Se a pesca predatória continuar do jeito que está os mares do futuro não vão ter baleias, nem tubarões, bacalhaus ou atuns. Esta semana o grupo Greenpeace iniciou uma campanha pela internet, visando transformar o oceano Atlântico Sul em um santuário para as baleias. É um pequeno passo, mas não resolve o problema, já que os barcos da frota japonesa e de outros países, que ainda caçam baleias, podem se deslocar para outros mares. E os cetáceos não vão ficar restritos a faixa de oceano entre a América do Sul e a África.

Mas o problema vai além dos animais de grande porte. Eles fazem parte de uma cadeia alimentar e seu desaparecimento vai afetar outras espécies menores. Que podem se multiplicar descontroladamente sem a ação dos grandes predadores. O resultado final pode ser a extinção de 40% de toda a vida marinha, na melhor das hipóteses ou até 70% no pior dos cenários.

Mas o problema não será resolvido apenas com o fim da caça as baleias ou da pesca predatória do atum ou do bacalhau. O aquecimento do planeta e a acidificação dos oceanos também precisam ser evitados. Do contrário podem matar o planctom e os animais que estão na base da cadeia alimentar marinha.

Como espécie inteligente e dotada de tecnologia somos os guardiões do planeta e de todos os seres que o habitam. Temos o dever moral de cuidar do único planeta habitável que conhecemos no Universo. Porque uma extinção descontrolada vai nos afetar também cedo ou tarde. É só pensar nas populações que dependem do mar, da pesca para a sua subsistência. E que vão passar fome e virar refugiados se o oceano morrer. Também temos o dever de preservar para gerações futuras a experiência única do contato com as grandes baleias. Os maiores animais que já habitaram a Terra.

 

 Livro: Alerta ganhou o prêmio Pulitzer em 2015


Livro: Alerta ganhou o prêmio Pulitzer em 2015

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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